O Assunto da Cidade

Fabio trabalha na lanchonete de uma pequena cidade onde todos se conhecem. Oprimido por comentários maldosos, ele aprende algumas lições que vai levar para o resto da vida.

por Anderson Oliveira

Segunda-feira, 06 de Julho de 2020

O Point da Esfiha estava cheio aquela noite. O culto tinha acabado havia poucos minutos e os fiéis enchiam o lugar.

Era uma noite de quarta-feira muito quente, mas as mulheres se vestiam com um rigor exagerado, os vestidos quase se arrastando pelo chão, saltos tão altos que as faziam cambalear pelo salão. Algumas até usavam xales por cima do ombro. Apesar do calor, os homens não desafrouxavam a gravata, derretendo-se dentro dos ternos, o suor escorrendo pela testa.

Eles voltavam toda hora ao balcão pedindo catchup extra, batata extra ou um “chorinho” do suco de laranja. Ali servíamos basicamente lanches e eu na chapa já estava acostumado aos pedidos de “bacon extra”, “ovo extra”, “duas fatias de queijo extra” ou “mais maionese”. Eu falei para o Seu Antônio que desse jeito ele iria à falência. Ele devia cortar estas regalias, isso estava causando prejuízo porque os preços já eram baixos demais. Meu patrão, no entanto, achava que tinha que agradar a clientela.

Enquanto a ninhada da Dona Zefa se lambuzava nos extras, eu me escondia lá atrás no calor da chapa. Fiz isso quando o pastor Rodolfo entrou cumprimentando todo mundo e já recebendo uma esfiha das mãos do Seu Antônio “por conta da casa”.

O pastor sempre fazia questão de cumprimentar um por um. O André e a Silvia trabalham no balcão. Eu e o Pedro trabalhamos na cozinha. Eu vi quando ele levantou o queixo lá do balcão procurando localizar quem estava na cozinha para dar boa noite.

– Boa noite, Pedro. Tudo bem?

– Boa noite, pastor. Vai querer um x-egg hoje no capricho?

– Não, garoto, hoje não. Vou só comer uma esfiha. – E continuou vasculhando a cozinha perguntando em seguida: – E o Fabio, tá aí hoje?

Eu já tinha me escondido num canto, mas não teve jeito. Apareci pelo quadrado que separava a cozinha do balcão e acenei, dizendo:

– Boa noite, pastor.

Ele fazia questão de me achar, por mais que eu tentasse me esconder, porque era importante para ele. Principalmente diante de todo aquele público. Falar com a aberração da cidade, trazer uma alma perdida para a luz do Senhor.

Todos sabem de mim. Sou o assunto preferido nesta minúscula cidade no fim do mundo. Se isso já não fosse suficiente, eu ultimamente andava na boca de todos os alunos da escola. É que tem um rio bem grande aqui na cidade e perto da ponte da rodovia tem uma praia de água doce. É a nossa única diversão nos finais de semana. Fica lotada principalmente nestes meses de calor. Alguns até arriscam pular da ponte direto dentro do rio.

No domingo passado eu... bem, eu acabei saindo da água com um certo “volume” no calção. Simplesmente não consegui esconder. Agora a escola inteira está me chamando de “Barraca Armada”. Já na segunda-feira mesmo, quando passei por aquele grupinho odioso de amiguinhas fofoqueiras, a Dani me chamou de “Barraquinha” e todas começaram a rir cacarejando feito galinhas.

Tenho só 17 anos, magro, cheio de espinhas e um jeitinho “delicado” de andar. O único com quem converso sobre “coisas diferentes” é o Pedro, filho do Seu Antônio, que trabalha na cozinha comigo. Ele também é, mas ninguém sabe. Ele tem 18 anos e é muito bonito. A gente joga videogame nos finais de semana, às vezes na casa dele, às vezes na minha. A gente também troca gibis de super-heróis e ultimamente temos trocado alguns livros. Eu comecei a ler uns livros de mistério e ele já prefere os de terror.

Não conversamos muito sobre nossas “coisas”. É meio que um tabu para nós dois. Apenas sabemos silenciosamente um do outro e até acho que assim é melhor. Não sei se saberia falar sobre tantas coisas que tenho na cabeça e nem se alguém teria paciência para ouvir.

***

A semana passou se arrastando e eu estava um pouco nervoso porque dali a alguns dias ia ter alistamento para o Exército na minha cidade e é claro que eu não queria servir.

Chegou o domingo, o dia que os católicos aparecem na esfiharia. Aparecem, eu disse. E não “invadem”, como fazem os crentes. Eles também não pedem extras, contentam-se com o que está no cardápio. Acho que é por isso que gosto mais da Igreja Católica.

O meu turno de domingo estava quase acabando, já eram umas oito da noite quando uma moto apareceu na entrada de pedidos para viagem. Quase ninguém usa essa entrada, mas o Seu Antonio achou que tinha que seguir a moda e que eles também tinham que oferecer este serviço. A gente chamava de “o buraco”. Tinha um quadrado na parede que dava para essa espécie de “drive-thru”. A gente mesmo na cozinha faz esse atendimento para ser mais rápido. Quando percebíamos pela câmera que alguém se aproximava, um gritava para o outro: “Corre pro buraco que lá vem gente!”

O motoqueiro parecia um peão porque usava botas de vaqueiro com esporas e tudo, calça jeans surrada e cinto com aquelas fivelas grandes. Eu nunca o tinha visto antes. A cidade é pequena, mas tem muitas fazendas ao redor. Então sempre aparece algum turista ou alguém que não é da cidade.

– Opa! Beleza? – cumprimentou ele, o vozeirão meio abafado tanto pelo capacete como pelo ronco do motor da motocross que ele pilotava. Observando melhor, só podia ser mesmo um peão porque a moto estava toda enlameada e as calças dele também um pouco sujas de mato e barro. – Me vê dez esfihas de carne e quatro quibes?

– Boa noite – cumprimentei sorrindo e encantado por aquele rapaz moreno na casa dos trinta. – Os quibes a gente frita na hora, é bem rapidinho, tudo bem?

Minha voz também não é a mais máscula do planeta e já vi rostos sorridentes tornarem-se um esgar de repulsão quando alguns clientes a ouvem pela primeira vez. Ele, no entanto, surpreendeu-me ao desligar o motor, retirar o capacete lentamente e dizer com um sorriso:

– Sem problema, eu espero. Não tô com pressa hoje.

Eu fiquei mudo por alguns segundos porque ele era lindo. Os dentes eram perfeitos, o cabelo todo cortado bem curto, quase na máquina 1. No entanto, o que estava me hipnotizando eram os olhos. Verdes.

Quando me dei conta de que estava há muito tempo ali parado, virei para trás e gritei:

– Pedrinho, quatro quibes e dez de carne!

Voltei-me para ele novamente e perguntei:

– Vai levar alguma coisa pra beber?

– Não vou, não. Tem um litrão de Coca lá em casa ainda.

– São 15 reais. É dinheiro ou cartão?

Ele procurou a carteira no bolso de trás e retirou dela uma nota de 20.

– Você não é daqui da cidade, né?

– Não, sou do Sabiá.

Eu não sabia exatamente onde era, mas sabia que era uma fazenda um pouco afastada. Eu estava encantado com aquele sorriso e ele tinha um jeito de falar olhando direto nos olhos que era desconcertante. Eu queria puxar qualquer assunto, só para continuar segurando aquele olhar.

– Tá fazendo um calor estes dias, né? – comentei.

– Tá mesmo... bom pra ir no Riacho Grande, né?

O Riacho Grande é onde toda aquela situação constrangedora da minha ereção aconteceu. Onde acabei ficando famoso para a escola inteira.

– Você costuma ir sempre lá? – perguntei.

– Não. Mas com esse calor que tá fazendo... acho que vou aparecer lá no próximo domingo. – E completou: – De manhã. Na parte da manhã. – Ele fez outra pausa e acrescentou: – Umas dez horas apareço lá.

Enquanto os quibes e as esfihas eram embalados minha mente já fantasiou meu encontro sendo marcado com este motoqueiro. É claro que era só uma fantasia. Ele não teria frisado especificamente “umas dez horas” só para dar a entender que estaria marcando algo. Mas na minha fantasia estava. Na minha fantasia ele passava em casa de moto no domingo de manhã vestindo uma bermuda e camiseta regata. Em um braço estaria levando um capacete extra, que entregaria para mim com aquele mesmo sorriso perfeito. Eu subiria na garupa e envolveria meus braços ao redor do seu abdômen musculoso, encostando a cabeça nas suas costas enquanto o vento soprava o meu rosto.

Acordei do meu devaneio com o Pedro empurrando o pacote nas minhas costas. Peguei o embrulho das mãos do meu colega e o passei pelo “buraco”.

– Obrigado e volte sempre – falei, sorridente demais.

Ele deu um sorriso e disse:

– Se for bom eu volto.

Botou o capacete, enroscou a sacola em um dos antebraços e foi embora. Eu ainda fiquei um tempo observando a luz da lanterna da moto ficar cada vez menor enquanto ele desaparecia na estrada.

Pouco depois das oito eu saí da esfiharia e fui andando na direção de casa, uma caminhada de uns 15 minutos. Parei e fiquei olhando ao redor. Quem sabe ele não estaria ali pela cidade ainda? Que pensamento idiota, se ele estava pegando algo para comer, com certeza já estaria indo para casa.

Continuei andando, minha cabeça nas nuvens, quando uma mão toca o meu ombro. Meu coração disparou e dei um salto. Quando olho para trás, é o Pedro.

– Tá no mundo da lua, hein.

Fiquei sem graça, continuei andando e olhando para o chão.

– Ele era bonitão, né? – disse ele com um sorriso e como eu não respondi nada ele completou: – o da moto. Deve ser vaqueiro.

Eu só dei uma risada e continuei andando. Nossas conversas sobre essas “coisas” eram assim, praticamente só comentários. Eu não tinha muita coragem de conversar sobre esses assuntos.

– Você vai dormir na casa da sua tia? – desconversei e continuamos andando e falando sobre videogames.

***

Fiquei todos os dias pensando no motoqueiro. Não só porque ele era muito bonito, mas porque ele tinha sido muito simpático. Às vezes, quando estava sozinho na cozinha, dirigia-me para a janelinha do drive-thru e relembrava aquela conversa. Na verdade, eu ficava ali esperando que ele aparecesse de repente para fazer um novo pedido.

A noite dos crentes chegou de novo e a cozinha já estava um caos com todos aqueles pedidos de “extras” que vinham do balcão. Lá de dentro eu vi quando a Dani apareceu com duas de suas amiguinhas e elas se sentaram na mesa 8. Lá de dentro eu falei para o Pedro com um sorriso:

– Essa oportunidade eu não vou perder.

Quando peguei o papelzinho da mesa 8 com o pedido de três x-búrgueres, eu fiz questão de adicionar um molho especial “extra” por minha conta. Cuspi em cima da carne dos três hambúrgueres e fiquei olhando enquanto o pratinho seguia o seu trânsito do balcão da cozinha, depois para o balcão de atendimento e finalmente para a mesa delas.

Ela nunca gostou de mim. Sempre que eu passava por seu grupinho, ouvia risadinhas pelas costas e palavras horríveis a respeito da minha sexualidade.

O Pedro me repreendeu, dizendo que não era para eu fazer isso, mas no final ficamos espiando juntos quando ela deu uma deliciosa mordida no x-cúsper especial. O Pedro sabia que essa vaca estava fazendo bullying comigo na escola, então nós rimos juntos.

Perto do fim do meu expediente, ouço o som de uma motocicleta. Era ele. Meu coração disparou.

O motoqueiro misterioso parou diante da janelinha, desligou a ignição, tirou o capacete e deu aquele sorriso que fez com que eu inconscientemente arreganhasse os dentes em resposta.

– Noite! – cumprimentou ele e para minha surpresa, desta vez desceu da moto e se aproximou.

– Boa noite! – eu disse tão à vontade que nem disfarcei minha voz feminina. Eu sempre tentava – em vão – engrossar a voz quando atendia a clientela pelo “buraco”. Acho que passei toda a minha vida tentando ser quem eu não era. Sem sucesso, porque eu acabava sendo sempre o assunto preferido do povo.

Ele se reclinou apoiando os braços cruzados no parapeito que existia pelo lado de fora, onde costumávamos colocar os pedidos. Antes que ele falasse qualquer coisa, eu disse:

– Não quer entrar e sentar lá nas mesinhas?

– Nada. Tô com pressa. Que tem de bão hoje? – ele perguntou enquanto olhava para dentro da cozinha tentando ver quem mais estava lá. O Pedro estava ocupado com os fiéis.

– Por que não leva o “x-burguer da fé” hoje?

Ele fez uma cara engraçada e eu me apressei em explicar.

– O nome é horrível, mas é muito bom. É porque hoje é dia de culto na Assembléia e fazemos um especial que vai ovo, bacon, dois hambúrgueres e mais um monte de coisa.

Ele riu e fiquei mais encantado ainda com aquele vaqueiro. Desta vez ele estava com a barba por fazer, o que o deixou ainda mais másculo. Como ele havia se aproximado, também senti um leve odor de suor de um homem que havia trabalhado o dia todo na roça.

– Vou experimentar esse aí então. Manda dois.

Quando ele pediu dois, meu sorriso meio que foi morrendo nos lábios. Fiquei imaginando uma outra pessoa para quem ele estaria levando aquele lanche. Queria ser a outra pessoa lá numa fazenda distante que estivesse em casa quando ele chegaria de moto dizendo que trouxe um lanche especial para mim.

Virei-me para trás e gritei:

– Pedrinho, dois “da fé”!

Ainda tive tempo de ver no rosto do meu colega um risinho misterioso nos lábios quando ele se virou e só levantou o polegar lá da chapa. Girei de volta para falar com meu cliente especial.

– Você tem quantos anos? – ele me perguntou.

– Vou fazer 18.

– Sábado você vai ter que se alistar então, né? Meu sobrinho tá louco pra servir.

– Sim, eu também estarei lá. Espero que não me peguem, eu quero continuar meus estudos. Você serviu o Exército?

– Não, fui dispensado. Meu pai era amigo do capitão e disse que o filho precisava trabalhar na roça. Que ia ser ano perdido.

– Tomara que eu não entre...

– Mas eu tive que ir lá no dia da seleção, ficar pelado na frente do sargento e tudo.

Neste momento eu fiquei imaginando uma fileira de homens nus e o vaqueiro entre eles. Senti um arrepio.

– Seu lanche tá saindo, tá?

– Sem pressa.

– Você disse que tava com pressa quando chegou – falei provocando.

– Não tô mais – ele disse isso e sorriu só com um dos cantos da boca, deixando-o com um ar misterioso.

Pedro veio com o pacote e me entregou, piscando um olho, aquele sorriso contido ainda nos lábios. Tínhamos esta comunicação sem palavras. Que raiva, às vezes.

Aproximei-me da abertura e disse baixinho: – Vou colocar uns brindes pra você.

Abri o pacote e coloquei duas esfihas de carne. Ele sorriu e passou o dinheiro pelo “buraco”. Ao pegar o dinheiro, encostei o meu dedo no dele o suficiente para perceber como eram calejados. Ele teria feito aquele toque de propósito? É claro que era só minha imaginação.

– Umas dez to lá no domingo – disse ele enquanto colocava o capacete e subia na moto. – Você vai também?

– Se não me levarem direto pro quartel no sábado... sim – eu disse em tom de brincadeira.

– Relaxa, eles não devem pegar muita gente neste fim de mundo – disse dando partida.

Eu só dei um sorriso e fiquei olhando para aquele homem que mais parecia estar montando um cavalo. Ele acenou e se foi. Sorte da pessoa para quem ele estava levando aquele lanche.

***

O sábado foi tenso. Eu estava muito nervoso porque a seleção estava acontecendo no quartel da polícia militar da minha cidade e quando cheguei bem cedo, já tinha um monte de rapazes esperando ansiosos para entrar no Exército e se tornarem soldados.

Eu sempre tive pavor de ambientes exclusivamente masculinos. As aulas de Educação Física, principalmente nos dias de futebol, eram uma tortura. Eu era frequentemente ignorado pelos outros alunos e às vezes ouvia comentários sobre botar o “viadinho” no gol para “acertar uma bolada na cara dele”.

Aquela multidão de garotos de 17 e 18 anos conversando em grupos me fazia encolher. Eu levei um livro para o caso de demorar muito e fiquei lendo enquanto esperava. Acho que foi um erro porque chamei ainda mais atenção por ser o único que fazia isso.

Fomos chamados em grupos de oito e chegou a minha vez. Passávamos por várias etapas de entrevistas e exames, que eram aplicados por diversos soldados fardados.

Entrei numa fila para exame de vista e falei todas as letras corretamente, mesmo as mais minúsculas. Depois fiquei pensando que imbecil tinha sido. Por que não errei propositalmente algumas letras?

Saindo desta fila, entramos numa sala onde havia dois soldados. Eles mandaram todos ficarem enfileirados, tirar a camiseta e baixar a calça até os joelhos. Vi que alguns fizeram isso sem nenhuma cerimônia. Já outros, como eu, estavam morrendo de vergonha. Eu acho que tenho um pênis bem maior que a maioria dos garotos e outro probleminha que está sendo assunto da escola: tenho ereção com muita facilidade.

Todos abaixaram as calças e eu olhei para os garotos que estavam à minha direita. Aqueles rapazes nus ao meu lado me excitaram de repente e comecei a sentir que meu pênis começava a crescer. Ali eu estava completamente sem saída, não podia pegar uma toalha e me enrolar, não podia fugir para o banheiro. Tinha que ficar em pé esperando a minha vez de ser entrevistado e examinado.

Tentei olhar fixo para a frente e pensar em outras coisas, mas só a presença de tantos homens nus ao meu lado continuou fazendo com que meu membro fosse ficando cada vez mais duro. O médico era jovem e também estava fardado. Quando chegou na minha frente, baixou os olhos e viu que eu estava excitado. Eu achei que ele ia fazer alguma piada, mas não disse nada. Se fosse um dos sargentos ou soldados, com certeza já estariam tirando sarro.

Ele só fez algumas perguntas, me examinou e falou que eu poderia me vestir. Alguns dos outros moleques estavam olhando e rindo. Fiquei com o rosto todo vermelho.

Para minha surpresa – e alegria – não segui para as etapas seguintes. Notei que os outros continuaram o circuito dentro do galpão para prosseguir com outros testes, mas eu assinei uns documentos e disseram que eu podia ir para casa e que receberia a resposta sobre a seleção dentro de alguns dias.

***

Passei o restante do sábado feliz e até fui jogar videogame no Pedrinho.

– Acho que não vão te chamar, não, mano. Eu passei por todas as etapas, fiz até uns testes físicos depois do exame médico.

– Também acho. Eles devem ter notado que eu sou... diferente. Acho que foi porque fiquei excitado lá na hora.

– O que? Você ficou de pau duro?

– Fala baixo, Pedro – falei por cima do som dos tiros do jogo.

– Tinha uns caras interessantes lá na hora que tava todo mundo peladão? – ele perguntou dando risada.

– Putz, pior que tinha...

***

O domingo amanheceu ensolarado e quente. Eu só pensava no meu encontro com o motoqueiro. Bom, só na minha cabeça era um encontro.

Peguei calção, toalha e mais algumas coisas, botei numa mochila e fui caminhando para o Riacho Grande. Não falei nada para a minha mãe, não queria que ninguém me encontrasse lá.

Cheguei antes das dez e encontrei um lugar meio afastado, quase debaixo da ponte. Esperei um pouco sob o sol, olhando aquele monte de crianças e pais e mães brincando e tomei coragem de entrar na água.

Eu não tirava os ohos da margem e não demorou muito. Ouvi o ronco do motor que já conseguia reconhecer dentre tantas outras motos. Meus olhos brilharam quando vi a motocross se aproximando, mas o brilho se apagou rapidamente. Ele vinha com uma mulher na garupa. Estacionou onde havia outras motos e os dois desceram. A mulher era linda, mais jovem e tinha um corpo perfeito. Seguiram de mãos dadas procurando um local para esticar a toalha.

Eu afundei na água deixando só os olhos de fora e observava cada movimento do casal. Ele não usava aliança, eu já tinha prestado atenção, então ela devia ser namorada dele. Fiquei tão desapontado que tudo perdeu a graça. Comecei a tremer de frio apesar do calor e saí da água.

Peguei minhas coisas e resolvi passar perto dele antes. Queria pelo menos dar um bom dia, sei lá. Quando passei próximo de onde eles estavam sentados, vi que ele me reconheceu, mas rapidamente virou a cabeça para o outro lado.

Fiquei completamente destruído por dentro. Senti-me um completo imbecil imaginando que algum dia um homem como aquele pudesse ter alguma afinidade comigo. Eu havia alimentado uma esperança e criado fantasias intermináveis.

Fiz o caminho de volta olhando para os pés e chutando todas as pedras que encontrava.

***

A semana seguinte se arrastou. Mesmo tendo certeza de que seria dispensado, eu só estaria tranquilo quando finalmente recebesse uma resposta definitiva do Exército. O motoqueiro-vaqueiro nunca mais apareceu na esfiharia.

Em vez disso, quem me apareceu no meio do caminho uma tarde foi o Pastor Rodolfo. Eu estava indo para o trabalho quando o avistei lá na frente, andando com a Bíblia debaixo do braço. Mudei para o outro lado da calçada e continuei meu caminho olhando para o chão, tentando ser invisível. Não queria ser convocado para assistir a um culto de novo. Ele, no entanto, não perdeu a oportunidade.

– Boa tarde, Fabio – cumprimentou e atravessou a rua vindo ao meu encontro.

– Boa tarde, pastor.

– Quando você vai aceitar Jesus? – perguntou ele, direto.

A mesma pergunta que ele fazia para todas as pessoas não-evangélicas, mas que carregava um tom especialmente duro quando era dirigida a mim. Eu não estava numa boa semana, estava irritado e não estava querendo ser chamado de “infiel” ou – não poderia existir expressão mais absurda – “do mundo”.

– O dia em que ele me aceitar, talvez? – falei encarando-o. Se eu estivesse na esfiharia diante da sua horda de fiéis, certamente não teria tido coragem de falar assim.

– Ele pode te curar, filho – disse batendo um dedo na capa da Bíblia. – Para Deus, nada é impossível.

– Eu não estou doente, pastor. Foi Deus quem me fez assim, então se Ele acha que tem que me curar, é porque quer consertar o próprio erro.

O pastor arregalou os olhos, mas não se abalou:

– Apareça no próximo culto e vou orar por vo...

– Desculpe, pastor, estou com um pouco de pressa – falei interrompendo-o e notei que seu rosto tinha ficado vermelho de raiva. Virei as costas e continuei andando.

Conforme andava, o coração batia forte por causa da coragem que eu tive de enfrentá-lo. Estava exultante por finalmente ter dado a resposta que ele precisava ouvir e que já vinha ensaiando há muito tempo. Quando estava quase chegando ao trabalho, comecei a rir sozinho.

***

Uma semana depois recebi uma correspondência com o brasão do Exército. Havia sido dispensado. Claro.

***

Um mês depois, num sábado, acontecia uma vaquejada na minha cidade. A esfiharia estava lotada. Seu Antônio pediu para eu fazer hora extra porque o movimento seria intenso a noite toda. Ficou acertado de eu trabalhar até as três da manhã.

Além do Pedro, nesta noite também estava o André, que sempre ajudava nos dias de maior movimento.

Pouco depois das três eu me despedi dos dois, que ainda iriam continuar trabalhando a madrugada toda e saí. Fui andando pela noite quente e ouvindo o som da música que vinha do galpão onde estava sendo realizada a festa.

Uns cinco minutos depois, já afastado do som da música, ouço uma motocicleta se aproximando. Era o ronco do motor que eu ainda não tinha esquecido. Parei e olhei para trás.

Lá estava ele, lindo como nunca o tinha visto antes. Parecia que em vez de motoqueiro, era um príncipe no seu cavalo branco, como eu já o havia ingenuamente fantasiado tantas vezes. Ele usava calças jeans apertadas de vaqueiro, mas agora estavam impecavelmente limpas. O mesmo das botas, agora bem lustradas. Usava uma camisa xadrez com as mangas arregaçadas nos antebraços. Parou bem ao meu lado. Senti o cheiro de colônia desta vez.

– E aí, tranquilo? – disse ele e imediatamente notei que a voz estava um pouco pastosa. Ele devia estar bebendo. – Passei lá na esfiha e seu colega disse que você tinha acabado de sair.

– É sim... e não comprou nada?

– Nem. Eles disseram que ia demorar e eu tava com pressa.

– Sempre com pressa, né?

Ele só balançou a cabeça e ficou olhando para a frente, as duas mãos ainda no guidão. Aí tirou o capacete, mas a moto continuou ligada. Ele estava com a barba feita desta vez, o cabelo estava “na régua” como os garotos costumam dizer, cortado bem baixinho. Eu quebrei o silêncio:

– Tava boa a festa?

– Boa demais – ele disse balançando a cabeça exageradamente. Estava visivelmente bêbado.

– E sua namorada?

Quando falei isso, ele baixou a cabeça, depois balançou de um lado para o outro. Parecia embaraçado, ele sabia que tinha me ignorado lá no rio e também sabia que não tinha sido nada legal.

– A gente terminou.

Fiz que sim com a cabeça e ele continuou com a cabeça baixa.

– Parece que você bebeu demais hoje, né? – eu disse.

– Um pouquinho só – e esse “pouquinho” saiu meio como “poguinho”.

Ele então virou para me fitar e aquele olhar me desmanchou inteiro. Esqueci o lance do rio. Esqueci minha própria mágoa. Aqueles olhos verdes tinham algum poder de me desconcertar. Ele então acrescentou:

– Bora lá no mirante?

O mirante não era grande coisa, praticamente um descampado no alto de uma colina de onde podia-se ver a cidade toda. Eu só tinha ido lá durante o dia e ouvia dizer que à noite iam muitos casais só para namorar.

Fiquei um tempo calado, sem saber o que responder. Será que ele estava fazendo isso só porque estava bêbado? Talvez não, porque não havia me encontrado por acaso na rua. Ele foi me procurar.

– OK, mas não posso demorar. Minha mãe vai ficar preocupada.

Ele abriu um sorriso e só fez um movimento com a cabeça que queria dizer: “monta aí”.

Parecia que eu estava num sonho. Um dos muitos que já tive. Em um deles eu subia na sua garupa e viajávamos para lugares distantes e maravilhosos. Lugares afastados desta cidade e destas pessoas hipócritas, lugares onde não havia mais ninguém além de nós dois.

– Posso segurar na sua cintura? Tenho medo de cair.

Ele em vez de responder, só puxou uma das minhas mãos e colocou-a em volta da sua cintura. Eu então o abracei e encostei o rosto nas suas costas quentes, levemente suadas e com cheiro de colônia.

Ele foi ziguezagueando pelas ruas desertas e escuras, depois pegou um pedaço da estrada do pico e começamos a subir. Ele não dizia nada, nem eu. Só o abraçava como se aquela noite não fosse mais ter fim.

No meio do caminho ele pega uma das minhas mãos e a coloca bem no volume na frente do seu jeans. O choque do contato foi tão grande que afastei a mão, retirando-a com força. Ele a pegou de novo, mais suavemente, e a levou gentilmente entre suas pernas. Desta vez eu não a retirei.

Ele estava completamente excitado. No caminho ele às vezes colocava a mão em cima da minha, apertando, incentivando que eu fizesse o mesmo. Eu nunca tinha feito aquilo, era completamente virgem de tudo. Então comecei a apertar o volume por cima do jeans. Meu coração batia forte e imediatamente eu já estava também com uma ereção completa.

Ao chegarmos ao topo, havia diversos carros parados. Eram todos de casais namorando, com certeza. Ele desviou e pilotou por uma pequena trilha no mato.

– Eu conheço um lugar bem legal, vou te mostrar – disse ele e eu estava morrendo de medo de cairmos os dois numa ribanceira. Afinal ele estava completamente bêbado.

A trilha então se abre de repente e a moto para num pequeno platô com uma vista espetacular.

– É aqui – disse ele já tirando o capacete. – Área vip. Eu às vezes venho aqui sozinho e fico olhando as luzes lá embaixo.

Realmente não cabia mais ninguém naquele pequeno platô. Só tinha espaço para a moto e mais à frente uma pedra para sentar e ficar observando a cidade. Os canhões de luz da festa rodopiavam ao longe e dava para ouvir o forró que tocava a todo volume.

Ele deixou o capacete pendurado no guidão da moto e nos sentamos na pedra de onde se viam as luzinhas que tremiam lá embaixo e o céu estrelado acima. Ficamos um tempo só olhando, eu sem saber o que fazer, de repente me faltaram palavras.

Ele então se vira, segura minha cabeça e me encosta os lábios nos meus. A princípio ele só fez isso mesmo. Encostou os lábios nos meus, respirando rápido, o hálito de álcool impregnando meus sentidos e me embriagando. Depois é que ele começou a me beijar. Beijar loucamente. Ele beijava e respirava ofegante, depois começou a forçar a língua para dentro da minha boca e eu sem saber como reagir, nunca tinha feito aquilo na vida.

Fui seguindo seus movimentos, aprendendo. Não sei dizer quanto tempo aquele beijo durou. Era como se dependêssemos do ar um do outro. Nossa respiração ficava cada vez mais ofegante, os olhos fechados, as bocas coladas.

A excitação parece ter chegado a um pouco insuportável para ele porque quando afastou os lábios dos meus, levantou-se e começou a abrir o cinto da calça. Dava para ver um enorme volume que marcava o jeans e quando ele abriu o zíper, um membro ainda maior que o meu saltou e ficou ereto na minha frente.

Olhei para cima e acho que ele percebeu que eu não sabia o que fazer. Então pegou uma das minhas mãos e colocou em volta do seu pênis duro.

Fiz movimentos para frente e para trás, olhos fixos naquele primeiro membro de outro homem que eu masturbava. Era diferente, mais grosso e com mais veias. Ele permaneceu em pé e fechou os olhos.

Depois de um tempo ele segurou minha cabeça e devagar fez com que eu aproximasse a boca para mais perto. Não forçou, apenas guiou-me para bem perto a ponto de eu sentir o seu cheiro de homem.

Pensei em dar uns beijos, não sabia muito o que fazer. Quando encostei os lábios, meu corpo se incendiou a ponto de eu começar a tremer. Coloquei-o na boca e sugava segurando com uma mão. Com a outra eu apertava meu próprio pênis que quase rasgava minha calça de tão rígido e já molhava o jeans com baba.

Foi muito rápido e ele começou a ejacular. Levei um susto quando os jatos de esperma invadiram minha boca e senti aquelas pulsações. Todo o corpo dele tremia e ele gemia baixinho. Eu estava tão excitado que comecei a ejacular dentro da calça.

Ele permaceu em pé, olhos fechados, sem dizer nada. Eu continuei segurando o seu pênis, que aos poucos amolecia, algumas gotas de esperma ainda saindo e caindo no chão.

De repente fiquei sem jeito, envergonhado, soltei a mão e continuei sentado, olhando a cidade lá embaixo. Ele fechou o zíper devagar e sentou-se ao meu lado. Ficamos assim um tempo, calados, até que ele quebrou o silêncio.

– Você nunca fez isso, né?

– Não – falei acanhado. – E você?

– Também não.

Ficamos sentados ali por bastante tempo, eu não sabia como reagir. Nas minhas fantasias eu e ele fazíamos tantas coisas juntos. Nós dormíamos abraçados, eu fazia cafuné na sua cabeça, encostava o rosto no seu peito. No entanto, agora que eu estava com ele, estava completamente perdido. Tinha medo. Medo de ser rejeitado, de parecer estúpido. Só fiquei calado.

Ele se levantou e disse:

– Daqui a pouco vai clarear, melhor a gente ir embora.

Eu fiz que sim com a cabeça e subimos na moto. Ele fez todo o trajeto calado até me deixar no mesmo ponto onde havíamos nos encontrado.

Desci da garupa e fiquei olhando para ele. Continuava lindo, mas o semblante era triste. Arrependido, talvez? Perguntei:

– Eu ainda nem sei seu nome.

Ele continuou olhando para a frente e demorou um tempo para responder.

– Samuel – disse ele. E foi só. Não perguntou o meu.

Levantou o polegar num breve aceno de despedida e acelerou. Fez a volta e quando estava passando novamente por mim para ir embora eu gritei acima do ronco do motor:

– Fui dispensado!

Ele freou, balançou a cabeça afirmativamente e disse:

– Eu falei pra você!

Levantou um braço num aceno breve e partiu. Fiquei ali parado vendo a moto diminuir de tamanho até desaparecer numa curva da estrada. Eu poderia tê-lo abraçado mais, beijado, acariciado seu rosto, falado sobre as fantasias que eu inventava e perguntado tantas coisas que eu queria saber a seu respeito, mas isso teria sido como pedir “extras”. Queijo extra, bacon extra, uma oportunidade extra de ser feliz.

Estava satisfeito com o que tinha acontecido e esperava que aquela noite não fosse a última repleta de coisas boas. Aprendi lições valiosas nos últimos dias e uma delas é que fantasias são apenas fantasias. Não sei se vou voltar a vê-lo, mas o mais importante é que agora eu sei que não sou uma aberração. Sei que alguém pode me levar para mostrar um lugar especial. Enfim, ser importante para alguém, de alguma forma, não importa como.

*** FIM ***

Anderson Oliveira publicou um livro de contos na Amazon. Confira aqui para ler todos os contos publicados aqui no MundoMais e mais três contos inéditos.

Comentários (31)

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  • em 13-09-2020 às 01:26 Paulo
    Gente de novo esse conto, ele já foi mandando uns tempos atrás.
  • em 12-09-2020 às 16:07 Dhonne Cavalcante de Almeida
    Delicia, mundomais ,sempre nos surpreendendo
  • em 20-08-2020 às 10:31 José Lino
    Gostei bastante e gostaria que houvesse continuidade. Serie uma injustiça ficar só nesse.
  • em 05-08-2020 às 15:06 Paulo
    Excelente conto. Sutil, suave, doce. Linda descoberta do sexo entre homens.
  • em 04-08-2020 às 15:23 Dodô
    Putz, Anderson. Muito bom. Rico em detalhes. Fiquei babado nas cuecas. Muito excitante. E sei bem como é uma cidade pequena. Vou ler os outros. Abração
  • em 28-07-2020 às 23:00 Anderson Oliveira
    Gabriel, a Amazon não permite eu publicar o conteúdo digital em outra plataforma... Se você baixar o aplicativo Kindle no celular, baixar lá e ler...
  • em 28-07-2020 às 21:18 Gabriel
    Anderson, teria como você disponibilizar o livro na Google Play Livros??
  • em 28-07-2020 às 13:00 Marcos DF
    Eu jurava que o Pastor era enrustido e que faria a " iniciação" do Fábio ...
  • em 27-07-2020 às 16:38 Anderson Oliveira
    O MundoMais publicou o link do livro aí no final do conto, para quem quiser conferir. Obrigado pelos elogios!
  • em 27-07-2020 às 16:38 Anderson Oliveira
    Gabriel, acabei de publicar um livro de contos na Amazon. Tem três contos inéditos lá.
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