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Segunda-feira, 03 de Novembro de 2008
EDITH MODESTO
Mamma Mia!
Autora dos livros “Vida em Arco-Íris” e “Mãe Sempre Sabe?” fala da atuação no cabo de força entre pais e filhos homossexuais no trabalho que começou quando soube que tinha um filho gay.
por Valmir Costa
SÃO PAULO – Edith Modesto, 68, é daquele tipo de mulher que poderia ficar no aconchego do lar fazendo coisas mais amenas. Casou-se com 16 anos, teve sete filhos e trabalhou como professora universitária. Depois de aposentada, debruçou-se para escrever livros infantis e outros dois com temática homossexual: A Vida em Arco-Íris (Record, 2006) e Mãe Sempre Sabe? (Record, 2008). O que a enveredou por este campo foi o fato de ter um filho gay, seu caçula Marcello. Sem saber lidar com isso, arregaçou as mangas para aceitar o próprio filho e também abraçar as angústias de pais e filhos que enfrentam tal situação. Há 11 anos, criou o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH). “Este é o primeiro grupo do gênero no Brasil”, orgulha-se. O GPH funciona no escritório, localizado em sua própria casa, no bairro Alto de Pinheiros, São Paulo. Sabendo de todo este trabalho, o MundoMais fez contato por telefone com Edith para a sua primeira entrevista no Papo+.
“Mas não é um site de homem pelado, é? Não quero ver minha imagem junto de homem pelado”, diz cautelosa. Não e sim foi a resposta. “Terá, mas tudo em seu devido lugar, com página de alerta e dentro dos conformes”, explico. Chego à sua casa e encontro uma mulher falante, pró-ativa, determinada no que faz e diz. Sem titubeio, não quer falar do seu novo livro em si. Deixa transparecer que aquela obra já estava pronta. Mas tinha o Projeto Purpurina, que desenvolve desde julho de 2007 com jovens homossexuais, e merece mais atenção. Leva este nome pelo fato da primeira sede estar na Rua Purpurina, no bairro da Vila Madalena. Hoje funciona na Escola da Rainha, Rua Rodésia, 213. Para muitos, o nome pode ser jocoso. “Mas os próprios jovens quiseram permanecer com o nome; eles gostam”, diz Edith. Os encontros acontecem todo primeiro domingo do mês e reúnem cerca de 80 a cem jovens dos 13 aos 24 anos. “Tenho uma percepção que muitos homossexuais amadurecem mais tarde porque não vivem a sua adolescência como os heterossexuais”, observa. Edith tem apoio da Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual (Cads), mas diz que precisa de patrocínio de entidades civis. “Estou à procura de apoio de entidades civis, pois preciso de mais espaço e materiais”, explica.
A entrevista é interrompida depois de um telefonema. Era uma mãe que tem um filho gay. Com parcimônia, retiro-me do local para deixá-la à vontade. Porém, dava para ouvir o tom firme e decidido que falava com a mãe. Sem papas na língua, questiona se o jovem é afeminado, se é carinhoso com a mãe, rebelde, o único filho homem, se o marido sabe e está em casa. Edith marca para ela ir à sua casa. Também pede para falar com o adolescente. As conversas são distintas, e demonstram duas vertentes da relação entre pais e filhos. Para o rapaz, ela diz que o lugar é bacana e que ele não está sozinho. Pode fazer amizades e até arrumar um namorado. “E por que não?”, questiona ao garoto. “O espírito do projeto é fazer sair do armário, no sentido da auto-aceitação, fazer amigos e ver que há outros como eles”, explica Edith. É desta forma delicada que ela tenta articular as relações afetivas neste desencontro marcado entre pais e homossexuais para torná-las harmônicas.
MundoMais: Qual a filosofia do Projeto Purpurina?
Edith Modesto: Amor, afeto, solidariedade em um projeto multicultural. Este é o espírito. Além de pensar que o adolescente homo-afetivo é como o heterossexual com os mesmos defeitos e direitos. Adolescente é adolescente e seu comportamento não muda em função da orientação sexual.
MM: Mas não existe diferença entre gays e héteros jovens?
EM: Eles têm vida dupla, pois os pais não sabem o que eles são. O adolescente hétero, o pai sabe o que ele faz.
MM: Há muitas meninas no grupo?
EM: Há um número menor de meninas. Elas escondem com mais facilidade. Normalmente, elas se abraçam, andam juntas, se beijam. Se a menina quiser, ela esconde. São os meninos que mais sofrem.
MM: Qual a relação existente na trilogia pais-homossexualidade-filhos?
EM: Alguns pais batem nos filhos, torturam psicologicamente. Mudam eles da escola, tiram o telefone celular, cortam a internet, afastam eles dos amigos. Isso acontece com mais freqüência com os meninos afeminados. Os pais não estão preparados para lidar com isso, mas querem educar. Às vezes, acham quem é problema de hormônio. Estes meninos ficam muito fragilizados. Já os menos afeminados levam mais tempo para enfrentar este tipo de atitude dos pais, mas os afeminados não têm todo este tempo para se auto-aceitar.
MM: Muitos lugares do Brasil e do mundo não têm espaços de freqüência gay como bares e boates. A pergunta sempre é: o que faz um gay nas cidades pequenas?
EM: É verdade. Mas até mesmo em São Paulo ainda tem isso. Alguns ainda não descobriram este lugar. Sendo jovem, é ainda mais difícil encontrá-los quando estão no armário, pois não têm idade nem dinheiro para freqüentá-los. São marginalizados na escola, não têm amigos, não têm para quem dizer “eu me apaixonei por outro garoto”. A única saída é o computador. Mas isto não é bom porque eles ficam na vida virtual; não na vida deles. Mas aqui em São Paulo muitos jovens freqüentam a Praça Alexandre [Praça Alexandre de Gusmão], perto do Parque Trianon.
MM: São os mesmos que freqüentavam a Alameda Itu, nos Jardins, e foram expulsos de lá pela vizinhança e pela polícia?
EM: Sim, são. Já houve protestos da vizinhança dizendo que eles sujam o local, fazem sexo, estas coisas. Mas o Projeto Purpurina atua na praça com voluntários do próprio grupo. Detectaram dois tipos de público. Um mais novo, que fica até 22h ou 23h, e volta para casa, pois os pais não sabem. E o mais velho, que bebe mais, e faz o que não deve. A proposta é trabalhar junto à Cads para dar melhor infra-estrutura ao local e treinar policiais. Inclusive, já fiz uma palestra com policiais sobre o assunto. Eles não fazem nada que outros jovens héteros não façam. Só que não podem fazer em qualquer lugar, mas têm que fazer porque são jovens e adolescentes como qualquer outro. Bobagem todo jovem faz. Ou por falta de apoio ou de caráter.
MM: Qual a postura do governo e da Cads quanto a isso?
EM: Sugeriram que se fizesse um mapeamento. Mas não aceitamos. Se não faz um mapeamento com jovens heterossexuais, para saber da sua procedência, não precisa fazer com os homossexuais. Queremos discutir a parte lúdica, da diversão, do entretenimento. Vamos falar da questão de bebida. Jovem bebe mesmo, ainda que seja proibido, mas eles burlam o sistema. Queremos discutir este comportamento e encontrar alternativas para que eles fiquem lá em harmonia.
MM: A senhora escreveu dois livros sobre homossexualidade em um espaço de dois anos. Mudou muita coisa nesse período?
EM: Penso que mudou. Vejo mais gays em novelas e assuntos da diversidade sendo mais conversados. Não que não tenha preconceito, pois ele existe, mas há mais visibilidade e diálogo.
MM: No seu livro “Mãe Sempre Sabe?”, a senhora questiona e faz outras perguntas nos capítulos do livro. No entanto, não dá uma resposta exata. Mãe sabe ou não sabe?
EM: Não gosto de respostas definitivas e exatas. O ser humano é soberbo para saber de tudo geralmente. Quero levar reflexão aos pais de que, uma vez sabendo, precisam amar os seus filhos. Assim também como os filhos devem demonstrar esse amor às mães e aos pais. Eles também precisam saber que são amados pelos filhos.
MM: Havia em Belo Horizonte um bar chamado “Mamãe Já Sabia”. Concorda com isso? Se sim, há a necessidade do filho homossexual verbalizar sobre sua opção sexual?
EM: Jura? (risos). Eu não sabia!
MM: Que tinha o filho gay ou do bar?
EM: Dos dois, mas é engraçado o nome. Eu não sabia, pois eu imaginava que era algo longe de mim, como se eu vivesse numa bolha. Por isso, procurei informações com outros pais e, principalmente, com os homossexuais, que se mostraram como alguém normal, que ama, sofre que têm sonhos. Essas coisas.
MM: Nos livros que escreveu e nas entrevistas que deu, a senhora expõe a responsabilidade mais às mães e não aos pais ou outros membros da família como os irmãos não comenta a reação deles.
EM: Bem, não coloque palavras na minha boca. Pode parecer um achismo danado. O homem é educado para não ter sentimentos, e é mais racional, mas eu sei como os homens são. Eu não falo como meu marido. Ele gosta, ama o filho e não discrimina, e sei que não tem dificuldade. Já teve como eu também tive.
MM: Mas é a mãe que sente mais culpa por agir, digamos assim, “em nome do pai”, como um canal entre o pai e o filho homossexual?
EM: Sim, a culpa vem pela falta de aceitação. Algumas mães do GPH já bateram nos filhos por causa disso. A aceitação é um processo longo. Uma mãe, por exemplo, já tinha aceitado a filha como lésbica e até sua namoradinha, que freqüentava a casa. Até o dia em que a namorada da filha a chamou de sogra. Ouviu como resposta “sogra é a puta que te pariu!”. Esses assuntos, como outros, são levados nas reuniões dos pais. Como disse, é um processo.
MM: Já se sentiu discriminada por apoiar esta causa? Seja por pessoas próximas ou amigas que não querem associar a sua imagem à delas, seguindo a lógica preconceituosa: Quem anda com ela tem filho gay. Logo, se eu andar com ela, também tenho um?
EM: Eu noto uma restrição. Alguns cumprimentam, mas não têm relação de amizade. Também prefiro não ter este tipo de amigo! Tenho os amigos do grupo, sinceros, verdadeiros e isso é o que importa. Mas uma vez fui discriminada num congresso da GPH em Brasília. Numa lanchonete, uma balconista se negou a me servir um milk shake de morango. Disse que não tinha. Depois vi as pessoas saírem com um. Voltei e tornei a perguntar. Ela disse que não. Percebi depois que foi discriminação. Ela sabia que eu estava no congresso de “gay” e viu a blusa com a logomarca do grupo. Além do mais, era evangélica.
MM: Por estar engajada nestes trabalhos, define-se como militante?
EM: Eu não sou militante. Faço trabalho social, de sentimento. É um trabalho mais afetivo e particular. Mas a militância é importante e lida com questões mais políticas.
MM: O que acha da decisão do grupo militante que decidiu trocar a sigla GLBT para LGBT para colocar a mulher lésbica na frente e não ser machista?
EM: Eu estava na reunião. Para mim, tanto faz como tanto fez. A militância, às vezes, inventa certas firulas como essa salada de letrinhas. Se eu puser todas as variantes homossexuais na sigla do GPH vai ter pai que não entra, pois atendo travestis, transexuais. Vai ser letra para não acabar mais e confunde tudo.
MM: Um gay ou lésbica que nunca verbalizou aos pais, mas que já está na fase adulta, acha importante que ele(a) verbalize?
EM: É difícil. Mas se está bem, melhor ficar calado. Mas se perceber que existem dificuldades de aproximação por causa disso, melhor falar. Assim podem se aproximar do pai ou da mãe. Mas se os pais tiverem velhinhos, melhor não, né? Até porque gays adultos já têm uma família estendida que constroem durante seu período de aceitação. Muitos até por terem saído de casa.
MM: Para terminar, o Mix Brasil publicou entrevista com o jornalista Eduardo Gregori, que o pai expulsou de casa por ser gay. Vinte anos depois, o pai pede à Justiça pensão alimentícia, sem consultá-lo antes. Soube deste caso?
EM: Sim, recebi uns e-mails de alguns amigos. Acho isso um absurdo! Agora ele vê que precisa do filho? E quando o filho precisou dele o que ele fez? Se o juiz for favorável à decisão, vai ser outro absurdo, ainda que a lei garanta ao idoso tal benefício. Mas aí é que entra a militância para protestar, ou seja, a força política que se espera dela. Mas gay não vota em gay, não é? Então, quem vai garantir isso? Este pai nunca pensou nem amou o filho. Pensa apenas no dinheiro. Isso não é gente. É um bicho! (esbraveja).
SERVIÇO
Grupo de Pais de Homossexuais (GPH)
Fone: (11) 3031-2106
Site: www.gph.org.br
Projeto Purpurina
Fone: (11) 3031-2106
Orkut: Projeto Purpurina
E-mail: projetopurpurina@gmail.com
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