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Sábado, 11 de Outubro de 2008
VERDADES
As verdades são “nietzschedas”. Só não vê quem não quer
por Valmir Costa

Dois amigos gays se encontraram depois de 10 anos, Carlos e Rogério. Entre outras indagações para colocar os assuntos em dia, Carlos pergunta se Rogério está namorando. Ele responde que não, que já se apaixonou muito, sofreu, e está sossegado quanto a isso. Diz que, quando está com o cio à flor da pele, vai a saunas ou em sex clubs, pois sexo é fácil; amor, não. Carlos fica perplexo com o que ouve. Acha que Rogério está errado, que virou promíscuo, que retrocedeu na vida, lhe diz que “A vida tem várias formas de saber viver”. No entanto, apesar dessas várias formas, querendo ou não, Carlos concorda com tudo o que a sociedade estipula como sendo correto. Assim, prefere se acovardar diante dos seus “instintos mais primitivos”, mas estes instintos são todos os impulsos interiores, independente da razão e de considerações de ordem moral, que faz o indivíduo agir, que faz com que esta ação seja anti-social. O que Carlos tentou empurrar goela abaixo de Rogério é que o que ditaram para ele, como sendo correto, não é uma imposição. São apenas valores próprios dele. Já o que Rogério faz, e que ele acha errado, é uma escolha.

divulgação

Os nomes Carlos e Rogério são fictícios, mas a história é real. Este impasse foi bem ilustrado no filme O Segredo de Brokeback Mountain entre os personagens Ennis del Mar, interpretado por Heath Ledger (1979-2008) e Jack Twist, vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O caubói vivido por Ledger aceita uma verdade social, e nega a verdade dos seus instintos mais afetivos e carnais. Tudo seria uma questão de escolha? Respondo de forma assertiva: sim e não!

Venhamos e convenhamos. Quantas vezes temos essa verdadeira opção, a escolha? Se fosse assim, quem escolheria fazer parte de uma das consideradas minorias sociais e, além de tudo, morar longe? Garanto que poucos ou ninguém ou aqueles com tendências masoquistas. O poder da escolha é apenas uma só: a de submeter-se ou não, pois “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, como disse Caetano. Isso faz retomar o conceito de verdade de Nietzsche. Em Para Além do Bem e do Mal, ele nos coloca a “realidade” como algo móvel que teimamos dizer ser imóvel. É aí que a realidade se revela como verdade absoluta.

Verdade e realidade são equivalentes. Nietzsche apontou as divergências entre Boscovich e Copérnico. Enquanto o primeiro dizia que o sol girava em torno da terra, o segundo disse o contrário. Copérnico pagou caro por isso ao refutar a verdade da Igreja, que era de acordo com o pensamento de Boscovich. Passados os anos, já se sabe que Copérnico estava certo. A verdade antes pensada caiu por terra.

Mas o que Nietzsche nos aponta é a multiplicidade dinâmica do mundo, de acordo com os instintos humanos, e não estática como prega a lógica de Platão: a racionalidade. O que inúmeras pessoas não aceitam é que, apesar dos valores existirem, eles não são estáticos. E todos eles são interpretados a partir de uma pluralidade de forças. Sendo assim, não há valores universais.

Para Nietzsche, os opostos verdade/falsidade não existem porque estão no nível perspectivo da interpretação. E são várias as formas de interpretar o mundo. Cada olhar vê o mesmo objeto, mas de forma diferente e sob várias perspectivas. Logo, a oposição bem/mal é relativa. Vai depender do poder estabelecido. Por isso, Nietzsche diz que a moral é as “teorias das relações e dominação” que se origina o fenômeno “vida”, salientando que “nosso corpo é apenas uma estrutura social de muitas almas”. E se a moral é a teoria desse fenômeno vida, todas estas angústias e questionamentos são sintomáticos de acordo com a visão nietzscheana.

O espelho do outro – O saber estar no mundo é o saber obedecer às regras, pois se tem a racionalidade delas, pois é um truísmo, ou seja, uma verdade absoluta de que 2+2=4. Diante disso, Nietzsche levanta três questionamentos de como o ser humano se coloca diante das verdades e das escolhas em Crepúsculo dos Ídolos: “Você corre à frente? Como pastor ou como exceção? Ou como fugitivo?”. Se como pastor, sabe se prover na vida e guiá-la. Aquele que corre como exceção, vive de acordo com o modo e a dependência do outro. Ele nem existe, mas o outro sim. Já o fugitivo é o que deixa de viver porque o que pensam importa mais do que o seu próprio querer fazer. Ele tem consciência das coisas, mas foge da vida. Enfim, dá uma de Madonna na Argentina: Evita!

Quanto à segurança de si, Nietzsche prossegue: “És alguém que olha? Ou estende a mão? Ou desvia o olhar e se afasta?”. O primeiro deles é a verdadeira consciência de si, que “sabe o que é” e “o que quer”. Por isso, sabe estender a mão, ou popularmente, “dá a cara para bater” e construir novos valores nas inter-relações. Aquele que desvia o olhar e se afasta, não consegue ver ou entender o outro. Mesmo entendendo, se afasta. É a fuga de si por espelhar-se no outro.

Por fim, Nietzsche põe à prova o ser no mundo: “Queres ir com os outros? Ou mais adiante? Ou caminhar só?”. Diante destas escolhas, o que se sabe é que é difícil caminhar só. São necessárias as relações interpessoais. Porém, é possível caminhar adiante do pensamento coletivo e, caso não queira, seguir só. Isso porque, como diz Nietzsche, “importa saber o que se quer e que se quer”.

No entanto, o filosofo alemão vai mais fundo e expõe as máscaras que a sociedade se esconde: “És sincero ou só comediante? Representa algo ou és a própria coisa representada?”. É como dizer: seja você mesmo e sem hipocrisia, não brinque com sua vida! Se comediante, não se leva a sério. Foge das suas angústias e do autoconhecimento. Ou se é assim mesmo ou uma representação? Pior: “talvez seja apenas a imitação de um comediante”, alfineta Nietzsche.

Logo, nossas vidas são pautadas mais nos critérios antagonistas entre o ser isso e não ser aquilo, ou vice-versa, do que nas multiplicidades de escolhas que poderíamos ter de acordo com uma “nova concepção de vida” como propôs Nietzsche. Segundo ele, “a vida é uma vontade de potência”. Essa potência nada mais é do que a coragem de escolher o bem da verdade interior a viver a verdade social exterior plastificada e perfeita.

Os que se submetem, aceitam. Os que não, fazem como John Lennon: “vamos encarar a realidade”, ou seja, a verdade interior. Muitos encaram as suas realidades, movidos pela perfeição que lhe ditaram, desobedecendo-as. Afinal, “perfeição demais agita os instintos”, como canta Zélia Duncan. E “quem se diz muito perfeito, na certa, encontrou um jeito insosso para não ser de carne e osso”. Disse tudo! Ou como o chavão de Sabrina Satto, “é verdade!”

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Comentários dos leitores (11)
Fabio quer alguem!24/08/2010 19:59
Fabio quer alguem!24/08/2010 19:59
Sei que aqui não é o melhor lugar mas......................................... alguem afim de casar comigo e me levar embora de preferencia pra outro mundo... estou muito decepcionado com esses kras que só pensam em sexo.. sexo.. sexo e sexo!! Ta sexo é muito bom ainda mais quando se faz com alguem que vc realmente gosta... mas sexo por sexo e só isto, cansei... Quero um kara legal acima de 28 anos, ativo, não precisa ser bonito, acho que vale mais é a quimica entre eu e vc... Se houver quimica kra to afim de um relacionamento serio e sem promiscuidades! Sou passivo, 27 anos, olhos verdes, magro definido,bonito, 70k, 1,80, cabeça raspada não fumo bebo socialmente! Agora se vc estiver afim de algo sério na real se sem frescuras, estarei a disposição para nos conhecermos! Somente acima de 28 anos ok. Meu imail pra contato: focus.day@gmail.com meu celular: 12 88029566 12 81717333 abraços
Eduardo Moura10/11/2009 15:59
Eduardo Moura10/11/2009 15:59
Texto muitissimo bom...e estou aqui para falar um pouco do que a minha familia esta sofrendo... tudo começou no dia 01/11/2009 quando a minha prima revelou para toda a familia que é lesbica nossa foi um baqui para todos nós, mas antes dela falar para todos da sua opção sexual ela tinha uma amiga (com quem ela tem relacionamneto) e todos na familia achava aquilo normal ela e a sua amiga todos os dias dormir juntos e sair juntas e etc.. e todos também deconfiava daquilo mas ficavam calados guardavam para si mesmo por modo de respeito; agora comparando nos dias que ela assumiu todos estão contra ela chingando ela falando coisas que para min ela não merece. esse nome aí emcima não é meu mas eu também tenho sim relacionamento com um um rapaz, estou sofrendo muito por que nem eu e nem ele tem coragem de assumir para a nossa familia que nos amamos, é muito triste agente gostar de uma pessoa e não poder abraçar e fala em "publico" o quanto amamos e queremos sempre estar ao seu lado. eu estou sofrendo dimais e falo para todos e principalemente para essa prima minha vai em frente e lute pelo seu amor. naum ligue para as coisas que essas pesoas fala para vc apenas ame e seja amada. abraço a todos que lerem.
marcos21/09/2009 11:13
marcos21/09/2009 11:13
que bom ainda tem gente que pensa como nos gosto deste tipo de materia.
ricardosandre@hotmail.com29/08/2009 13:38
ricardosandre@hotmail.com29/08/2009 13:38
"Cada um sabe a dor e a delicia de ser o que e" Perfeito.... Muito bem colocado que caminho queremos seguir. Sei que sigo o meu caminho a minha verdade o que eu quero o que eu sou e sou feliz. Optei por minhas escolhas e gracas a Deus ate hoje se obtive sucesso. Antes eu nao entendia que posso amar e que posso so fazer sexo. Para que eu possa me tornar completo aguardo poder conhecer um grande amor e oferecer todo potencial que tenho para amar e ser amado. Um forte abraco e profundas reflexoes em sermos o que realmente somos...bjao
lúcido22/07/2009 23:15
lúcido22/07/2009 23:15
Muito inteligente o texto. De tudo o que mais me interessou foi a questão da "opção". Em todo a mobilização dos homossexuais em busca da verdadeira cidadania e do respeito social, passa-se muito rapida e superficialmente por essa questão. Respeito só se adquire através da força ou através do conhecimento. Como o fator força, seja física ou política, está excluído, resta-nos a via do conhecimento. Explico: é preciso criar uma mídia alternativa (que aos poucos subverta a mídia dominante) esclarecendo a todas as pessoas, desde a infância, de que ser homossexual nunca foi OPÇÃO. É, a meu ver, neste ponto que reside toda a incompreensão da sociedade com relação aos gays. O ser humano tem mais facilidade de aceitar as coisas se as compreende, e quando as compreende. Mesmo a comunidade gay aceita e vive reproduzindo a expressão "opção sexual". (Alguém escolheu ser homossexual? alguém escolheu ser hetero?) Como a imensa maioria é heterossexual, só compreende as coisas através do seu ponto de vista, e não consegue conceber que outros sejam diferentes. A tendência do homem é generalizar o que identifica em si. Portanto, se a maioria sempre se sentiu heterossexual, não faz esforço em compreender que nem todos são iguais. Espero um dia, que os movimentos gays se tornem não um carnaval gay, pois nem há o que se comemorar, mas um movimento de conscientização das mentes no sentido de que não se escolheu ser homossexual mas se É. Não se escolheu ser negro mas se É. Não se escolheu ser baixo mas se É. E, por mais que se ache que é feio ou inadequado ser qualquer coisa dessas, se nasceu assim. Os racistas não gostam de negros mas tem que aceitá-los por que a natureza assim impõe. Da mesma forma quanto aos baixos ou altos, e tambem quanto aos homossexuais. Penso que os gays, enquanto grupo social, tem sua parcela de culpa pela ignorância dominante. Quantos artistas gays se utilizaram do seu poder formador de opinião para alertar as pessoas desse fato? Quantos políticos e cientistas gays o fizeram? quantos psicólogos? Ao contrário, a maioria fala apenas em opção. Não se pede a liberdade de optar, pois optar já é a liberdade. No caso, trata-se de liberdade de viver, e, para isso, penso, é necessário uma revolução cultural que começa pelo repúdio ao termo OPÇÃO no caso da homossexualidade. Concluo dizendo que essa é uma questão política e não uma festa.
joao22/07/2009 16:57
joao22/07/2009 16:57
Sempre quis ler exatamente isto. Que nao fazemos uma escolha, nascemos gays, apenas por circunstacias da vida alguns se descobrem gays cedo, outros mais tarde ate mesmo ja casados.É preciso entender que nao podemos fugir das nossas verdades, ser feliz é o que importa.
Daniel15/07/2009 20:22
Daniel15/07/2009 20:22
O texto veio em boa hora, tempo de mudanças, e me fez pensar bastante, irei imprimi-lo. Obrigado.
Tom17/04/2009 7:43
Tom17/04/2009 7:43
Somente quem passa pela transmutação, sabe "a dor e a delicia". Tempos atrás eu teria abominado esse pensamento. Hoje? hoje... ah...
fabio23/01/2009 9:58
fabio23/01/2009 9:58
Ótimo texto. Com tantas afirmações muito bem fundamentadas escolher ser sicero ou comediante é um processo doloroso mas necessário para todos. Parabéns Como afirma da grande Sabrina Satto, “é verdade!” hehe
Cleiton04/01/2009 11:56
Cleiton04/01/2009 11:56
Até meus 21 anos vivi aprisionado aos "valores" da sociedade. Saí de casa para ir morar sozinho e aos poucos (longe das tias que ficavam perguntando cadê a namorada) fui dando maior importância às minhas próprias verdades. Hoje penso e faço da forma como acredito ser melhor pra mim, o resto que se exploda! A vida é uma só, e vou vivê-la para mim, não para os outros...
Jr.04/01/2009 4:14
Jr.04/01/2009 4:14
Já tinha passado aqui no site algumas vezes, mas tive preguiça de ler este texto. Depois de re-re-rever o filme o Segreto de Brokeback Mountain agora pouco na Globo vi aqui e vejo a foto dos dois. Li o texto e fiquei pensativo. Tem tudo a ver. Agora desconri o sentido do nome da coluna PENSATA! !!! hehehehee
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