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Quinta-feira, 19 de Março de 2009
CORPO
Se a barriga é tanquinho...
Os anos 2000 revelam o novo ponto de obsessão da anatomia do homem
por Valmir Costa

IlustraçãoOs anos 2000 revelam o novo ponto de obsessão da anatomia do homem: o tanquinho

Em 1908 a revista humorística Careta fazia crítica à nova vaidade masculina. Chamava o homem vaidoso de “representante desse sexo que se diz barbado e vive a depilar-se agora”. Cem anos depois, este homem raspa não só a barba, mas outras partes do corpo como peito, abdômen e, quiçá, as pernas. Tudo para exibir o que os pelos escondiam: os músculos. É exatamente este modelo representado pelos anos 2000 para a estética corporal masculina.

A revista Men’s Helth [Saúde dos Homens], lançada nos Estados Unidos em 1986, é a maior representante desta nova estética máscula. Além dela, claro, as revistas gays, que usam os corpos torneados masculinos em suas páginas e capas. A Men’s Helth é veiculada em 48 países. A versão brasileira foi lançada em maio de 2006.

De lá para cá, pode-se perceber qual o local que a alma deste homem moderno deve ocupar: o corpo sarado. Todas as edições da Men’s Helth dão destaque na chamada para o abdômen. “Tchau Barriga”, já dizia a primeira edição. As demais dão destaque para os músculos, sobre emagrecimento, à boa forma, mudança de hábitos para um corpo ideal e para a perda do pneu, ou seja, mais uma vez a região da barriga. Não é à toa que os homens da capa da Men’s Helth ostentam uma barriga, ou melhor, um abdômen sarado, rasgado e cheio de gominhos.

Só muda o nome – A barriga tanquinho se tornou o novo ponto de obsessão da anatomia do homem e está impregnada em todas as culturas. Só muda o nome. Como dois exemplos, este tanquinho é chamado nos Estados Unidos de six pack [pacote com seis] e na Itália addominali a tartaruga [abdômen de tartaruga]. Mas essa barriga tanquinho, que se tornou símbolo do masculino, é metonímica. Ela é a parte pelo todo, pois se pressupõe que, se a barriga é “tanquinho”, o homem é uma Brastemp.

Também é metafórica porque revela a virilidade inflada numa correlação fálica. O pênis é o único órgão externo que se modifica por conta própria. Logo, pressupõe-se nessa representação viril na musculatura como se belos corpos são dotados de belos pênis. Uma correlação erotizada do macho. Mas como o falo causa desconforto, é preciso demonstrá-lo de forma metafórica. Mas nem sempre o pênis cresce ao ponto de satisfazer o “dono” dele.

O que não ocorre com os músculos. Estes sim, se trabalhados com toda a maquinaria das academias, podem crescer. É um processo afirmativo e superlativo de ser homem ou mais do que os outros. Também ocorre no meio gay com aqueles que cultivam os músculos inflados. Receberam a alcunha de “barbie”. Tudo isso por conta do slogan da boneca: “o que você vai querer ser quando crescer? Barbie!”. Enfim, o corpo marombado, mas a alma de boneca.

Do armário para academia – No entanto, tal modelo viril impera no meio gay, muitas vezes estimulado por anabolizantes. No entanto, os anabolizantes incham o corpo e encobrem as dobraduras dos gominhos abdominais. É necessário murchar o corpo para que esta região possa vir à tona. O final da primeira década dos anos 2000 faz surgir uma nova espécie: a do corpo definido, rasgado, sarado. O estilo “barbie” está fadado ao démodé como prenúncio dos próximos anos. Chega a hora de dizer “adeus, barbie”, e ver emergir uma outra estética corporal.

Mas esse culto à imagem máscula do corpo sempre existiu. No final da década de 60 aos anos 70, o modelo viril era outro. Os bigodões e os pêlos corporais ditavam tal estética, também de forma ambivalente na relação da sexualidade e satirizada na música Macho Man, do Village People. Naquela época, como agora, há um constante apelo masculino de uma nova identidade.

Ele procura um lugar que o comporte depois dos movimentos feminista e gay a partir dos anos 60. Hoje a mulher saiu da cozinha, o gay do armário, e se juntaram aos homens nas academias de musculação. Todos habitam o local da “malhação”, que tem início no final dos anos 80 e perpetua-se até hoje. É a época do corpo torneado à máquina. Alguns teóricos classificam tal comportamento como o pós-humano.

É o novo estatuto do corpo, que extrapola o orgânico através do uso da maquinaria, e que supervaloriza a matéria orgânica. É a era do materialismo, no qual o corpo é mais valorizado do que a mente. Esta é uma forma diferenciada da arquitetura do modelo do homem grego. Toda parte do corpo se voltava para a mente do homem racional proposto por Platão. Mas essa musculatura estava sempre associada ao poder, representado pelo pênis como o “algo mais” se comparado à mulher castrada.

Falocentrismo deslocado – Contudo, este pênis grego era decoroso, sublime e pequeno. E deveria ter a proporção áurea entre a cabeça (razão) e o resto do corpo. Até a concepção renascentista de David de Michelangelo adotava tal modelo. Isto é, a consciência, pois ela é a função de um organismo, não de um órgão. A consciência também não é função única do cérebro. Porém, essa consciência se deslocou e se alojou no abdômen, no centro do corpo masculino. Ficou mais próximo ao pênis e mais longe do cérebro. É um falocentrismo deslocado e circunscrito, pois Narciso acha feio o que não é “tanquinho”.

No meio disso, a indústria cultural lança o termo metrossexual para o homem moderno com estilo estético arrojado. Atitudes antes atribuídas às mulheres ou a “homens suspeitos”. O editorial da Men’s Helth da edição de março de 2008 disse: “Você, leitor, já sabe que a “Men’s Helth” é uma revista que funciona, que é para ser usada mesmo, manipulada, carregada na mochila, da casa para a academia, da banca para o café na padaria, para o parque... O problema é que nossos amigos folheiam a Men’s, mas não a lêem a fundo”. Quem seriam estes “amigos”? Os machos? E quem lê a revista são os “suspeitos”? Ou são os gays? Sabe-se lá!

O que se sabe é que há um estranhamento, por parte dos homens, na linguagem adotada pela revista, que segue o estilo da revista Nova. Como exemplo, os verbos imperativos: “Perca a barriga já!”, “Troque gorduras por músculos”, “Ganhe potência no sexo”, “Ganhe músculos na boa”, “Aumente os músculos agora!”, “Fique forte para o sexo – ganhe vigor, flexibilidade e força nos músculos que são mais exigidos na hora H. Ela vai sentir a diferença”. Funde-se e confunde-se homem e pênis numa coisa só, representado apenas pelos músculos. É como se os músculos fossem a principal ferramenta na “hora H”.

Esnobismo – A virilidade vem da fala e dos procedimentos que homens têm em relação à mulher e do gay em relação a outro gay. O homem tem tanta autoestima que não se acanha em dar uma cantada numa bela mulher, ainda que ele seja muito feio. Se ela o esnoba, na consciência masculina, ela é uma vadia. Isso porque vai “dar” para qualquer outro e não para ele. É sempre ela a culpada. No caso feminino, a mulher toma para si a “culpa”. Será que sou feia? Tenho celulites e estrias? Estou gorda?

São neuroses que estamos acostumados a ver na revista Nova e que, supostamente, atrapalham o orgasmo. A insegurança dessa castração é representada no ponto G. Imaginário, é ele tratado como se fosse um “ponto de ônibus”, no qual a mulher embarca e chega aonde ela quiser. Já os gays sarados, com barriga tanquinho, parecem estar sempre fora de forma. Dizem que precisam malhar mais. Parecem carentes de elogios o tempo todo. Mas quando podem, desdenham a paquerada de um magrelo ou um gordinho barrigudo com “cara de nojo de nós”, ou seja, o famoso carão.

Sem contar em alguns muxoxos como quem diz “vê se te enxerga!”. Já os franzinos e os gorduchinhos idolatram esta imagem malhada como ninguém. Outros, por conseguinte, preferem fazer o pacto da cegueira mútua. Entreolham-se, mas um não vê o outro. Os músculos, ou a ausência deles, encobrem qualquer campo de visão. Mas o que estes músculos realmente encobrem são as inseguranças do masculino diante da virilidade atribuída antes ao tamanho do pênis.

Mas os homens, sejam gays ou héteros, sempre se safaram desse “trauma” com a piadinha “melhor um pequeno brincalhão do que um grande bobão”, ou então, “tamanho não é documento”. Discurso adotado até por muitas mulheres e, quiçá, alguns gays, quando não têm algo melhor, ou maior, para o seu deleite. Então, já que piadinha alivia traumas, para os desprovidos de barriga tanquinho e os providos de uma baita pança uma pergunta: Do que adianta uma barriga tanquinho se a torneira é pequena?

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Comentários dos leitores (9)
Alexandre Hassan17/01/2010 3:55
Alexandre Hassan17/01/2010 3:55
Antigamente, mulher lavava roupa era na pedra redonda da beira do rio. Sendo assim... A "barriguinha" também tem vez e é bem útil. É claro que temos que cuidar da mente, da cabeça - que cresça (mais por dentro que por fora) e apareça, mas sem descuidar do corpo que a sustenta. Aliais, esta divisão de corpo/mente já está pra lá de decadente. Este artigo é muito bem-vindo quando nos acolhe - homens de formas "comuns" de jeitos "normais", mas pode ser um "tiro no pé" se o lermos como armamento para a inveja da disciplina e mesmo obstinação de alguns "sarados" em transformar a si próprios. Acredito que temos muito a trocar, aprender/ensinar uns aos outros. Da coragem de engendrar mudanças radicais em si e na própria rotina (dos "tanquinhos") do bom-humor que lubrifica a existência e o dia-à-dia (dos "fofinhos") a capacidade por uns esquecida de refletir sobre si mesmo e sobre a vida (dos "cabeças"). É mais do que hora de se pensar no sujeito - assim indeterminado, seja homem ou mulher, "bee" ou "cacura", fashion ou trash - que seja integro (inteiro) por fora e por dentro, na ética e na estética. Penso que é preciso resgatar o humano do "supra-humano",do "metrosexual", do urso, do viado, do homo e do hetero. Beleza é uma maneira de ver. Acho que precisamos aplicar uma ginástica para o olhar. Aprender a ver o outro como ele é e respeitá-lo assim e se for o caso, gostar dele assim - o cupido muitas vezes é pintado cego. E se todo tipo de amor vale à pena, recorro a pena para registrar que nunca o "amor entre iguais" se deu entre tantos diferentes. Tô cansado de etiqueta, eu quero e gosto mesmo é de gente! Abraço a tds.
Pierre Vecchio07/11/2009 4:07
Pierre Vecchio07/11/2009 4:07
Sarado, gordo, magro, alto, baixo, careca, cabeludo, inteligente, burro e etc... o que importa é a performance. Meus amigos me chamavam de "cachorro" porque sempe gostei de "ossos" e, podem estar certos, sempre me dei muito bem. Lógico que recebi muitos nãos na vida, mas os sins compensaram e muito. Detesto academias e ambientes frequentados por "barbies"; quem as frequenta prefere mais um espelho do que uma boa transa. Tô fora.
Hotmanplay27/08/2009 11:54
Hotmanplay27/08/2009 11:54
Otima matéria... Muito legal msm... Eu malho feito um condenado durante 6 dias por semana a 3 anos.. só abdominal faço500 dia sim dia nao... minha barriga posso falar com boca cheia que é tanque! Mas pra falar a verdade, não sou admirador de " corpos pefeitos " Treino pra me sentir melhor com meu "eu interior" kkk O que eu admiro num homem , são as formas naturais, perna grossa, braços torneados, mas naturalmente, claro que é dificil achar, acho atraente akele pouquinho de gordura na barriga, nao akela que fica pendurada pra fora da calça! Mas convenhamos que um cara gordo cheio de celulite todo caido... que nem se aguenta nos proprios pes.. ou entao akeles magros que parecem estar com anorexia!!! por favor, que adianta ter uma torneira grande se o resto é desproporcional!? Lembrando q tem muito bombado que, valha-me Deus.. são bem dotados... Não sou adepto a esse, culto ao corpo, mas cuidar dele faz vc se sentir bem e as pessoas a sua volta tbm kkk. E só pra deixar claro, sou estudante do 5 º semestre de publicidade de uma faculdade federal, ou seja tbm tenho cerebro! E outra ! qm nao gosta de um cara bem de corpo levanta a mão!
Kaloi28/04/2009 18:51
Kaloi28/04/2009 18:51
Na minha modesta visão, achar de imediato, que toda pessoa sarada é burra, nada mais é que preconceito..existem pessoas no mundo que curtem ter carro bonito, outras jardins imponentes e algumas o corpo. Não nos cabe analisar e fazer julgamentos, se você gosta de ficar com o corpo em dia e saudável parabéns, caso contrario conforme com seu corpo e deixe o de outras pessoas em paz.
Edimilson - Ba15/04/2009 1:07
Edimilson - Ba15/04/2009 1:07
Ainda estou rindo do fim da matéria, enquanto escrevo este comentário! O que eu observei (observado tbem pelo Valmir) é que as pessoas realmente estão "emburrecendo", vivem se matando numa academia, pra conseguir um tanquinho de fazer inveja ao colega de malhação, porém falam "pobrema, cara"! E,infelizmente não é a gíria, é que ele ignora o "l" mesmo! Não que os gordinhos (baita pança, rsrsrsrs) sejam inteligentes, tem uns que não fazem jus ao que dizem, que elefantes tem boa memória. Então, vamos malhar pq faz bem à saúde, faz bem ao espelho e ao ego, mas vamos ler um pouco, filtrar o que entra pelos olhos através de um programa de tv, usar a internet pra se conectar com o que acontece no mundo, não somente ao redor do seu umbigo! Mas que todo gordinho quer matar quem inventou a academia, a isso quer mesmo! Eu que o diga... rsrsrsrsrsrsrs...
Guilherme - MG12/04/2009 15:11
Guilherme - MG12/04/2009 15:11
Ótima critica. A forma como você concatenou as idéias atingindo os pontos mais vitais da questão foi orgásmica!! Continue neste sentido. Há muito o que criticar, há muito o que fazer para tentar abrir os olhos das pessoas.
Zezito - DF22/03/2009 10:05
Zezito - DF22/03/2009 10:05
Parabéns pela matéria ! Frequento academia diariamente, acho importante cuidar do corpo e da saude, mas também continuo estudando, lendo (além da Mens Health) e busco me relacionar com as pessoas independente da embalagem atual. Até porque tanquinho também tem prazo de validade.
Caio-SP20/03/2009 5:36
Caio-SP20/03/2009 5:36
Caraca! Confesso que tenho peguiça de ler textos longos na internete, mas quando bem escritos e cheios de informação, sigo até o final. E o fim destes textos do Valmir Costa são sempre magníficos. Tanto é que parei para escrever este comentário pra acabar de vez com essa minha preguiça. Ah, não tenho barriga tanquinh, mas.... kkkkkk
Paulo Cesar19/03/2009 22:12
Paulo Cesar19/03/2009 22:12
Valmir, você é brilhante! O teu estudo profundo, porém muito claro, é sempre uma fonte de aprendizado sobre mim mesmo e melhor compreensão dos outros. E há quem diga que o mundo e a mente gays não são complicados. Como são! Mas sempre que leio algum estudo seu as coisas começam a ficar mais claras para mim!
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