Que Porra é essa?

Foi assim que tudo começou. Quando resolvi contar tudo que aconteceu, nunca imaginei que fosse tomar as proporções que tomaram. Era só mais uma história de dois garotos, que de repente, se olharam diferente. Comum para muitos, mas não para mim. Depois daquela noite, minha vida mudou.

por Biel Sabatini

Quarta-feira, 15 de Julho de 2020

Tempo médio de leitura: 6h

ÍNDICE

1 — Eu não sou viado, mas...
2 — Aconteceu
3 — Os fantasmas voltam
4 — E agora?
5 — A verdade vem à tona
6 — O destino tem vida própria
7 — Tesão é foda
8 — A verdade que dói
9 — Existe uma esperança
10 — A felicidade se fez presente
11 — Solidão a dois é complicado
12 — Cicatrizes se abrem
13 — Sentimentos tem vida própria
14 — Mudanças são necessárias
15 — Marionetes do destino
16 — A paz vem disfarçada em nuvens de chuva
17 — O coração não precisa de explicações ou razões
18 — Tudo se torna estranho e confuso
19 — Nada é por acaso
20 — O mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder
21 — Quem é vivo sempre aparece
22 — Tudo tem um fim


Capítulo 1 — Eu não sou viado, mas…

Meu nome é Gabriel. Tenho 20 anos e estudo Educação Física. Não possuo grandes atributos físicos, mas não posso reclamar do meu corpo. Tenho 1,85m, sou moreno claro quase branco, cabelos castanhos assim como os olhos, corpo definido pelas atividades físicas que eu faço, mas sem exageros.

Vou tentar ser o mais detalhista possível na história que vou contar. Tudo começou há uns três anos. Conheci o Bernardo na escola e fizemos todo o ensino médio juntos. Não demorou para nos tornarmos inseparáveis, como é comum nessa idade. Tínhamos um grupo de amigos muito animado e vivíamos sempre juntos, seja em festas, churrascos, peladas, torneio de vídeo-game. Nunca tivemos segredos um com o outro. Sempre que ficávamos com alguma garota, ou rolava algo mais quente, ele era a primeira pessoa com quem eu ia falar. Assim, perdemos a virgindade quase que simultaneamente, pegamos quase todas as meninas da nossa sala e tínhamos a adolescência típica de qualquer garoto.

O Bernardo era um cara bonito. Não tinha uma beleza sensacional, mas seus cabelos castanhos faziam um topete natural que lhe dava um charme. Os olhos castanhos esverdeados eram expressivos e seu sorriso era o de um menino travesso. Era mais baixo e mais magro do que eu, mas como também gostava de esportes, tinha um corpo bacana.

A gente nunca teve frescura um com o outro. As brincadeiras eram as mais agressivas e muitas vezes, safadas. Apertar a bunda, o pau, segurar por trás era comum e rendiam bons socos e cascudos. Não via nada de errado nisso e nunca me preocupei com a minha sexualidade. Tinha plena consciência de que gostava de mulher e nunca vi nenhum homem com outros olhos. Muitas vezes, dormíamos na casa de um ou de outro, ficávamos pelados sem vergonha alguma e a nossa intimidade era total. Às vezes, reparava umas olhadas do Bernardo para o meu corpo, mas não pensava mal disso. Muitas vezes eu reparava nele, alegando a mim mesmo curiosidade de comparação. Tínhamos 17 anos e estávamos naquela indecisão do que prestar no vestibular. Ele estava namorando uma menina do colégio havia pouco tempo, porém não parecia estar apaixonado por ela. Eu ficava de vez em quando com uma menina que tinha conhecido numa balada, mas nada de sério. Não tinha muita paciência pra me amarrar em ninguém.

Estávamos lá em casa fazendo um trabalho escolar quando ele falou:

— Caralho, Biel, tô no maior tesão. Põe um vídeo aí pra gente bater uma.

Ele falou apertando o pau por cima da bermuda. Olhei pra ele, sério.

— Aquela sua namorada não tá te satisfazendo, não? Parece até que tá na seca.

— Ah, cê sabe como é. Fresca... eu tenho um fogo do caralho. Vai, põe aí, bate uma comigo.

Confesso que nem tava pensando nisso, mas me excito rápido, então botei um vídeo no note para vermos. Mal começou a esquentar o filme, ele já sacou o pau pra fora e começou a punhetar. Fazia movimentos suaves, mas firmes naquele membro que deveria ter uns 17 cm. Era uniforme, grosso, com a cabeça arroxeada. Tirei o meu também e fiz o mesmo que ele, cadenciando os movimentos. Não demorou para aquele líquido pré-gozo sair e então eu o espalhava e continuava a punhetar, olhando para a tela do computador.

— Nossa, Biel, parece que seu pau tá maior.

— Tá a mesma coisa.

— Faz um estrago isso aí.

— Nunca ninguém reclamou.

Falei sem tirar os olhos do filme. Vi que ele começou a acelerar os movimentos da mão, gemendo baixo e não sei por que, diferente das outras vezes que fizemos isso, um tesão absurdo começou a tomar conta de mim. Queria ver a sua cara de prazer, mas não tinha nada a ver. Sentia seu braço roçar no meu e aquilo começou a me causar arrepios. Sabia que ele estava olhando pro meu pau, mas tinha medo de confirmar. Meus movimentos foram se acelerando à medida que os dele também. Sentia meu pau inchar na minha mão e o segurava firme, fazendo um vai e vem muito gostoso. Fechei os olhos ouvindo os gemidos dele, viajando naquela situação, quando ele gemeu mais urgente. Senti algo quente atingir meu braço e vi que era a porra dele, branca, espessa. Acordei do transe que estava.

— Porra, Bernardo! No meu braço, caralho?

Esbravejei, levantando da cama. Guardei meu pau na bermuda e fui até o banheiro. Tranquei a porta e fui abrir a torneira, mas parei olhando aquele líquido viscoso no braço. Meu pau doía de duro, então, instintivamente coloquei ele pra fora e voltei a punhetá-lo. Peguei aquilo no meu braço com a ponta do dedo e esfreguei no meu pau, lubrificando ainda mais, agora com a porra do meu amigo. Aquilo me alucinou de um jeito que os jatos que saíram de mim foram longe. Contorci-me em um orgasmo intenso, contendo os gemidos para que ninguém ouvisse. Depois que me restabeleci, me lavei e pensei naquilo. Que estranho… sentir tesão com aquela situação. Voltei para o quarto e encontrei ele de volta aos estudos.

— Olha, Biel, foi mal cara. Não queria ter te sujado.

— Tudo bem, Be. Bora terminar esse trabalho.

— Mas você não gozou.

— É... é... gozei sim, terminei no banheiro.

Ele me olhou com uma expressão marota e eu fiquei muito sem graça, olhando de volta para os livros, tentando esquecer os momentos atrás.

Assim, voltamos a estudar e eu não pensei mais nisso.

Um dia, na escola, vi que ele estava meio estranho. Cheguei perto dele e perguntei:

— O que foi, Be, brigou com a Larissa?

— Não...

— Então, o que tá pegando?

— É que meus pais cismaram que eu devo fazer um intercâmbio, que será muito bom pra mim. Eu até que estava bem empolgado com a ideia, mas agora que já tá tudo certo, não sei se quero ir.

— Como assim, tudo certo? Quando? Onde? Quanto tempo?

— Ohio, Estados Unidos. Um ano provavelmente, e devo partir assim que o semestre acabar.

— Que? Isso será daqui há dois meses!

— Pois é… Eles acharam um bom pacote e já até fecharam. Devia estar feliz, mas não estou.

“Nem eu” — pensei, mas não falei. Simplesmente afundei na cadeira, sentindo-me terrivelmente triste. Eu sei que seria legal pra ele, mas ficar longe do meu melhor amigo era estranho pra mim. Sentia meu peito apertado, mas tentei disfarçar ao máximo. Levantei, inventando uma desculpa qualquer e corri pra casa. Sentia-me triste, mas sabia que teria que me acostumar com aquela ideia.

O tempo foi passando e a gente tentou aproveitar todos os momentos como se fossem os últimos. Íamos às baladas, festas, jogávamos vídeo-game sempre que dava. Às vezes, pegava ele me olhando e sorrindo em seguida. Para não perder o hábito, empurrava-o e nós dois caíamos na gargalhada. Sabia que ele estava pensando a mesma coisa que eu. O quanto sentiria a minha falta, assim como eu sentiria dele.

Na véspera da viagem, passamos o dia todo juntos. Jogamos bola, arriscamos manobras de skate e quando chegamos à minha casa, estávamos exaustos. Deitamos lado a lado na cama, ouvindo a música da playlist do note.

— Passou rápido, né? Daqui a algumas horas vou estar a quilômetros de distância, vivendo de forma completamente diferente.

Ele falou olhando pro teto.

— Tá com medo? — perguntei, também olhando pro teto.

— Um pouco, mas é normal, né? Vou estar sozinho e longe de… todos que eu gosto.

— É... — eu disse, triste.

— Você bem que podia juntar uma grana e ir me visitar nas férias. Ia ser foda. O que você acha?

— Vou tentar. E a Larissa?

— Ah, sei lá. Não acredito em relacionamento a distância e na real, nem tô muito preocupado com isso. Acho que vou sentir mais a sua falta.

— Claro que vai, seu viado. Falei rindo, mas me sentindo bem em ouvir aquilo.

— Olha o que eu trouxe pra nossa despedida.

Ele falou tirando da mochila uma garrafa de vodka. Achei graça, porque nenhum de nós era muito acostumado a beber, mas não vetei. Era o último dia dele, iria fazer o que ele quisesse fazer. Começamos a beber e logo ficamos alegres. Ele falava que ia passar o rodo nas americanas e fazer todo tipo de putaria. Eu ria, mas sentia uma estranha sensação no peito. Como se fosse uma angústia que não sabia explicar. Já estava meio zonzo quando ele se virou de lado na cama, olhando pra mim e falou.

— Mas zueira à parte, é de você que vou sentir mais falta.

— Eu sei, viado, também vou sentir muito a sua falta. Eu disse rindo, meio sem graça.

— Eu tô falando sério, Biel… Eu não queria ir por sua causa. Sei lá... eu não sei explicar, mas… eu não queria ficar longe de você.

— Acho que cê tá ficando bêbado.

— Tô... mas era isso mesmo que eu queria. Tomar um último porre com meu melhor amigo. Passar esses momentos com você e a bebida é só uma desculpa pra eu fazer o que eu nunca tive coragem.

— Do que você tá falando, Be?

Ele se aproximou devagar, olhando fixo nos meus olhos. Podia sentir seu hálito de vodka misturado ao Halls que estava na sua boca. Fiquei paralisado, sem entender o que estava acontecendo, mas sem querer me mexer. A boca dele parou a poucos centímetros da minha.

— Disso…

E então colou os lábios nos meus. Era como se uma descarga elétrica tivesse percorrido meu corpo. Sua boca era macia, quente e envolvia a minha suavemente sem se mexer, como que esperando uma reação minha. Por alguns milésimos de segundo eu não me movi. Sentia e somente sentia aquilo, mas quando a língua dele tentou entrar na minha boca, o empurrei com tudo.

— Bernardo, você tá louco? Que porra é essa?

Capítulo 2 — Aconteceu

Levantei da cama nervoso, e olhei incrédulo pra ele. Não podia acreditar que ele tinha me beijado. Mas que porra é essa? Ele levantou e foi se aproximando, sério.

— Tô louco sim, Biel… eu só posso estar, mas hoje, só por hoje eu não quero me importar com nada que não seja eu e você. Eu precisava fazer isso antes de ir embora. Ver qual é.

— Ver o quê? Tá doido? Eu gosto de mulher e você até onde eu saiba também. Isso tá errado, cara!

— Vai dizer que não sentiu nada? Que não quer? Biel, vamos nos permitir, esquecer da realidade que nos prende.

Ele se aproximou mais, quase me encostando na parede.

— Bernardo... cara, isso é efeito do álcool, a gente não pode...

— Shiii... não fala mais nada.

Ele me encostou na parede, passou a mão no meu rosto, o dedo deslizou na minha boca, pra logo em seguida seus lábios tomarem os meus novamente. Primeiro, uma sugada de leve, experimentando, aproveitando o momento. Meus olhos se fecharam e instintivamente o abracei. Minha cabeça girava pelo efeito da vodka, mas muito mais por causa do turbilhão de sentimentos que me tomaram naquele momento. Como dizem, só é preciso uma fagulha pro fogo se alastrar, e com isso o beijo foi aumentando de intensidade. Logo, era eu que o estava imprensando na parede, nossas bocas devorando-se famintas, num beijo mais gostoso que eu já tinha provado. A língua dele explorava o interior da minha boca com suavidade, enroscando-se na minha, enquanto as mãos deslizavam soltas pelo corpo de cada um. Eu apertava sua cintura, trazendo-o pra mais perto de mim, fazendo com que nossos quadris se espremessem. Confesso que foi estranho pra mim sentir o pau duro do meu melhor amigo pressionar o meu, mas só serviu pra nos incendiar ainda mais. Suas mãos entraram por dentro da minha blusa e arranhavam minhas costas, me provocando arrepios. Puxei seu cabelo pra trás e mordi seu queixo, descendo pelo seu pescoço, arrancando dele gemidos baixos. Ele tirou a minha blusa e começou a beijar todo meu peitoral, demorando-se nos meus mamilos. Passava a língua, puxava com os dentes de leve, me deixando louco. Foi descendo pela barriga, mordendo, dando pequenos chupões e quando chegou na minha bermuda, me olhou com uma cara safada e a desabotoou. Senti meus músculos do ombro se enrijecerem de tensão à medida que ele abaixava a peça de roupa, me deixando somente de cueca. Passou a mão e apertou o meu pau por cima do tecido, que estava duro que nem uma rocha. Ele foi abaixando devagar, até que minha rola pulou pra fora, batendo forte na minha barriga. Ele aproximou o rosto.

— Be, o que você vai fazer?

— Foda-se, Biel…

Ele disse rindo, pegando a garrafa de vodka e despejando o líquido em cima do meu pau. Em seguida, passou a língua da base até a cabeça, fazendo eu revirar os olhos. Colocou a cabeça na boca e sugou com força, me fazendo gemer, segurando seus cabelos. Chupava desajeitado, às vezes encostando os dentes, mas fazia com tanta vontade que eu poderia ir à lua com aquela sensação. Meu quadril mexia devagar, fodendo a boca dele de leve enquanto ele apertava minha bunda. Comecei a sentir o gozo se aproximar e o puxei pra cima, beijando a sua boca e com isso sentindo o gosto da minha própria rola ali. Que surreal isso. Engolia a boca dele, enquanto ele mesmo se livrava das suas roupas. Senti sua pele quente contra minha, causando arrepios em mim e nele.

Ele deitou na cama, colocou as mãos atrás da cabeça e ficou me olhando. Seus olhos percorriam meu corpo da cabeça aos pés, enquanto eu em pé o olhava, nu naquela cama, sem acreditar no que estava acontecendo. Ele sorriu e falou:

— Não pensa, Biel… não agora. Vem!

E eu fui, levado por movimentos sobre os quais não tinha controle algum. Deitei-me por cima dele, entre suas pernas que abriram naturalmente para que eu me encaixasse melhor. Puxou o meu rosto e me beijou com a boca cheia de vodka, passando o líquido pra minha boca, fazendo com que eu bebesse com ele. As carícias aconteciam sem que pudéssemos controlar. Eram fortes e com certeza deixariam marcas em nossos corpos, mas quem estava se importando àquela altura do campeonato? Meu pau babava tanto que o líquido escorria. Ele segurou meu pau e começou a pincelar o seu buraquinho com ele. Mordeu os lábios com os olhos fechados.

— Vem Biel, eu tô pronto.

— Mas, Be… eu não sei fazer isso, eu nunca... só com menina…

— Eu também não, mas a gente já chegou até aqui… deixe que nossos corpos falem por nós. Eu quero, quero muito você dentro de mim. Vem, caralho!

Ele disse me puxando, fazendo com que eu o beijasse com um furor louco. Abri mais as pernas dele, levantando elas um pouco, sem tirar os meus lábios dos dele. Segurei meu pau que estava bem lubrificado devido ao pré-gozo e comecei a forçar. Não entrava por nada. Ele ajudou abrindo a bunda com a mão e depois de um tempo só forçando, a cabeça entrou. Ele se contraiu na hora, fazendo uma careta de dor. Fiquei parado por um momento e tirei de novo. Lubrifiquei mais com saliva e coloquei novamente. A cabeça entrou mais fácil, mas pela feição dele, estava doendo muito. Fui colocando devagar. Centímetro por centímetro, enquanto beijava com carinho seu rosto, apertava a sua mão. Depois de tirar algumas vezes e colocar outras, entrou tudo. Não é pequeno e nem fino, então toda paciência era necessária. A gente nem sabia o que estava fazendo, nos entregamos ao momento. A vodka com certeza ajudou, porque por mais que ele estivesse reclamando de dor, a bebida amenizou bastante. Depois de um tempo parado, mexendo de leve o quadril com meu pau todo enterrado dentro dele, ele falou baixinho no meu ouvido:

— Me fode.

Não precisava falar mais nada. Lentamente tirei até a cabeça e tornei a enfiar, devagar, pra depois ir aumentando o ritmo naturalmente, na medida em que os gemidos ficavam mais urgentes. Ele mordia meu ombro com força, enquanto suas unhas cravavam na minha bunda fazendo eu enterrar cada vez mais. O suor dos corpos se misturavam, olhava nos olhos dele enquanto o fodia gostoso, vendo a sua cara de dor e prazer.

— Vai, Biel, porra! Ahhh! Fodeee, aiiii caralhoo! Ahhhh! Aiiiiiii, você tá me arrebentandoo! Ahhh!

— Sente, caralhooo!

Olhei nos olhos dele e vi sua boca formar em palavras um “eu te amo”, mas sem som algum. Beijei sua boca ainda com mais paixão. Sentia o pau dele esfregar contra a minha barriga, deixando ela melada com o líquido que saía dele, e fui aumentando o ritmo. Segurei seu membro e comecei a punhetar na mesma velocidade que o comia. Sentia o gozo se aproximar e segurava ao máximo, punhetando ele gostoso, fazendo seu pau pulsar na minha mão. Os gemidos dele foram ficando mais altos e guturais, suas unhas cravadas nas minhas costas, até que senti seu cu contrair violentamente meu pau. Os jatos de porra que saíram dele foram no seu queixo, peito e melou minha mão por completo. Aquelas contrações deliciosas, os gemidos dele enquanto se contorcia de prazer embaixo de mim, fizeram eu gozar tão forte que poderia ter perdido os sentidos. Eram tantos jatos que saiam de mim, que poderia ter inundado ele por dentro. Enfiei a cara no travesseiro ao lado da cabeça dele e soltei um urro que poderia ter acordado a casa inteira. Meu corpo todo tremia e a respiração falhava. Desabei por cima dele completamente sem fôlego. Sentia o coração dele disparado contra meu peito e sua respiração também ofegante. Foram vários minutos em silêncio até que conseguíssemos nos recuperar. Rolei para o lado da cama e fiquei de olhos fechados. Na verdade, eu tinha medo de abrir e dar de cara com a realidade. E se aquilo tivesse sido um sonho ou pior, nossa consciência nos assaltasse de imediato e víssemos a merda que tínhamos feito? O meu corpo tava todo melado e sentia ele deitado ao meu lado, mas ele também nada dizia. Resolvi quebrar o silêncio:

— Bernardo, isso que aconteceu...

— Não fala nada, Biel, não vamos estragar esse momento.

Fechei meus olhos e o senti se aproximar e se aconchegar em mim. Não queria pensar na doideira que tinha acontecido, nem como seria o dia de amanhã. Adormeci sob o efeito do álcool e do cansaço que aquela foda tinha causado.

Acordei no dia seguinte com uma puta dor de cabeça. Estava só na cama, e por um momento achei que aquilo tudo pudesse ter sido fruto da minha imaginação louca. Olhei pra cama e vi a mancha de sangue misturado com porra seca e me dei conta que não tinha sido um sonho. Olhei pro meu próprio corpo nu, cheio de marcas de arranhões e secreções secas, e viajei em pensamento até a noite anterior. Só de lembrar, meu pau já estava em ponto de bala novamente, mas eu estava zonzo demais pra qualquer coisa. Levantei com dificuldade, segurando a cabeça e tropecei na garrafa de vodka vazia no chão. Nossa, bebemos demais. Coloquei uma bermuda e fui até o banheiro. Tomei um banho demorado, lembrando dos momentos da noite anterior. Não sabia ao certo o que pensar, nem como aquilo tudo tinha acontecido, mas eu tinha absoluta certeza de que eu jamais esqueceria aquela noite e de como ela podia ter mudado minha vida totalmente. Saí do chuveiro e me enxuguei na frente do espelho, parei e passei a mão de leve em cima das marcas arroxeadas que começavam a se formar no meu peito, braços e barriga. Virei de costas e vi vários arranhões. Inconscientemente, sorri. Que doideira!

Fui pro quarto e pus uma roupa. Olhei pro meu celular, mas não constava nenhuma ligação ou mensagem dele. Resolvi ligar pro seu, mas estava desligado. Liguei pra sua casa e sua mãe me informou que ele já tinha ido pro aeroporto e quase perdeu o avião. Senti um aperto no peito. Ele poderia ter deixado um bilhete, ter me acordado, me mandado uma mensagem, sei lá. Estranho pensar que ele não se despediu de mim, sendo que eu sabia que o que aconteceu naquela noite tinha sido uma espécie de despedida, só não que seria a última.

Mandei uma mensagem pra ele pedindo que assim que chegasse lá, falasse comigo. Passei o dia pensando em tudo aquilo e olhando ocasionalmente pro celular sem que houvesse resposta. Depois dessa mensagem, eu mandei outras. Todas pedindo notícias, alegando preocupação e até mesmo saudade. Mandei e-mails, tentei ligar, mas ele nunca respondia. Perguntava pra sua mãe sobre ele, e ela me respondia que ele estava bem, mas não entrava em detalhes. Então, por que ele não respondia minhas mensagens? Depois de quase um mês de insistência, angústia e desespero, ele me respondeu:

“Gabriel, esquece o que aconteceu. Cu de bêbado não tem dono e já até esqueci daquela noite bizarra. To muito bem instalado aqui e não vou voltar mais pro Brasil. Nossa amizade foi boa enquanto durou. Não se dê o trabalho de responder, pois eu não o farei. Seja feliz. Bernardo.”

Fiquei olhando aquela mensagem no meu e-mail sem acreditar no que lia. O quê? “Nossa amizade foi boa enquanto durou”? “Não vai voltar”? Que loucura é aquela? Nem parecia a mesma pessoa, o meu melhor amigo que durante tanto tempo foi minha sombra, meu maior companheiro. Eu não queria que nada daquilo tivesse acontecido, foi ele quem quis e agora fala pra eu esquecer? Bem que eu queria, mas simplesmente não conseguia. E ainda por cima estava me expulsando da vida dele como se eu não fosse nada. Eu não podia acreditar, então eu li e reli aquela mensagem por dias, semanas, até me convencer.

Passei meses amargurado, triste e solitário. Foi muito difícil voltar a sair com a mesma turma, começar a ver colorido nas coisas de novo. Sentia nojo de mim por ter me deixado levar por ele naquela noite e pelo sentimento que acabou sendo plantado em mim.

Dois anos se passaram. Durante esse tempo, fui enterrando os meus fantasmas um a um. Passei no vestibular para Educação Física e conheci a Jaqueline, uma menina muito legal e linda com quem comecei a ficar, e depois de um tempão, resolvi enfim namorar. A gente se dava super bem, formávamos "um casal bonito", como todos diziam.

Meu corpo desenvolveu-se, ganhando novos músculos. As pernas engrossaram, assim como os braços ficaram bem torneados, a barriga levemente trincada, com gominhos aparentes. Tatuagem nos braços, uma barba rala e os cabelos lisos que quase sempre caem na minha testa, mostrava a diferença dos anos. Jaqueline era uma namorada ciumenta, mas eu sempre fui um cara sossegado e não dava trabalho. Alternava entre a faculdade, o estágio numa academia muito conceituada e a relação com ela e meus amigos. Era a mesma galera de sempre e eu me sentia muito feliz com eles. Às vezes, ouvia um comentário ou outro sobre o Bernardo, mas ignorava. Saía de perto e não queria saber nada sobre ele. O Kadu tornou-se um grande camarada nesses dois anos. Ajudou-me, mesmo que inconscientemente, a me reerguer. A gente sempre saía juntos, curtia as baladas e muitas vezes, eu não sabia qual era a dele. Via ele pegar mulher e tal, mas ao mesmo tempo ele deixava algo no ar com alguns caras, mas eu nunca perguntei e ele também nunca falou nada. A amizade é que me interessava. A vida sexual dele era problema dele.

Viajei com a Jackie e voltei no dia de uma grande festa que aconteceria na cidade. Não deu nem tempo de trocar de roupa. Deixamos a bagagem no carro e fomos encontrar os meus amigos. Meu celular ficou boa parte do tempo fora de área, mas eu sabia que eles estariam lá e não foi difícil encontrá-los. Sentamos na mesa com eles e começamos a aproveitar a noite. A festa estava cheia, e a nossa amiga que estava organizando estava muito satisfeita. O DJ era top de linha e a pista estava sempre cheia. Lá pelas tantas, fui ao bar pegar mais uma rodada de bebidas e enquanto esperava o garçom preparar os drinks, senti uma mão no meu ombro. Quando virei sorridente pra ver quem era, senti um choque ao perceber que se tratava do Bernardo. Meus olhos se arregalaram e meu sorriso morreu nos meus lábios, deixando a minha boca entreaberta. Ele olhou bem nos meus olhos e disse:

— Oi, Gabriel.

Capítulo 3 — Os fantasmas voltam

Não conseguia acreditar naquilo que meus olhos viam. O Bernardo ali, parado na minha frente, mais parecia um fantasma vindo direto do meu passado. Meu corpo inteiro tremia de choque e minha respiração falhava nos pulmões.

Ele estava diferente desde a última vez em que nos vimos. Continuava mais baixo que eu, mais ou menos 1,75m, o corpo magro estava somente um pouco mais encorpado e o velho topete em desalinho continuava como marca registrada. O rosto estava liso, sem barba, mas o queixo mais quadrado e marcado dava um ar mais velho àquele menino que eu conheci. Infelizmente sim, ainda era um cara bonito e atraente.

Ele continuava me olhando, estudando minha reação, enquanto meus movimentos pareciam congelados, sem que eu pudesse me mexer.

— Nossa, eu custei pra te reconhecer. Tá tão grande, forte, barba rala… mas eu te reconheceria em um milhão.

Ele disse sorrindo, meio sem graça diante daquela situação.

Não respondi. Com custo consegui virar as costas e sair andando. Ainda ouvi os protestos do garçom que estava preparando as bebidas, mas aquilo pouco interessava. Eu só queria sair daquele lugar e acordar daquele pesadelo. Fui caminhando rápido, esbarrando nas pessoas, tentando achar a saída. Cheguei a um lounge com sofás e pufes, mas poucas pessoas ocupavam o lugar e antes que eu pudesse continuar, senti ele puxando meu braço.

— Espera, vamos conversar.

— Tire as mãos de mim. Se você encostar um dedo em mim de novo, você vai ficar sem ele — esbravejei, com toda a raiva que sentia dentro de mim.

— Cara, só me ouve! Eu sei que eu errei, mas eu voltei pra consertar isso. Eu tive medo...

— Cala a boca! Eu não quero ouvir nada que venha de você! Pra mim, você tá morto e enterrado, e os mortos não falam!

— Gabriel, por favor. Eu sei que eu agi errado, mas caralho, quem não erra? Vamos conversar e eu te explico tudo.

— Explicar o quê? Que você foi embora sem um pingo de sentimento? Que você me expulsou da sua vida depois de anos de amizade? Que você mesmo que armou toda aquela situação, com vodka e tudo mais, e então sumiu? Que teve medo? Vai tomar no olho do seu cu, seu filho da puta! Tem ideia do que eu passei? Do que eu sofri?

— Biel…

— Não! Não me chama assim! Presta atenção, some da minha vida! Eu nunca mais quero te ver de novo! Pega esse seu remorso e enfia no cu. Vaza!

— Cara, tenta entender…

Eu fiz um sinal com a mão pra ele calar a boca ao ver a Jackie se aproximando. Abaixei a cabeça, tentando respirar fundo e me recompor pra que ela não reparasse os ânimos exaltados. Ela veio em nossa direção, sorrindo. Ele olhou para ela e depois pra mim, e então ficou em silêncio.

— Oi, meu amor, a gente tá até agora esperando as bebidas. Se perdeu, foi?

Ela falou rindo. Eu estava tentando ao máximo controlar meus nervos, mas estava impossível. Ela olhou pra mim esperando uma resposta, e depois pra ele. Ficou aguardando que eu o apresentasse e depois que ele mesmo o fizesse, mas nenhum dos dois se pronunciou.

— Desculpa, oi, tudo bem? Você é...? — ela disse, cumprimentando-o com um aperto de mão.

— Desculpe-me, meu nome é Bernardo. Prazer.

— Jackie. O prazer é meu. Péra... Bernardo… não me é estranho esse nome. Você é o que foi pros Estados Unidos?

— Sim, sou eu mesmo — respondeu ele com um sorriso que eu poderia quebrar com um soco se estivéssemos a sós.

— Ah, nossa! Já ouvi falar algumas vezes de você. Como você veio parar aqui? Chegou quando?

— Cheguei esta manhã — respondeu ele simpático, porém sem graça.

— Que legal! A galera vai gostar de te rever. Não quer ficar na mesa com a gente?

— NÃO! — falei mais alto do que pretendia. Ela me olhou meio assustada e eu novamente abaixei a cabeça, coçando o cabelo.

— Jackie, vamos embora, eu não tô me sentindo bem.

— Mas amor, a festa tá tão boa. O que foi? Tá sentindo o quê?

— Muita dor de cabeça. Vamos. Agora.

Ele me olhava, mas não dizia nada. E também não saía dali. Que raiva!

— Ah amor, eu quero ficar mais um pouco. Se tu não tiver se sentindo bem, eu volto com a Kelly, sem problemas. Você se importa?

— Não, tudo bem, eu só quero ir embora. Fala pro povo o que aconteceu, que eu não me senti bem.

— Tá bom. A gente se fala amanhã.

Ela disse isso e me deu um selinho na boca. Olhei mais uma vez com ódio pra ele e me dirigi até a saída. Fui caminhando rápido pelo estacionamento, pegando as chaves do carro no bolso. Aproximando-me do veículo, ouço novamente a voz dele:

— Então você tá namorando… Muito bonita ela, parabéns.

Virei-me com raiva e esbravejei:

— Mas que porra é essa? O que você tá fazendo aqui? Você me seguiu?

— Eu não vou desistir até você me ouvir. Eu só voltei por sua causa e pra resolver essa questão do passado. Por favor, me ouve?

— Seu viado, filho da puta! Eu já disse que eu não tenho nada pra ouvir de você! Nada do que você fale vai mudar o que aconteceu!

— Não muda o que aconteceu, mas pode mudar o que virá. Tem tantas coisas que eu quero te falar…

Ele foi falando e se aproximando, os olhos dentro dos meus com o mesmo dom de hipnotizar de anos atrás. Chegou mais perto do que eu gostaria e parou na minha frente. O perfume dele entrou nas minhas narinas, deixando-me zonzo.

— Eu achei que esses anos pudessem apagar aquela noite. Eu achei que eu pudesse voltar e te olhar como aquele velho amigo. Até hoje eu ainda tinha essa esperança.

Ele levantou a mão com a menção de passá-la no meu rosto, mas meu reflexo foi mais rápido e eu o empurrei.

— Não toca em mim! Não vai ter próxima, eu vou te arrebentar. E me faz um favor. Volta pra lá ou pra qualquer outro lugar! Vai pro inferno!

Entrei no carro e dei partida, cantando pneu, deixando ele parado no estacionamento. A verdade é que não consegui dirigir por 300 metros, pois tive que parar o veículo. Minhas mãos tremiam e eu precisava respirar. Que merda! Por que ele voltou? Bati com força no volante. Depois de tudo que eu passei, ele quer falar palavras bonitas, pedir desculpas? Não, obrigado. Não vou cair nessa. Ele enterrou a nossa amizade e aquilo que eu descobri sentir, eu mesmo já tinha enterrado. Naquela noite, quase não dormi. Pesadelos misturados com sonhos que voltavam a aquela noite rodavam meu sono.

No dia seguinte, estava mal humorado e sentando no sofá vendo TV, quando a campainha tocou. Gelei por dentro. Era só o que faltava ser ele. Fiquei ainda um tempo sentado com medo de levantar, mas a campainha continuava soando insistente. A contragosto levantei e olhei pela janela, então vi o Kadu no portão. Respirei aliviado e o chamei pra entrar. Nos cumprimentamos e ele foi logo falando:

— E aí cara, o que te deu ontem?

— Dor de cabeça — respondi secamente.

— Ixi, tá de mal humor. Que bicho te mordeu, hein? Tu perdeste o melhor da festa e ainda deixou a Jackie sozinha pros cuecas de plantão.

— Eu não tava bem, Kadu. Achei melhor vir pra casa.

— Tá. De boa. A surpresa da noite ficou por conta do Bernardo. Quando a Jackie falou que ele tava lá, ninguém botou fé, mas não era ele mesmo? Ficou lá na mesa com a gente, altas histórias dos “States”! Hahahaha!

Olhei com tanto ódio pra ele, que ele parou de rir na mesma hora.

— Nossa, Biel. Você podia matar alguém só olhando assim. Você nunca falou qual foi a treta entre vocês.

— Ele não é a pessoa que eu imaginava ser e ponto.

— Mas vocês se falaram ontem. A conversa foi de boa?

— Eu não tenho nada pra conversar com aquele cara. Que merda!

— Tá bom, não vou insistir. Não quer falar, não fala. Bora trocar de roupa que já tá na hora da pelada. Você tá precisando dar uns bicos na bola.

— Nem tô a fim.

— Nem pensar, vai logo. Não vou te deixar em paz. Boooora!

Olhei pra ele com cara de desânimo, mas ele podia ter razão. Precisava correr e dar uns chutes pra poder aliviar toda aquela tensão que eu estava sentindo. Troquei de roupa rápido e fomos andando pro campinho que tinha ali no bairro mesmo.

Chegando ao local, os outros jogadores estavam terminando de se arrumar. Alguns se alongavam, outros terminavam de vestir suas chuteiras. Eu calcei a minha rapidamente e estava de papo com alguns companheiros do meu time quando avistei o Bernardo chegar. Estava devidamente vestido para jogar e foi logo cumprimentando os presentes ali. Olhei pra aquela cena sem acreditar que ele teve a cara de pau de aparecer na pelada. Ele me olhou e deu um sorriso provocador, pois sabia que meu sangue estava fervendo nas veias por vê-lo.

Kadu, vendo que eu estava desconfortável com a situação, falou apreensivo:

— Foi mal, Biel, eu não sabia que vocês estavam brigados ainda depois de tanto tempo. Ontem, quando ele sentou na mesa, papo vai, papo vem, os garotos o chamaram pra pelada.

— Ah, então foram vocês que chamaram? Que legal, não vou mais jogar — falei tirando o colete e saindo do campo. Ele foi atrás de mim e colocou a mão no meu ombro.

— Porra, Biel! Pega leve, a gente não sabia que vocês ainda estavam nessa. Quer dizer, você, né? Porque o Bernardo não parece alimentar esse ódio de você.

— Eu tenho os meus motivos, Kadu — eu praticamente gritei, caindo na real em seguida. Não queria chamar atenção, nem parecer descontrolado. Ele não podia causar efeito em mim. Respirei fundo, me recompondo.

— Calma, Biel. Se eu soubesse, eu não teria chamado. Foi mal...

— Tudo bem, Kadu, vocês não tiveram culpa. O problema é meu, não é de vocês. Desculpa ter gritado.

— De boa, agora para com essa besteira de não jogar mais e vamos voltar pro campo. Ele vai ficar no time adversário e não precisam nem se falar se você não quiser.

— Ah, não sei...

— Vamos, Biel. Aproveita essa oportunidade, cava uma falta nele e descarrega essa raiva. Eu tô brincando! — e ele riu — Bora, não vai desfalcar nosso time, não.

E eu não queria mesmo deixá-los na mão, então concordei em jogar. Sabia que as chances de dar alguma merda eram grandes, mas não tinha muita escolha.

A partida começou e logo todos estavam correndo pra lá e pra cá. Os times estavam equilibrados e os gols eram quase os mesmos pros dois lados. Toda aquela situação me trazia muitas lembranças. O jeito que ele jogava ainda era o mesmo. A forma como corria, puxava a bola, girava o tronco. O suor escorrendo pelo rosto. Eu me esforçava pra não prestar atenção nesses detalhes, mas era quase impossível. Pra piorar a situação, quem estava me marcando era ele. Sempre que ele se aproximava com o falso intuito de me afastar da bola, roçava os braços na minha cintura ou me empurrava com o ombro. Os corpos se esbarravam o tempo todo. Desvencilhava-me à base de cotoveladas e empurrões. Insistente, ele continuava e deixava claro que se aproveitava daquela situação.

Teve um momento em que ele segurou a minha cintura e praticamente me encoxou, aproveitando-se da confusão de jogadores dentro da área. Falou perto do meu ouvido:

— Saudades disso...

Eu virei com tanta raiva, que ele cambaleou pra trás. Eu dei num empurrão tão forte que ele caiu sentado no chão.

— Seu filho da puta! Eu vou te quebrar na porrada!

Eu fui pra cima dele, mas a turma do deixa disso já estava ali para me afastar e acalmar os ânimos. O Kadu me puxou e conversou comigo, pedindo pra eu me acalmar. Logo voltamos ao jogo e eu não deixava ele se aproximar muito. Não ia facilitar em nada pra ele, e eu nem me aproximava mais da área para que ele não tivesse motivos pra ficar perto de mim. Não demorou muito, ele fez um gol e foi comemorar com o seus companheiros de time. Entre um abraço e outro, olhou pra mim e fez com a boca: “Pra você”, e abriu um sorriso imenso. Fiquei totalmente desarmado, sentindo um misto de raiva e uma sensação esquisita que eu não conseguia explicar.

O jogo recomeçou e ele se manteve na área, sentindo-se o Romário. Estava bem próximo ao gol e quando a bola caiu nos meus pés, eu não pensei duas vezes. Mirei nele e acertei um bico com toda a força que tinha em mim. A bola foi certeira como um foguete, lhe acertando em cheio na cabeça, fazendo ele cair e bater com o crânio na trave, caindo desacordado em seguida.

Arregalei os olhos, paralisado e sem saber o que fazer.

— Meu Deus, o que foi que eu fiz?

Capítulo 4 — E agora?

Consegui sair do meu entorpecimento e corri na direção dele. Ajoelhei-me ao seu lado e o sacudi com moderação, apesar do meu desespero.

— Bernardo? Bernardo, acorda! Acorda, cara!

Passei a mão na sua cabeça e ela veio suja de sangue. Meu coração estava tão acelerado no meu peito que poderia sair pela boca. O Kadu chegou apressado ao meu lado, chocado com aquela situação.

— Caralho, Biel, o que tu fez, mano?

Sem tirar os olhos do Bernardo, eu gritei:

— Chama uma ambulância, Kadu, rápido!

Ele saiu correndo para pegar o celular, enquanto os outros jogadores aguardavam aflitos, formando uma roda em volta da gente.

— Bernardo, pelo amor de Deus, acorda! Fala comigo!

Eu implorava, passando a mão em seu rosto enquanto minha outra mão pressionava o corte em sua cabeça. Sabia que não podia mexer nele, porque nesses casos pode ser perigoso e piorar a situação, mas a vontade que eu tinha era de abraçá-lo. Apesar de toda a raiva que eu sentia dele, eu nunca quis que nada de mal lhe acontecesse e agora me sentia terrivelmente culpado. Só de pensar que eu o machuquei daquele jeito, colocando sua vida em risco, me fazia quase perder os sentidos. Ouvia os comentários de alguns dizendo que fiz de propósito e eu era uma espécie de monstro, mas não me importava. Só ele me importava naquele momento. O Kadu voltou dizendo que a ambulância já estava a caminho, mas aquela demora estava me matando. Chamei-o diversas vezes, mas ele estava completamente desacordado. As lágrimas brotavam em meus olhos, mas eu segurava firme. Não podia fraquejar naquele momento. Peguei a mão dele e apertei com força.

— Você vai ficar bem, eu prometo — eu disse baixinho, só pra ele.

Com cuidado, pus a cabeça dele no meu colo para pressionar melhor o corte.

A ambulância chegou e o imobilizaram para depois colocá-lo na maca. Acompanhei tudo apreensivo, mas não saí do lado dele. Pedi pro Kadu pegar as minhas coisas e quando o colocaram no veículo, eu fiz questão de ir com ele. Segurei sua mão durante todo o trajeto, ao mesmo tempo em que telefonava pra minha mãe para que ela avisasse os pais dele. Eu assumiria toda a responsabilidade, a única coisa que me interessava era ele ficar bem.

Chegamos ao hospital e entraram com ele para a área restrita. Eu fiquei na sala de espera sentado, com a cabeça apoiada nas mãos. Respirava descompensado de tanto medo do que pudesse acontecer. Minha cabeça girava imersa em lembranças misturadas com os últimos acontecimentos. Senti uma mão no meu ombro, e quando olhei, vi o Kadu sentado ao meu lado.

— Vai ficar tudo bem, Biel. Eu tô aqui e vou ficar do seu lado. Se acalma.

Eu o abracei com força e as lágrimas vieram em abundância. Os soluços não me deixavam falar, só extravasavam o desespero que eu estava sentindo. O Kadu me abraçava, tentando me acalmar, me consolar, mas mal ele sabia o real sentido daquele pranto. Toda a história que tinha por trás de uma briga de melhores amigos do passado, tudo que aconteceu e todo sentimento que eu escondia dentro do peito. Fui me acalmando, respirando mais pausadamente, pois eu não podia perder as forças, nem a fé. Minha mãe chegou acompanhada dos pais do Bernardo e logo foram buscar notícias na recepção, mas ainda não podiam informar do estado dele. A mãe do Bernardo aproximou-se da gente e perguntou, aflita:

— Gabriel, como isso foi acontecer?

Respirei fundo e quando abri a boca pra falar, o Kadu foi mais rápido do que eu.

— Ele levou uma bolada e bateu acidentalmente com a cabeça na trave.

— Mas quem deu essa bolada?

— Ah, a gente nem viu, foi tudo muito rápido. Foi sem querer, ninguém tinha a intenção de machucar ninguém. Futebol tem dessas coisas.

Ele falou com aparente naturalidade, convencendo a mãe do Bernardo. Ela foi se juntar ao pai dele e à minha mãe, e eu me virei pro Kadu.

— Por que você mentiu? Eu ia assumir a responsabilidade pelo meu ato.

— Eu sei, Biel, mas pra que se indispor? Os ânimos estão exaltados e a gente é tudo amigo desde moleque. Como você ia explicar a bolada proposital? Melhor deixar assim.

— Não me importo que a casa caia na minha cabeça, só quero que ele saia dessa.

— Eu sei, mas depois, se você quiser contar tudo, você conta. Agora é melhor esperar tudo se acalmar.

Fiquei em silêncio e nada disse. Os minutos se arrastavam e minha angustia só aumentava. Eu não me perdoaria se algo acontecesse com ele. Minha mãe também tentava me acalmar, sempre trazendo copos de água ou me perguntando se eu queria alguma coisa. Não podia pensar em nada que não fosse o bem estar dele.

O médico veio dar notícias sobre o estado dele e todos se sobressaltaram. Ele explicou que ele teve um traumatismo craniano leve e que eles estavam controlando a pressão cerebral. Ele ficaria internado em observação e se tudo corresse bem, em dois dias ele estaria em casa ou até antes dependendo da evolução do quadro. No momento ele estava descansando devido à medicação, mas assim que acordasse, a família seria chamada para a visita.

Meu alívio foi tão grande que minhas pernas bambearam. O Kadu me abraçou com força, praticamente me segurando, enquanto as lágrimas voltaram a banhar o meu rosto. Era como se uma tonelada tivesse saído das minhas costas e agora eu finalmente pudesse respirar, descansado. Minha mãe insistiu que eu fosse pra casa tomar um banho e tirar aquela blusa ensanguentada, mas eu não queria sair de lá antes de ver com meus próprios olhos que ele estava bem. O Kadu me emprestou uma blusa que ele tinha na mochila, e eu fui no banheiro trocar. Lavei as mãos que ainda tinham o sangue dele e depois o rosto. Olhei no espelho e me sentia um pouco melhor. Porra, que burrada que eu fiz! Eu não podia me descontrolar daquela maneira, nem podia fugir pra sempre. Eu tinha que encarar aquela situação e tentar resolver da melhor maneira.

Saí do banheiro com uma aparência melhor e continuei a aguardar. Quase três horas depois, os pais dele foram chamados e ficaram lá por quase meia hora. Eu não sabia se me deixariam entrar pra vê-lo, mas eu não arredaria o pé dali. Quando os pais dele saíram, eu pedi pra entrar. A enfermeira não queria deixar, alegou que ele precisava descansar, mas eu garanti que seria rápido. Eu só queria vê-lo.

Entrei no quarto timidamente e o encontrei deitado com a cabeça enfaixada, com o soro no braço. Ele olhou pra mim sério e se manteve em silêncio. Aproximei-me da cama lentamente e parei ao seu lado.

— Como você tá?

— Sobrevivi. Eu não sabia que seu ódio por mim era tão grande a ponto de você tentar me matar.

— Eu não tentei te matar, Bernardo. Eu quis te acertar uma bolada, não imaginei que isso tudo fosse acontecer.

— De certa forma eu mereci aquela bolada. Espero que agora um pouco da sua raiva tenha passado pra que a gente possa enfim conversar.

— Olha, Bernardo, eu confesso que eu quase morri de preocupação de te ver desacordado naquele campo. Não me perdoaria caso acontecesse algo a você, mas não se aproveite disso pra tirar vantagem. O seu estado não apaga o que aconteceu.

—Eu sei, Biel. Eu errei feio com você. Na verdade, eu só queria que você soubesse que pra mim foi muito difícil também. Eu acordei no dia seguinte chocado com o que tinha acontecido, agi por impulso libertando um desejo que existia dentro de mim, mas com o qual eu não sabia lidar. Me senti confuso, perdido. Achei que lá eu poderia começar uma vida nova e me livrar daquele estigma.

— Bernardo…

— Por favor, me deixa continuar. Eu há tempos estava convivendo com aquele desejo dentro de mim e vi na minha partida a chance de realizar. Porém, no dia seguinte, eu acordei ainda mais apaixonado. Sim, Biel, eu estava apaixonado por você e aquilo me pareceu tão errado, tão louco, que eu fugi. Fiz por mim e fiz por você porque sabia que seria muito difícil pra nós dois. Não tínhamos idade, nem cabeça pra lidar com aquilo. Eu sofri muito, sozinho lá. Atormentado por lembranças, por uma saudade que não passava. Pensava o tempo todo em você, sentia falta de tudo que a gente viveu.

— Olha, você precisa descansar e eu tenho que ir — disse eu, já virando as costas, mas ele segurou meu braço.

— Espera.

Eu olhei pra ele. Ele segurou minha mão.

— Me perdoa?

Abaixei a cabeça. Novamente o olhei.

— Não é simples dessa forma, Bernardo. Palavras não curam feridas assim.

— Eu sei, mas a única coisa que eu quero é voltar a ter contato com você, participar da sua vida. Eu não posso mudar o que aconteceu e sei que provavelmente nunca mais vai rolar de novo entre a gente. Você tá namorando… e me odeia. Independente do que eu sinto, eu quero que você seja feliz. Quem sabe com o tempo, a gente não volte a ter uma amizade. Talvez não como antes, mas ainda sim, uma amizade. Me perdoa?

Fiquei olhando pra ele, enquanto segurava a minha mão, tentando absorver tudo que e ele tinha me dito. Não podia falar que iria perdoar se dentro de mim a ferida ainda estava tão viva. Também não podia negar que todo aquele ressentimento me corroía por dentro, me fazendo mais mal do que qualquer outra coisa. Eu tinha que me libertar daquilo e talvez ele tivesse me oferecendo a chance, porém, tudo é um processo. Tem coisas que não podem ser ignoradas, degraus que foram quebrados tem que ser reconstruídos antes de continuar a subida.

— Bernardo, deixa que o tempo faça isso. Eu ainda não sou capaz de perdoar, mas eu também não quero carregar essa mágoa dentro de mim.

— Tudo bem, eu fico feliz só de você ter me escutando. Eu ainda tenho muita coisa pra te falar, mas vou ter paciência. Você não tem ideia do bem que me fez. Eu vou te mostrar que me arrependi e amadureci com tudo isso. Você não sofreu sozinho, eu te garanto.

Olhei pra ele e depois, lentamente, soltei a sua mão. Saí do quarto e respirei fundo. Graças a Deus estava tudo bem, e agora só restava deixar o tempo fazer o trabalho dele. Sentia-me exausto e ao sair do hospital, vi que o Kadu me aguardava.

— E aí, como ele tá?

— Está bem. Vai ser recuperar rápido, acredito eu.

— Menos pior, foi só um susto.

Concordei com a cabeça e fomos embora. Ele insistiu em me acompanhar até a minha casa e não fiz objeção. O Kadu estava se mostrando um bom amigo. Não tínhamos tanta intimidade, mas ele era parceiro pra caramba.

Chegamos à minha casa e eu corri pra tomar um banho. Deixei a água quente relaxar meus músculos e limpar aquelas marcas de sangue. Saí me sentindo renovado e fui encontrar com ele no quintal. Kadu estava com duas cervejas na pequena mesa disposta no gramado e eu me juntei a ele. O primeiro gole é sempre o mais gostoso, e agora eu podia descansar a mente.

— Kadu, se você quiser tomar um banho, de boa. Eu te empresto uma roupa e tal.

— Não, tá tudo bem. Daqui a pouco vou pra casa. Só queria me certificar que você vai ficar bem.

— Pô, cara… eu nem sei como te agradecer pela força que você deu. Tu não tens ideia do quanto teu apoio foi importante pra mim. Valeu de verdade.

— Que isso, Biel. Você pode sempre contar comigo. A gente se conhece há muitos anos, mas você sempre andava grudado com o Bernardo, a gente fazia parte da mesma turma e não tinha tanto contato.

— É, eu sei. A gente se conhece há um tempão, mas eu nem sei tantas coisas assim sobre a sua vida. Já te considerava pra caralho, mas depois de hoje você subiu mais ainda no meu conceito. Obrigado mais uma vez.

— Biel, tu sabes que depois de tantos anos e agora que estamos mais próximos, você pode confiar em mim, né?

— Por que você tá falando isso, Kadu?

— O que aconteceu entre você e o Bernardo? Você nunca quis contar, mas eu sempre soube que algo de sério tinha acontecido. Não foi uma briga somente, eu vi seu desespero hoje e não foi de alguém que simplesmente machucou outra pessoa. Por mais que você tivesse colocado a vida dele em risco, a sua reação foi mais intensa. Se abre comigo, vai.

— Kadu, tem coisas da sua vida também que você nunca abriu pra mim…

— Pois é, Biel, chegou a hora da verdade. Pra mim e pra você.

Capítulo 5 — A verdade vem à tona

Eu olhei pra ele um pouco assustado. Na verdade, não imaginava que a gente teria essa conversa, ainda mais depois de tudo que aconteceu nas últimas horas. Ele me olhava sério, esperando que eu falasse alguma coisa, mas eu estava travado.

Não sei se estava pronto pra abrir a Caixa de Pandora do meu passado, remexer naqueles acontecimentos que estavam tão vivos agora com a volta do Bernardo. Além disso, era a vida dele também e não era certo eu falar assim, sem a permissão dele.

— Olha, Kadu, eu não posso falar. Não diz respeito só a mim e eu não quero mexer nessas feridas.

— Eu entendo, Biel, mas eu não sou qualquer um. Sou um cara que você conhece desde moleque. Eu conheço o Bernardo também e tudo que você falar aqui, vai morrer aqui. Até porque também estou disposto a me abrir.

— Mas Kadu, não é tão simples…

— Vamos fazer o seguinte: eu começo. Assim, você vai se sentir mais seguro para se abrir e depois se sentirá bem mais leve. Eu também quero romper essa barreira contigo.

Eu olhei pra ele, mas nada disse. Não nego que sentia curiosidade em saber mais da vida dele, mas ao preço de revelar a minha, me estremecia. Ele tomou um gole demorado na cerveja e começou:

— Eu vou ser direto e não vou ficar de mimimi. Eu sou bissexual desde que me entendo por gente. Gosto de mulher, da sua delicadeza, dos seios macios e gostosos de pegar e chupar, dos cabelos longos perfumados, de meter gostoso nelas. Eu também gosto de homens, da pegada forte, do jeito másculo e firme, de não ter frescura e de sentir eles dentro de mim.

— Então quer dizer que mulher você come e homem você dá?

— Hahahaha! Resumindo é isso, sim. Eu aproveito o melhor dos dois. Gosto de sentir essa diferença de sensações e desfrutar do prazer ao extremo. Eu alterno de acordo com a minha necessidade. Às vezes tô mais a fim de mulher, outras de homens e assim eu me sinto feliz.

— Nossa… confesso que eu desconfiava, mas você falando assim de maneira tão direta é um pouco chocante. Você parece lidar com isso com tanta naturalidade…

— Porque pra mim é natural mesmo. Eu não fico me culpando por me sentir atraído pelos dois sexos e também não sinto necessidade de gritar isso ao mundo. É uma coisa minha, particular e eu lido numa boa.

— Eu te entendo e te admiro por isso.

— Valeu, Biel. Confesso que eu senti um pouco de medo de revelar isso a você e não ter uma boa aceitação, mas confiança gera confiança, e sei que posso confiar em você.

— Muito obrigado por isso.

— Você também pode confiar em mim. O que aconteceu entre você e o Bernardo?

Olhei bem nos olhos dele e depois abaixei a cabeça. Tinha chegado o momento de me abrir, mas eu não me sentia pronto. Por onde começar? Era tão difícil falar disso. Respirei fundo e comecei a falar devagar sobre como tudo aconteceu. Os olhares estranhos, os toques velados e aparentemente despropositais, até chegar naquela noite fatídica em que nos entregamos à paixão. Ele ouvia tudo atentamente, me incentivando a continuar quando a minha voz insistia em sumir. Era paciente com a minha narração emocionada, que muitas vezes era pausada por me faltarem as palavras. Terminei o meu relato falando dos motivos que me levaram a dar aquela bolada no Bernardo e tudo que eu senti depois que ele ficou desacordado no chão.

— Porra, se não fosse você me contando tudo isso, eu nunca acreditaria. Mesmo me relacionando com homens, nunca vi nenhum indício em vocês dois de que pudesse haver esse tipo de atração. Doideira!

— Pois é, foi algo muito inusitado e intenso. Eu também nunca olhei o Bernardo ou qualquer outro homem com esses olhos, mas confesso que a atração existia, embora negada por nós dois.

— Biel, e depois daquela noite? Ficou a mágoa pela amizade que foi desfeita, ou a dor também por ter surgido um outro sentimento?

— O que você quer saber exatamente?

— Você se apaixonou pelo Bernardo?

Era dessa pergunta que eu tinha medo. Olhei pra ele, mas não consegui responder. Era uma coisa que eu negava a mim mesmo com tanta veemência, que eu simplesmente não conseguia admitir. Ele me olhou atentamente, estudando a minha reação, e por fim falou:

— Tá na cara que você não somente se apaixonou, como continua apaixonado por ele. Eu não te culpo por isso. Depois desse relato tão emocionado, é fácil entender como isso foi acontecer, mas e agora? O que você vai fazer?

— Eu não vou fazer nada, ué. Tá louco, Kadu? Isso daí é passado. Eu tenho uma namorada linda, recomecei a minha vida e ele não tem direito nenhum de querer mudar tudo agora. Eu não tenho esse desprendimento que você tem, não sei se saberia lidar tão naturalmente com isso. Além do mais, eu ainda tô muito magoado.

— Eu entendo, mas fala sinceramente pra mim, você gostou daquela noite, né? Tipo, o sexo e tudo mais.

Ele perguntou de maneira marota. Eu ri e senti meu rosto corar. Eu não estava nem um pouco acostumado a falar desse assunto.

— Foi surreal. Eu nunca senti nada parecido e tão intenso. A gente não tinha experiência nenhuma com homem, mas nossos corpos simplesmente se correspondiam sozinhos, sem que controlássemos.

— Que foda! Quando o tesão fala mais alto, já era. Ainda mais quando tem sentimento, aí fica tudo mais gostoso. Vocês dois são bonitos, gostosos e deve ter sido uma visão e tanto. Só de imaginar...

— Aff, Kadu, pára com essa merda! — e dei uma risada.

Eu dei um soquinho no braço dele de leve, rindo envergonhado. Ele riu também, dando mais um gole na cerveja.

— Sabe, você sempre foi uma fonte de inspiração.

— Inspiração? Como assim?

— É Biel, tu sabe...

Ele falou rindo, movimentando a mão num vai e vem, simulando uma punheta. Arregalei o olho e engasguei com a cerveja, cuspindo uma boa quantidade do líquido gelado.

— Hahahahaha! Sabia que você reagiria assim, mas já que a gente está na hora da verdade, tinha que te falar. Desde moleque eu fantasio com você. Já era gatinho naquela época e agora se transformou num garotão muito gato e gostoso. Tem um rosto lindo e um corpo que é uma tentação. Só que nunca imaginei que tu pudesses curtir algo assim.

— Cala a boca, Kadu! Quer me matar de vergonha? — eu disse rindo, sem graça.

— Só disse a verdade.

— E eu não curto, aconteceu. Só.

— Aconteceu, mas você gostou. Deixa as coisas rolarem naturalmente, Biel. Não se cobre tanto. Em relação ao Bernardo, deixe sim que o tempo faça o trabalho dele, mas se abra a essa reconciliação. Ter uma mágoa assim dentro de si faz muito mal. Além disso, vocês podem ser amigos.

— É, você tá certo. Tá na hora de eu superar o que aconteceu. Valeu, Kadu, realmente eu me sinto muito mais leve de ter compartilhado isso com você. Durante tanto tempo eu carreguei esse peso sozinho e foi bom poder dividir com você. Só te peço que nunca fale isso com ninguém, pois não é algo só meu. Ele tá envolvido nisso também e merece discrição.

— Claro, Biel, isso nunca vai sair daqui. Gosto de ser discreto e entendo perfeitamente. O segredo de vocês está seguro comigo.

— Valeu, irmão.

Eu o abracei com força, selando a nossa amizade.

Passaram-se algumas semanas sem grandes novidades. Tinha notícias do Bernardo pela minha mãe e sabia que ele estava se recuperando bem. Evitava vê-lo e foquei na minha rotina diária. Tinha horas que eu até esquecia que ele estava ali, mas esses momentos duravam pouco. De uma certa maneira, ele povoava meus pensamentos mais do que eu gostaria, mas eu tratava de espantar tais pensamentos.

No fim de semana, era o aniversário da Julia e agradeci mentalmente pela Jackie ter se encarregado do presente. Odiava shopping e ainda tinha duas aulas de personal pra dar. Fui em casa tomar um banho rápido, peguei a Jackie e fomos pra lá. A casa já estava com bastante gente espalhada pelo quintal, piscina e em mesas próximas à churrasqueira. Cumprimentamos a todos e sentamos com um grupo, onde o Kadu estava. Ele por sinal estava com uma menina que se derretia claramente por ele, mas o mesmo estava com aquele ar maroto de quem só quer se divertir. Estava sem camisa, com uma bermuda floral branca e azul. Os cabelos encaracolados caíam desalinhados pela testa, dando-lhe um ar juvenil. Os olhos castanhos estavam sempre acompanhados de um sorriso de quem está constantemente de bem com a vida. Estávamos nos divertindo, até eu ver o Bernardo chegar. Confesso que eu não imaginava que ele fosse, embora soubesse que ele conhecia a Julia e isso era uma chance. Eu o vi cumprimentar as pessoas, sorridente enquanto todos perguntavam sobre o seu estado. Ele parecia estar completamente recuperado e saudável. Cumprimentou-me de longe com um aceno de cabeça e eu retribui de maneira tímida. Tentei me distrair ao máximo, não prestando atenção na sua presença, mas era difícil. Levantei pra pegar mais cerveja e um pratinho com carne, mas ele estava na frente esperando para pegar uma porção de comida. Quando estava saindo, não me viu parado atrás dele e derrubou todo o conteúdo do prato na minha blusa.

— Porra, que merda, Biel. Desculpa, eu não te vi.

— Caralho... tudo bem, sem problema — disse eu, tentando limpar em vão as manchas de carne na camisa.

— Putz, não tá tudo bem, não, eu acabei com a sua blusa. Foi sem querer, de verdade.

— Eu sei, Bernardo. Deixa pra lá, churrasco é assim mesmo.

Fui até o banheiro para tentar tirar as manchas com água e sabão. Tirei a camisa e estava lavando as partes manchadas quando ouvi a porta sendo fechada. Sobressaltei-me quando vi o Kadu fechar a porta apressado, se posicionar na frente do vaso e começar a desabotoar a bermuda.

— Foi mal, Biel, tô me mijando. Cerveja é uma merda — disse ele, tirando a rola pra fora e urinando fartamente.

— Não dava pra esperar eu sair, mano?

— Foi mal, mas não dava não. Tava muito apertado. Ahh! Nossa, que delícia.

Ele gemeu aliviado, enquanto dava os últimos jatos de urina. Olhei de canto de olho, curioso, mas ao mesmo tempo com receio de olhar. Tentei me concentrar na blusa, enquanto ele terminava. Olhei pelo espelho e vi que parte da bunda dele estava pra fora. Branca, sem pêlos e um tanto arrebitada, coisa que eu nunca tinha reparado. Ele guardou o pau e se virou pra mim, ainda com a bermuda aberta, exibindo a sunga branca que estava por baixo. Fingi estar com a atenção total na lavagem, quando ele se aproximou. Meu pau estava querendo dar sinais de vida, pressionei ao máximo contra a pia pra que ele não visse.

— Dá pra eu lavar a mão?

— Ah, claro, Kadu. Eu já terminei. Não saiu tudo, vai ficar manchada — disse eu desanimado, olhando pro estrago no tecido. Disfarçadamente coloquei na frente da minha rola, que graças a Deus já estava voltando ao seu normal.

— Ah, fica sem camisa, melhor. Garanto que ninguém vai reclamar.

Ele riu, dando uma piscada marota com o olho.

Dei um leve empurrão, rindo, e quando ele destrancou a porta, demos de cara com o Bernardo que provavelmente estava esperando pra usar o banheiro. Ele olhou surpreso pra gente, primeiro pra mim e depois pro Kadu, nos encarando sério. Meu sorriso morreu nos lábios, sem graça diante daquela situação, mas podia apostar que o Kadu estava se divertindo, pois sustentava um sorriso provocador. Era possível fatiar a tensão no ar, enquanto nenhum dos três falava qualquer coisa.

Capítulo 6 — O destino tem vida própria

— Que porra é essa? — perguntou Bernardo autoritário, esperando uma explicação. Eu abri a boca pra falar, mas o Kadu como sempre foi mais rápido.

— Algum problema, Bernardo? — perguntou ele de uma forma provocadora, sustentando um sorriso debochado nos lábios.

— Não sei, vocês que podem me dizer, estavam trancados no banheiro. O que tá pegando?

Eu não podia deixar aquilo virar um “cavalo de batalha” e me apressei em falar:

— Não é da sua conta, Bernardo. Vai cuidar da sua vida — respondi seco e fui andando, sendo acompanhado pelo Kadu. Logo que saímos da casa, eu o puxei num canto.

— Porra, Kadu, qual é? Você fez aquilo de propósito pra provocar ele. Por que não falou logo o que aconteceu e pronto?

— E perder a chance de ver ele fazer uma cena de ciúmes? Não mesmo — respondeu ele rindo, e eu lhe dei um soco leve no braço para mostrar a minha indignação com aquela atitude. Tudo bem, não estava tão indignado assim. Eu até gostei de ver o Bernardo fazer papel de tolo daquele jeito, mas não queria alimentar esse tipo de conduta por parte do Kadu.

Voltei pra mesa e ainda tive que ouvir as reclamações da Jackie por eu estar sem camisa. Mostrei a blusa manchada e ela aceitou, contrariada. Estava tentando me distrair com o papo das pessoas que estavam ali, mas estava completamente aéreo, perdido nos meus pensamentos. A verdade é que depois de um tempo eu já estava torrando debaixo daquele sol, então resolvi dar um mergulho na piscina. Tinha uma galera jogando vôlei aquático, mas eu só queria dar uma refrescada mesmo. Tirei a bermuda ficando somente com uma sunga larga preta, com listras brancas nas laterais. Confesso que fico extremante envergonhado de ficar somente com essa peça de roupa, até porque o volume frontal é aparente demais e qualquer olhar mais incisivo faz rachar a minha cara, porém ficar com a bermuda pingando por horas me incomoda mais ainda.

Entreguei o short pra Jackie e quase corri pra entrar na piscina. Antes de entrar, vi que o Bernardo me olhava da cabeça aos pés. Parecia hipnotizado com o que via, me deixando mais vermelho que um tomate maduro. Os olhos dele passeavam livremente pelo meu corpo, me deixando praticamente nu diante daquelas pessoas. Encarei-o carrancudo, mas ele desviou os olhos para outra direção, franzindo a testa sério, intrigado com algo. No mesmo momento olhei para onde estava a atenção dele e vi o Kadu na piscina me olhando com um sorriso safado nos lábios, como quem estivesse aprovando o que via e ainda deu uma piscadela marota rápida, mordendo os lábios sutilmente em seguida. Eu fiquei tão sem graça e nervoso com aquela situação, que me apressei em entrar logo naquela piscina e ficar submerso na água para quem sabe, poder afogar a vergonha que eu estava sentindo. O piso estava escorregadio e eu praticamente decolei, batendo com o braço no chão e a testa na borda, caindo na água em seguida. A dor foi lancinante, mas eu mantive a pose de durão e fingi que estava mergulhando. Sentia-me meio tonto, mas já me bastava a cena anterior que quase me matou de tanta vergonha, agora esse tombo pra fechar o caixão de vez. Submergi, segurando a testa e fazendo uma pequena careta de dor, então vi o Kadu se aproximando.

— Caralho, brother. Que pacote, hein? Caiu feio mesmo. Machucou?

— Não, só tá doendo um pouco. Você é foda! Que porra foi aquela que você fez? Ficar dando piscadinha. Eu, hein? Tá louco?

— Ah, foi por isso que você caiu que nem uma jaca podre no chão? Não sabia que eu tinha esse poder sobre as pessoas! Hahahaha! Ninguém viu, seu bobo — disse ele rindo, e eu o empurrei zangado, mas achando graça da marotice dele. Sorri mesmo contra a vontade e o vi ficar sério, olhando pra mim.

— Ih, Biel, tá sangrando...

Ele apontou pra minha testa. Passei a mão e ela veio vermelha, misturada à água. Que merda, era só o que faltava! Sentia meu olho arder porque provavelmente o sangue estava entrando nele, mas não queria sujar a piscina. Quando fui me movimentar pra sair de lá, vi o Bernardo tirar a camisa com rapidez mostrando uma enorme tatuagem nas suas costas. Tudo acontecia num modo acelerado, mas para mim, mais parecia em câmera lenta. Mesmo sem querer, analisei seu corpo por completo. Apesar de magro, seus braços tinham músculos discretos, mas definidos. O peito sem pêlos estava mais desenvolvido, enquanto a barriga exibia gominhos leves e firmes. Em menos de um minuto ele já estava dentro da piscina, segurando meu rosto, analisando o ferimento. Assustei-me com aquela aproximação, tentando empurrá-lo, mas ele segurou firme.

— Sai, Bernardo! Tira as mãos de mim, você tá louco?

— Cala a boca, Biel. Deixa eu ver esse corte.

Ouvia a voz desesperada da Jackie e as pessoas olhando um pouco preocupadas, mas a única coisa que eu queria era sair dali, ainda mais com essa proximidade dele.

— Deixo nada, você é médico por acaso?

— Quase — respondeu ele sério, ainda olhando o corte tão de perto que sentia sua respiração no meu rosto. Olhei pra sua boca e a vi muito perto da minha, me dando calafrios. Acordei daquela espécie de hipnose que ele me causava.

— Quase?

— Ainda não me formei, mas daqui a algum tempo já poderei ser chamado assim. Olha, você deu sorte. Abriu o supercílio, mas não vai precisar dar ponto. Vamos sair da piscina pra eu fazer um curativo.

Saí da água meio atônito, pois não sabia que ele estava fazendo Medicina. Além disso, tudo que eu não queria era depender dele pra nada. Aquilo era castigo por eu ter dado a bolada nele, tudo que a gente faz nessa vida volta pra gente e essa era a minha colheita. Sentei numa cadeira e a Jackie veio preocupada.

— Ai, meu amor, você está bem?

— Tô sim, não foi nada.

— Ai, mas tá sangrando tanto. Você quase me matou do coração.

— Eu paguei o mico do século, isso sim. Pode ficar tranquila, morena. Tá tudo bem.

Ela me deu um selinho demorado, sendo interrompida por ele. O mais novo futuro médico estava com um kit de primeiros socorros na mão. Limpou o ferimento com gaze e desinfetou com um antisséptico, fazendo tudo sério e compenetrado. Aproveitei o momento para olhá-lo melhor. Estudei as linhas do seu rosto, os olhos castanhos esverdeados pareciam mais claros. A boca ligeiramente carnuda e rosada ainda era a mesma de anos atrás. Olhei para ela por segundos a fio lembrando como era a sensação de tê-la na minha, deslizando suavemente pelos meus lábios. Quando levantei os olhos, o encontrei olhando pra mim e então sorriu.

— Prontinho. Você vai sobreviver.

— Não precisa disfarçar, eu sei por que você tá rindo. Deve estar pensando que eu te dei aquela bolada e agora me fodi. Pode rir, eu mereço.

— Não tô rindo disso e sim porque você estava olhando a minha boca. E eu nunca me divertiria se acontecesse algo sério com você — disse ele fitando-me nos olhos. Fiquei sem ação, retribuindo o olhar mesmo sem ter controle algum disso. Então ele levantou, saindo, e antes que se afastasse, eu disse:

— Bernardo...

Ele se virou.

— Valeu. Valeu de verdade.

Ele sorriu e saiu.

Não demorou muito e todos já tinham esquecido aquele incidente. O band-aid incomodava um pouco, mas a sorte é que não tinha sido nada grave. Vi algumas garotas em cima do Bernardo, mas ele não parecia muito interessado, embora fosse simpático com todas. Eu que não ia dar importância pra isso. Anoiteceu, mas a galera ainda estava a todo o vapor. Enquanto tivesse carne e cerveja, a festa iria longe. A Jackie exagerou um pouco e estava um tanto quanto alegre, então resolvi levá-la pra casa. Sentia-me cansado também e com um pouco de dor de cabeça. Começamos a nos despedir de todos e antes que eu pudesse sair, o Bernardo chegou até a gente.

— Biel, vocês se importam de me dar uma carona? Eu cheguei há pouco tempo e ainda nem pude ver um carro. Se não for incômodo.

— Claro que não! Imagina se a gente ia deixar quem cuidou tão bem do meu bebê a pé por ai. Né, amor?

A Jackie se antecipou já decidindo por mim, e eu de fato não poderia negar uma carona a ele depois do ocorrido naquela tarde. Dei um sorriso amarelo um tanto contrariado e fomos todos pro meu carro. Deixei a Jackie primeiro em casa, pois ela morava mais distante de nós, enquanto a família dele ainda residia na rua atrás da minha. Parei o carro na frente da sua casa e esperei que ele saísse, mas é claro que ele não fez isso. Olhou pra mim e falou:

— Nem tá tão inchado, só vai ficar um pouco roxo. Amanhã já dá pra tirar esse curativo e deixar o ferimento respirar.

— Eu não sabia que você estava fazendo Medicina.

— Nem podia, né? A gente não se falou esse tempo todo. Depois de tudo o que aconteceu, eu meti a cara nos estudos e passei pra faculdade. Cursei esses dois anos lá e agora tô pensando em transferir pra cá.

— Já sabe qual vai ser a especialidade?

— Pensei em cirurgia geral, mas eu to estudando as possibilidades.

— Entendi — disse eu sem olhar pra ele. Ele virou a chave do carro, desligando-o e então virou-se pra mim.

— Biel, o que tá rolando entre você e o Kadu?

Era só o que me faltava ele tocar nesse assunto. E pensar que semanas atrás era o Kadu quem estava me fazendo essa mesma pergunta.

— Não tá rolando nada, Bernardo.

— Que tá rolando algo, isso é fato. Eu quero saber o que é.

— E você acha mesmo que você tem esse direito? Olha, Bernardo muito obrigado por ter cuidado do corte na minha sobrancelha, mas já tá na hora de você entrar em casa.

Ele respirou fundo, enquanto eu olhava pra frente, esperando ele sair.

— Tá bom, desculpa. Eu não tenho esse direito mesmo. Porra, mas é natural eu querer saber se tá rolando algo com a pessoa que eu am.. . gosto. Você é meu melhor amigo!

— Eu não sou mais seu melhor amigo, se toca!

— Ah, vai me dizer que o Kadu ocupou esse lugar?

— É, diria que sim.

— Em tudo?

Eu olhei pra ele com raiva e a vontade que eu tive foi de virar a mão na cara dele, mas fazia tão pouco tempo que eu o tinha machucado tão gravemente, que eu respirei profundamente procurando me acalmar. Ele me viu bufando de raiva e tentou amenizar.

— Desculpa, vai… É que vocês estavam trancados no banheiro e depois eu vi a maneira que ele ficou te olhando, devorando seu corpo com os olhos… eu fiquei com ciúmes. Eu não tenho o direito, mas caralho, não dá pra controlar as coisas que a gente sente. Você acha que eu queria gostar de você? Que eu tô feliz? Não, Gabriel! Não queria nada disso, mas se dois anos longe de você não me fizeram esquecer, nada mais me fará. Eu te amo, porra!

Ele segurou a cabeça com as mãos, enquanto eu tentava processar tudo aquilo que tinha sido dito. Eu sabia que ele alimentava sentimentos por mim, mas ouvir à queima-roupa era muito mais complicado. Precisava ser forte.

— Olha, Bernardo, eu não devia falar nada disso pra você porque não é da sua conta, mas não tá rolando nada entre mim e o Kadu. Ele entrou no banheiro enquanto eu tava lavando a blusa que você mesmo sujou e foi mijar porque tava apertado. Nada demais, e essa parada da piscina é zoeira dele. Brincadeira, só isso.

— Zoeira? Aham... Ele é a fim de você, Biel. O Kadu pega as menininhas por ai e ninguém sabe qual é a dele, mas eu que prestei bastante atenção vi o que tá na cara. Ele é doido por você.

— Para de falar merda. Somos amigos e ponto. Agora por favor, se você não se importa eu quero ir pra minha casa. Boa noite.

— Tá bom. Valeu pela carona, seu cavalo — disse ele saindo do carro e batendo a porta. Revirei os olhos e segui o meu caminho.

No dia seguinte, acordei sonolento e passei a mão de leve sobre o curativo. Estava dolorido, mas não parecia estar inchado.

— Você já ta bom.

Uma voz falou, fazendo eu me sobressaltar, abrindo os olhos na mesma hora.

— Kadu, o que você está fazendo aqui?

— Hum… Advinha? — respondeu ele com uma voz maliciosa.

Capítulo 7 — Tesão é foda

— Hã? Eu não tô te entendendo — falei meio assustado e sonolento ao mesmo tempo.

Ele riu, mordendo de leve os lábios.

— Eu fui dar uma corridinha e resolvi passar aqui pra ver como você tava, mas você tava dormindo, então a sua mãe disse que eu podia subir.

— Ah, entendi. Eu tô bem, só tá meio dolorido. Ficou roxo?

— Tá um pouco, mas já some. Pelo visto você já tem seu médico particular. Hahaha!

— Pára de bobeira. Eu nem sabia que ele tava fazendo Medicina e agora ainda tenho essa espécie de dívida de gratidão com ele. Foda.

— Agora vão poder brincar de médico. Hahahaha!

— Aff, Kadu, você é muito palhaço.

Empurrei-o rindo, fazendo com que ele caísse na gargalhada também.

— Mas é sério, Biel, eu vi vocês ontem irem embora juntos. Conseguiram conversar numa boa?

— Ah, mais ou menos. Ainda tem muita mágoa que não foi dissolvida. Não sei se a gente vai ser capaz de ser amigos.

— Vocês complicam muito as coisas.

— Pode ser, mas não dá pra apressar esse processo. Cada um tem o seu tempo de digestão. Ei, mudando de assunto, você vai comigo naquela loja que te falei? Só assim pra eu ir, porque eu to enrolando um monte.

— Tá, eu vou, mas eu preciso tomar um banho antes. Olha como eu tô, todo suado.

— De boa, eu vou pegar uma toalha pra você.

Eu levantei sem me dar conta de um detalhe que acontece praticamente todas as manhãs. Antes que eu pudesse esconder a minha ereção matinal, ele já estava olhando para o imenso volume que se formava no short fino que usava pra dormir.

Coloquei a mão por cima imediatamente, sem graça com aquela situação.

Por mais que fosse natural ficar de pau duro na frente dos amigos às vezes, não me lembrava de ter acontecido isso com o Kadu. Ele se aproximou lentamente, parando na minha frente.

— É natural acordar animadinho assim de manhã, não precisa esconder. Até porque o que é bonito é pra se mostrar — disse ele sorrindo maliciosamente ao mesmo tempo em que jogava a isca, esperava que eu a mordesse.

— É tesão de mijo, assim que eu descarregar a bexiga, passa. Toma a toalha, pode usar o meu banheiro.

— Tá bom, não vou demorar — disse ele com um sorriso e foi pro banheiro. Era melhor urinar e desarmar aquela barraca logo antes que aquilo me causasse problemas. Enquanto usava o banheiro do corredor, fiquei pensando no que parecia estar acontecendo: uma espécie de jogo de sedução velado que eu não tinha certeza se era real.

Eu nunca fui indiferente ao Kadu, que sempre foi um dos caras mais naturalmente sexy que eu já conheci. O jeito provocador dele, aliado aos sorrisos e olhares peculiares eram uma arma e tanto na mão daquele menino maroto.

Porém, eu estava machucado demais pra prestar atenção nisso e acho que naquele momento ainda me sentia assim.

A cabeça ainda estava confusa e os sentimentos revirados, mas não podia negar que ser instigado dessa forma era gostoso.

Voltei pro quarto e fiquei mexendo no celular. Ouvia o barulho da água correndo e sentia uma leve curiosidade de entrar no banheiro e ver ele nu embaixo do chuveiro. Eu devia estar com o capeta no corpo, só podia.

Tratei de espantar esses pensamentos da minha cabeça e fui me trocar. Tirei rapidamente o short e peguei uma cueca branca boxer, colocando-a em seguida. Resolvi pegar a primeira bermuda que eu encontrasse, mas antes que a vestisse ele saiu do banheiro.

Estava com a toalha enrolada na cintura, bem baixa por sinal. Os cabelos outrora encaracolados, agora estavam molhados e em total desalinho como se ele tivesse sacudido a cabeça. Do pescoço escorriam várias gotículas de água que trilhavam sua pele, passeando livremente pelo corpo.

Ele foi se aproximando de mim devagar, olhando em meus olhos enquanto eu me mantinha parado, com a boca semi aberta.

— Me empresta uma bermuda? — pediu ele, ainda olhando nos meus olhos. O corpo dele estava muito próximo ao meu e eu fiquei completamente sem ação. Ele esticou a mão, roçando o braço no meu pau que já estava novamente ereto. Pegou uma bermuda que estava atrás de mim e me perguntou:

— Pode ser essa?

Eu nem olhei pra peça de roupa em sua mão, mas fiz que sim com a cabeça. Aquilo pouco importava naquele momento. Eu estava mais preocupado em controlar o meu corpo que insistia em reagir violentamente àqueles estímulos.

Eu não sabia se estava certo ou errado, só que o tesão que eu estava sentindo naquele momento não me deixava pensar com clareza. Ele olhou pra baixo, primeiro em direção ao meu pau que nesse momento já formava um enorme volume na cueca e depois para o seu, que também se evidenciava no tecido felpudo.

Ele foi abrindo lentamente a toalha enquanto meus olhos acompanhavam atentamente cada movimento seu. Os pêlos pubianos aparados foram aparecendo e então ele fechou a toalha.

— Acho melhor me trocar no banheiro.

Eu olhei pra ele sem entender o porquê daquela atitude, mas ele simplesmente falou:

— Deixa rolar — e deu uma piscadela safada.

Ele nem chegou a entrar no banheiro. Vestiu a bermuda por debaixo da toalha mesmo, sem cueca, virado de costas pra mim, deixando a mesma cair em seguida mostrando parte da bunda. Nem chegou a abotoar a bermuda e entrou no banheiro para usar meu desodorante.

Meu pau doía de tão duro dentro da cueca e o tesão estava a mil, mas eu não sabia se me sentia frustrado ou aliviado por não ter rolado nada. “Ah safado, me provocou legal”, pensei. Estava meio confuso, tentando me recompor quando a porta abriu.

O Bernardo entrou de súbito, parando em seguida ainda segurando a maçaneta da porta. Me olhou intrigado em me ver de cueca, demorando-se no volume que se estampava na minha cueca.

Antes que eu ou ele pudéssemos falar qualquer coisa, o Kadu saiu do banheiro sacudindo os cabelos molhados, com o dorso ainda úmido do banho e vestindo a minha bermuda. Ele se surpreendeu em ver o Bernardo ali, franziu a testa e depois olhou pra mim sem entender nada.

Olhei novamente para aquele que estava parado diante de nós.

— Nossa… — ouvi-o dizer, antes de sair batendo a porta furiosamente.

“Era só o que me faltava”, pensei. Peguei a bermuda e a vesti com pressa, procurando uma blusa.

— O que foi isso? O que ele veio fazer aqui?

— Não tenho a menor ideia, Kadu. Que merda… parece que o acaso tá sempre me atropelando. Agora ele deve estar pensando milhões de coisas nada a ver.

— Vai atrás dele, Biel, conversem numa boa. Esclareça as coisas, é melhor.

— Acho que vou fazer isso sim, mesmo achando que não devo satisfação a ele. Você me espera aqui?

— Se você não demorar muito, eu espero. Vai lá, brother.

Saí de casa procurando-o com os olhos e o vi quase virando a esquina. Alcancei-o no meio da rua, mas apesar de eu chamar o seu nome, ele continuou a andar com passos largos. Praticamente corri para poder segurar seu braço e o fazer parar.

— Porra, não tá ouvindo eu te chamar, não?

— Me larga, Gabriel!

— Espera aí, vamos conversar. O que você foi fazer lá em casa?

— Fui te entregar isso!

Ele jogou um tubo de pomada em cima de mim que por pouco não acertou na minha cara.

— Eu fui tão idiota de me preocupar com você! Você já estava sendo muito bem cuidado, né? Por que mentiu pra mim ontem quando perguntei o que tava rolando entre vocês, hein?

— Eu não menti, Bernardo. Não rolou nada entre o Kadu e eu.

— Ah, não? Você acha que eu sou otário? Eu entro no seu quarto e você tá só de cueca com o pau duro e ele saindo do banheiro com o cabelo e o corpo molhados, com a bermuda praticamente aberta. E agora você quer me convencer de que não rolou nada?

— Mas não rolou nada, Bernardo! O Kadu só tomou banho lá e eu emprestei uma bermuda…

— Ah, a bermuda que ele estava usando sem cueca era sua? Nossa… incrível, só piora.

— Olha aqui, você acredita no que você quiser porque eu não te devo satisfação. Não precisava ter feito a cena que você fez batendo a porta daquela maneira. Você não tem esse direito, foi você que foi embora.

— Eu fui e você já arrumou quem te te consolasse. Tomou gosto pela coisa. Tão machão e tão…

— Como é que é? Você tá maluco? Você me respeita! Eu quebrei a sua cabeça e agora eu vou quebrar a sua cara!

— Quebra sim! Quebra porque já ta faltando vergonha nessa minha cara de idiota! Você me falou tantas vezes que tudo entre nós tinha morrido, mas eu não me dei conta até agora. Você já tá muito bem comendo os viadinhos de plantão que se jogam em cima de ti.

— Bernardo, cala essa boca, você não sabe o que você tá falando!

— Eu voltei por sua causa! Porque eu sei que meus sentimentos são verdadeiros e vim disposto a te reconquistar, mas esse cara que você se tornou eu não conheço.

— Hã?!

— Cada um segue a sua vida, Gabriel. Eu vou te deixar em paz. Volta pro seu amiguinho!

Ele disse falando alto demais pra quem estava no meio da rua. Olhei furiosamente pra ele, pensando em pegá-lo pelo pescoço e dar-lhe um murro certeiro na cara, mas ele virou as costas e saiu.

Respirei fundo e então voltei pra minha casa. Graças a Deus não tinha tanto movimento na rua e a discussão parecia normal aos olhos de quem passava no local. Fui andando, bufando de raiva. Quem ele achava que era? O cara vai embora logo depois de passar a noite fazendo amor comigo, me expulsa da vida dele, nunca mais olha na minha cara e agora volta se achando dono da situação.

Fora a confusão que ele criou dentro de mim, plantando um sentimento que depois não quis colher. Só eu sei como eu fiz pra me reerguer, pra superar aquele e-mail que ele me mandou.

Entrei em casa e fui direto pro meu quarto. Encontrei o Kadu deitado de bruços na minha cama, jogando vídeo-game. Ele se sobressaltou ao me ver, finalizando o jogo e então olhando pra mim.

— E aí? Pela sua cara, foi tenso.

— O Bernardo tá louco! Falou que eu menti pra ele, que eu tô comendo os viados de plantão que dão mole pra mim, que não quer mais olhar na minha cara!

— Ele ta com ciúmes, só isso.

— E ele por acaso tem esse direito? E o pior é que depois dele, eu não tive mais ninguém. Você sabe quanto tempo eu fiquei sozinho, sem nem olhar pro lado. Faz pouco tempo que resolvi levar adiante um relacionamento com a Jackie porque não aguentava mais ficar preso ao passado. E agora ele dá de dedo na minha cara, como se eu fosse errado? Tirando conclusões precipitadas? Caralho, que ódio!

— Calma, Biel. Eu sei de tudo isso porque eu tava do seu lado. Ele falou na hora da raiva. Agora imagina se ele tivesse chegado antes, iria ser bem pior. Me pegar de toalha aqui e tal. Deixa ele se acalmar e vai ficar tudo bem.

Eu olhei pra ele e sentei ao seu lado na cama. Ele me olhou, aguardando um movimento meu, mas eu fiquei somente estudando as suas feições. Por fim, perguntei:

— Kadu, o que tá acontecendo entre a gente? O que você quer comigo?

Capítulo 8 — A verdade que doí

Ele olhou pra mim e então deitou na cama com as mãos atrás da cabeça. Era incrível como tinha uma tranquilidade intrínseca pra tudo. Continuei olhando pra ele, ansioso pela sua resposta.

— Olha, Biel, eu já te disse. Eu te desejo desde sempre. Quero fazer valer esses anos de fantasias contigo. Porém, pra mim isso tem que acontecer de uma forma leve, gostosa, consensual. Não quero que você acorde no dia seguinte e se sinta grilado ou culpado.

— Se você quer tanto fazer isso, por que recuou hoje?

— Porque eu vi que você não estava pronto. Qualquer um no seu lugar já teria me agarrado e feito mil coisas, mas você estava paralisado. Como eu disse, não quero forçar nada, nem que depois você se arrependa. Gosto de seduzir, de provocar, mas antes de tudo sou seu amigo.

— É que pra mim é complicado, Kadu, não é que eu não queira. Claro que não fico indiferente a essa sua provocação, mas eu me machuquei feio. Eu só tive esse tipo de experiência com ele e por melhor que tenha sido na hora, o depois foi muito traumático.

— Eu te entendo. Sentimentos são mais complicados do que se pensa, por isso que eu não me apaixono. Pra mim tem que ser divertido, gostoso e bom pros dois. Se não for, melhor nem acontecer.

— Você leva tudo tão de boa. Me sinto um ranzinza perto de ti.

— Mas, Biel, tem como facilitar, né? Olha, eu sei que foi super tenso tudo que aconteceu entre vocês dois, porque vocês se apaixonaram e tiveram a primeira vez de vocês naquela intensidade toda, mas cara já ta na hora de resolver isso daí. Por que você não toma essa atitude? Vai atrás dele e tentem se entender. Não digo só de ser amigos não. Tentem de novo.

— Ah, claro. Vou esquecer tudo que ele me fez? Você só pode estar maluco!

— Não, não tô. O que você ganha guardando isso dentro de ti? Biel, tá na cara que existe muita coisa entre vocês ainda, por que vocês não vão viver isso?

Abaixei a cabeça e esfreguei o rosto com as mãos.

— Eu não sei se eu tô preparado pra isso. Eu não sou gay, Kadu. Não sei se eu vou saber viver algo assim, com medo das pessoas descobrirem, a reação da família.

— Eu sei, cara, isso é foda mesmo. As pessoas querem julgar, apontar o dedo e nem sabem de porra nenhuma. Eu entendo o que você sente, mas você só vai saber se viver um relacionamento com ele de fato. Não precisa se preocupar se é gay, bi ou trans. Isso daí é coisa de nego que gosta de te colocar num parâmetro, que nem sempre existe. E vocês podem manter as coisas entre vocês, não precisam gritar pro mundo que estão juntos. Afinal, isso só interessa a vocês.

Eu olhei pra ele, com a cabeça pensando freneticamente em tudo o que me dissera. Ele estava certo, eu sei que sim, mas eu também tinha meus dragões pra matar.

— Eu não te entendo, Kadu. Você tá doido pra dar pra mim e me joga nos braços de outro?

— Hahahaha, é bem simples! Não vai ser gostoso como eu quero, se você não se resolver aí dentro. Se for pra rolar, quero que a sua cabeça esteja em mim e só. Somos amigos, Biel. Quero o seu bem. Vá falar com ele.

— Que isso, brother. Tamo junto. Vou nessa agora, depois a gente vai lá naquela loja.

— Tá bom. Nos falamos.

Nos despedimos com um abraço e ele deu uma mordida de leve na minha orelha, que me arrepiou por inteiro. Rimos juntos e ele se foi. Ainda fiquei um tempo pensando em tudo que ele tinha me dito e cheguei à conclusão que a melhor coisa a se fazer era tentar resolver essa situação de uma vez. Eu sabia que o Bernardo me amava e era impossível continuar negando pra mim mesmo que eu também sentia o mesmo. Abriria meu coração pra ele e assim quem sabe poderíamos viver esse sentimento.

Fui pra academia dar minhas aulas e mais um personal que eu tinha naquele dia. Fui em casa e tomei um banho me preparando pro que viria. “Coragem, Gabriel”, eu dizia pra mim o tempo todo.

Coloquei uma roupa qualquer, mas confesso que me demorei mais na frente do espelho. Passei perfume, dei uma passada de mão no cabelo e fui. Fui andando pela rua pensando no que dizer, como abordar e resolvi que a melhor forma era se deixar levar pelo momento.

Cheguei em frente à casa dele e ouvi uma música alta vindo lá de dentro. O portão só estava encostado e todo o ambiente estava escuro. Fui entrando devagar, cauteloso, procurando alguém conhecido. Nem sinal da mãe dele, da irmã ou dele mesmo.

Quando entrei na sala encontrei pessoas dançando, entre rostos conhecidos e outros que nunca vi, havia mulheres seminuas que rebolavam seus corpos até o chão, ora se beijando ora se agarrando com os homens que estavam ali presentes. Em contrataste com o ambiente escuro, piscava uma luz estroboscópica que deixava tudo ainda mais bizarro.

Consegui com dificuldade reconhecer alguns amigos que estavam dançando com algumas mulheres, e puxei um deles num canto.

— Markus, que porra é essa que tá rolando aqui?

— Ah, Biel, você também veio, mano! Fodaaa! —disse ele rindo e me abraçando, bebendo no gargalo de uma garrafa que não reconheci o rótulo.

— Markus, responde!

— O Bernardo pagou umas putas aí e chamou os brothers pra festinha. Caralho, Biel, eu vou fuder até não aguentar mais.

— E cadê o Bernardo?

— Deve estar por aí — disse ele, voltando pra rodinha da qual havia saído.

Comecei a procurar por todos os cantos da casa. Aquilo ali mais parecia um prostíbulo e eu não estava gostando nada do que eu estava vendo. Fui até o lugar mais óbvio que tinha pra estar rolando alguma putaria: o quarto dele. Fui devagar, com medo do que pudesse encontrar pela frente, mas não podia recuar agora. Parei na frente da porta fechada, ouvindo a música alta que vinha lá de dentro. Respirei fundo e girei a maçaneta.

Encontrei ele em pé na cama, dançando com uma garrafa de uísque na mão, com mais três mulheres dançando em seu redor. Estava sem camisa e com a calça aberta, completamente embriagado, bailando de olhos fechados.

As mulheres se ouriçaram ao me ver entrar, mas eu desviei delas e fui até o aparelho de som, desligando-o. Na mesma hora ele abriu os olhos e perguntou bravo, com a voz enrolada:

— Que porra é essa?

— Eu também tô querendo saber, Bernardo. Pra que tudo isso?

— O que você tá fazendo aqui? Eu não te convidei.

— Foda-se. Vocês podem nos deixar a sós? — falei para as garotas e elas prontamente atenderam, vendo que o clima estava pesado demais. Ele protestou, alegando que estava pagando e tal, mas eu mesmo fui encaminhando-as para a saída. Fechei a porta e tornei a olhar pra ele.

— Você não tem esse direito, Gabriel! Eu tô na minha casa!

— Cala a boca! Você não respeitou a sua própria casa. Transformou isso daqui num puteiro. Pra que essa palhaçada, Bernardo?

— Palhaçada por quê? Achou que eu fosse ficar choramingando por você? Eu vou é me divertir!

— Me dá essa garrafa aqui, você já bebeu demais — falei tomando a garrafa da mão dele, fazendo-o perder o equilíbrio e cair deitado na cama.

— Seu filho da puta, devolve o meu uísque!

— Eu vou te dar um banho pra curar esse porre.

Peguei-o pelo braço e fui arrastando-o até o banheiro. Ele tentava se desvencilhar e esperneava, mas eu nem me importava. Apesar de estar bravo com o que ele tinha feito, eu sabia que ele estava magoado e bêbado, provavelmente só queria aprontar pra espairecer.

Abri o chuveiro ao máximo na temperatura fria e logo a água estava gelada. Meti ele embaixo do jato frio de calça jeans e tudo, enquanto ele se debatia, tentando sair. Segurei-o com força até que ele parasse de tentar fugir e reclamar. Seus lábios estavam roxos e seu queixo batia freneticamente, mas ainda não tinha feito efeito.

Depois de um tempo, vi que ele estava mais calmo e mais lúcido, então desliguei o chuveiro e dei a toalha a ele.

— Tira essa roupa molhada e se seca, vou lá pegar outra pra você.

E saí, deixando ele sozinho no banheiro. Fui até o quarto, ouvindo a música que vinha da sala e percebi pelos gritinhos e barulho, que a festa estava rolando solta. Peguei uma bermuda, uma cueca e uma camiseta qualquer e voltei pra onde ele estava. Entrei no banheiro e o encontrei nu encostado na pia. Levei um susto e cambaleei pra trás, pois achei que pelo menos ele estaria com a toalha enrolada na cintura.

Seu corpo estava úmido e gotículas de água escorriam do seu cabelo, deslizando pelo tronco e pelo enorme dragão nas costas. O corpo dele estava bem mais desenvolvido desde a última vez em que o vi pelado, mas eu não iria ficar prestando atenção nesses detalhes. Imediatamente virei o rosto e falei:

— Toma, veste.

Ele pegou a roupa e foi colocando peça por peça, lento e trôpego. Olhei o tempo todo pra parede, me controlando ao máximo pra não encará-lo novamente. Não era hora pra aquilo.

— Ai, cara, to enjoadão — falou ele e quando eu olhei em sua direção, ele já estava vestido. Fiz com que ele se ajoelhasse na frente do vaso sanitário e segurei a sua testa.

— Põe o dedo na goela e vomita.

— Ah não, odeio isso.

— Anda!

Ele me olhou contrariado e fez o que mandei. Não demorou para que os jatos viessem com força, enquanto seu estômago se contraía para expelir mais. Quando finalmente acabou, eu o ajudei a se levantar e ele escovou os dentes. Estava pálido, visivelmente tonto e eu o levei de volta pro quarto.

Deitei-o na cama e ajeitei os travesseiros atrás da sua cabeça. Ele olhou pra mim e falou:

— Por que tá fazendo isso por mim?

— Porque eu gosto de você, apesar de tudo.

— Gosta ou ama?

Olhei bem nos olhos dele e pensei no que responder. Não era o momento pra declarações, ainda mais com ele naquele estado, mas fui no intuito de não mentir mais sobre esse sentimento.

— Amo.

— Ama, mas se entregou a outro. Você foi o único na minha vida, eu nunca pensei em fazer com outro cara.

— Eu não me entreguei a ninguém, você que se precipitou. Eu concordo que dava a entender que tinha rolado algo, mas não rolou nada.

— Eu fiquei louco quando vi aquilo. Só de pensar em você comendo o Kadu… meu sangue ferve.

Eu ia falar, mas alguém bateu na porta. Com certeza era um dos garotos reclamando que tinha acabado a bebida ou querendo camisinha.

— Entra — falei sem sair do lado dele. Um rapaz de mais ou menos 25 anos entrou, olhando com estranheza pra nós dois. Ele era alto, loiro e vestia roupas de marca. Um completo desconhecido pra mim. O Bernardo se sobressaltou na cama e eu voltei a minha atenção para aquele cara que estava parado na nossa frente.

— Qual dos dois é o Bernardo?

Eu olhei pro lado esperando uma reação, mas ele estava estático com os olhos arregalados. O cara percebeu que o Bernardo era o rapaz que estava deitado na cama e se dirigiu a ele:

— Olha, você me disse que era só pra você, se for os dois eu vou cobrar o dobro.

— Cobrar o dobro? Do que você tá falando? — perguntei, confuso com aquela situação.

— É o dobro, mas garanto que vale a pena. Vou deixar vocês dois muito satisfeitos. Pode dar um confere no corpitcho aqui. Faço de tudo, vocês não vão se arrepender.

Eu olhei novamente pro Bernardo, franzindo a testa sem acreditar no que estava acontecendo.

— Eu posso explicar, Biel. Foi antes… Eu tava com raiva...

— Péra… Você contratou um garoto de programa?

Capítulo 9 — Existe uma esperança

— Eu tava com raiva, queria dar o troco. Queria ver se tudo aquilo que eu senti foi com você ou se poderia ser com qualquer um.

— O quê? — perguntei, estupefato.

O cara parado em nossa frente nos olhava meio assustado, sem saber o que fazer. Eu só o olhava, tentando entender o que estava acontecendo ali, sem poder acreditar que ele tinha ido tão baixo.

— Deixa eu te explicar…

— Bernardo, você acha mesmo que tem alguma explicação? Você deu um piti ao me ver com o Kadu, um cara que a gente conhece desde moleque, sem nem ao menos se certificar de que tinha rolado algo. Parecia estar tão indignado em me ver compartilhar algo que até então só tinha acontecido contigo, falando que eu fui o único e agora você contrata um boy? Qual é a lógica disso?

— Biel...

— Cala a boca, agora eu vou falar! Vou falar tudo que está entalado aqui! Você armou toda aquela situação naquela noite e eu cedi porque é obvio que já sentia algo por ti, mesmo sem saber ao certo o que era. Você forçou aquela entrega porque queria experimentar algo novo e depois se arrependeu. Sumiu por dois anos! Foi até mais que isso, se pararmos pra pensar. Quase três anos… Todo esse tempo sem uma maldita palavra sua! Só aquele e-mail frio e cruel. Eu não sofri, eu quase morri! Tinha perdido meu melhor amigo, meu companheiro de todas as horas e o meu grande amor. Tive raiva de mim, de ti, do mundo… Senti nojo por ter feito aquilo. Me culpei, me condenei, me puni… Então você volta e quer que seja tudo como foi um dia. Eu mais uma vez tento fugir de ti, de nós, de tudo. Mais uma vez tenho que lutar contra os meus fantasmas, os meus medos. Você acha que você tem o direito de bagunçar a minha vida assim? E se eu tivesse algo com o Kadu? É um cara legal, muito mais homem do que você jamais foi um dia. E esse mesmo cara me convenceu a vir aqui, tentar de novo. Pra que? Encontrei você bêbado rodeado de vagabundas, te dei banho, segurei sua cabeça pra você vomitar. Mesmo sentindo uma raiva filha da puta de você por essa merda toda que você tinha aprontando, eu cuidei de você, estava disposto a abrir meu coração e então me aparece um garoto de programa? Pagar por sexo? Por algo que você minutos atrás disse ter sido único e que você só seria capaz de fazer comigo?

— Nossa, que história! Não queria estar na sua pele, mano — disse o cara que continuava parado ali no quarto, olhando com pesar pra nós dois. Eu olhei pra ele e depois pro Bernardo, que se mantinha de cabeça baixa.

Levantei e parei na frente do garoto de programa, que estava completamente sem reação diante daquela confusão toda.

— Pode fazer o seu trabalho, o que te trouxe aqui. Não vai precisar cobrar em dobro.

Eu disse e saí do quarto. Na casa, a festa ainda rolava a todo vapor, gente se pegando em tudo quanto é lugar e aquilo tudo estava me causando náuseas. Me apressei em sair, mas não consegui ir pra casa. Andava a esmo sem direção certa, a cabeça pensando mil coisas ao mesmo tempo.

Sentei na esquina de uma rua qualquer e senti o celular vibrar. Tinha trezentas ligações e mensagens da Jackie, mas eu não ia responder naquele momento. Pensei em mandar uma mensagem pro Kadu, mas a verdade é que eu não queria falar com ninguém.

Não sei quanto tempo eu fiquei ali, imerso em pensamentos que me torturavam por horas a fio. Então levantei e voltei pra casa. Tomei um banho e deitei.

No dia seguinte, corri atrás de fechar uma proposta que tinham me feito de treinar uma equipe de corrida numa cidade próxima. Eu tinha enrolado até então, meio absorto com os últimos acontecimentos, mas a agora era uma ótima oportunidade pra me distanciar daquilo tudo. O Bernardo mandava várias mensagens pro meu celular, mas eu nem me dava ao trabalho de responder. Seria uma semana fora e me apressei em despedir-me da minha mãe, mandei uma mensagem pro Kadu avisando do trampo e passei na casa da Jackie rapidamente, pegando a estrada logo depois.

Durante a semana inteira, foquei no trabalho. A prova seria no sábado e no domingo de manhã poderia retornar pra casa. Na verdade, estava sentindo uma paz tão grande que não sentia muita vontade de voltar. Falava todos os dias com o Kadu e com a Jackie, via mensagem e ligava pra minha mãe religiosamente.

No domingo de manhã, voltei pra casa e fui recepcionando com um almoço delicioso que minha mãe preparou. Ela estava me esperando chegar pra levar meu irmão mais novo na casa da minha avó, que ficava na cidade vizinha. Aproveitaria pra passar uns dias lá, visto que ele estava de férias. Nem fiz qualquer objeção, pois adorava ficar sozinho, mas confesso que estava sentindo falta dela devido à semana que passei longe.

No dia seguinte, fui à faculdade e depois fui dar meus treinos na academia. Já era tarde da noite quando voltei pra casa, cansado e faminto. Passei numa lanchonete pra comer um sanduíche por pura preguiça de fazer algo na cozinha. Não demorou muito, eu estava entrando com o carro na garagem. Entrei na sala, jogando as chaves em cima da mesa e subi para o meu quarto.

Entrei e ao acender as luzes, quase morri de susto. Encontrei o Bernardo sentado na minha cama, me olhando calmamente. Dei um berro e cambaleei pra trás, assustado por não esperar aquilo.

— Você tá louco? O que você ta fazendo aqui? Como entrou?

— Eu ainda sei onde fica a chave reserva e não estou tão velho pra pular muro. Como nos velhos tempos.

Olhei pra ele, ainda me recuperando daquele susto, respirando descompensado, enquanto ele sorria da sua marotice. Joguei a mochila no chão e cruzei os braços.

— O que você veio fazer aqui?

— Vim conversar com você, Biel. Eu sabia que você não atenderia as minhas ligações, assim como não respondeu as minhas mensagens. Me ouve, por favor.

— Bernardo, nem perca seu tempo. A gente não tem nada pra conversar. Segue a tua vida que eu vou seguir a minha.

Ele levantou e veio na minha direção, parando a poucos metros.

— É inútil tentar fazer isso. Eu já tentei, você também. Minha vida é você, Biel. Eu fui um idiota de tentar apagar aquela noite, de achar que podia viver isso com outra pessoa, se sempre foi você. Quanto tempo eu neguei pra mim mesmo quando éramos moleques. Te via tão lindo junto a mim e te desejava o tempo todo, mas não podia nem sequer pensar naquilo. Às vezes tinha a impressão de que você também não era indiferente a mim, mas eram tantas dúvidas, totalmente diferente do que diziam pra gente ser o certo. Eu já tive outras pessoas, você também, mas aquela noite foi a mais linda da minha vida. Ali eu me dei conta que eu era seu e só seu. Eu me assustei, fugi e paguei caro pelo meu erro. Eu sei que você sofreu muito também, por isso eu voltei. Voltei porque não aguentava mais fugir desse sentimento, voltei porque eu precisava de você.

Ele falava com os olhos marejados, fixos nos meus. Eu continuava estático, sentindo ele se aproximar a cada frase. Ele parou a centímetros de mim e falou:

— Vamos esquecer o que passou e vamos dar uma nova chance pra gente. Vamos viver esse amor, só nós dois. Vem...

Ele disse e meu corpo reagiu sozinho. Tomei-o nos braços e o beijei com tanta paixão que até doeu. As bocas se engoliam famintas, desesperadas, enquanto minhas mãos apertavam suas costas. Senti sua língua invadindo a minha boca e a suguei com gosto, deslizando a minha nela. Ele me apertava com força, meus braços, minhas costas, sentindo, reconhecendo cada pedaço do meu corpo.

Depois de um bom tempo nos beijando, já sem folego, minha boca desceu pelo seu pescoço, arranhando, sugando de leve e senti-o tirar a minha blusa. Tirei a dele também e ele começou a beijar meus ombros, descendo pelo tórax, demorando-se nos mamilos, me arrancando suspiros. Mordia com força os gominhos da minha barriga, me deixando todo marcado, me levando à loucura.

Abriu minha bermuda e a tirou lentamente, afundando o rosto na minha cueca boxer branca, aspirando o cheiro, passando a língua pelo tecido. Foi tirando a peça de roupa, revelando minha pica super dura, grossa, que já babava de tanto tesão. Ele foi passando a língua na cabeça, espalhando aquele líquido pela extensão inteira do pau. Lambeu meu saco, sugando as bolas devagar, para depois voltar com a língua da base até a cabeça. Eu joguei a cabeça pra trás de olhos fechados, arfando com aquelas carícias.

Não demorou pra ele engolir minha rola por inteiro, sugando com força e me fazendo gemer. Segurei o seu cabelo e conduzi os movimentos, enquanto ele me chupava gulosamente. Ficou nessa até eu quase não aguentar mais, então o puxei novamente pra mim e o beijei com gosto. Engolia sua boca num beijo intenso, de tirar o fôlego, enquanto minhas mãos se livravam da calça dele com cueca e tudo.

Joguei-o na cama, nu, e o admirei. Mordi os lábios em aprovação com uma cara safada, fazendo ele sorrir. Fui subindo pelas suas pernas, beijando, mordendo até chegar na sua coxa. Mordi com força, fazendo-o gemer. Passei a língua pela virilha e lhe suguei as bolas. Ele se contraía na cama de tanto prazer e eu continuei com aquela doce tortura. Passei a língua no seu pau todo, pra depois chupar com força trazendo todo aquele liquidozinho pré-gozo pra minha boca. Segurei e subi beijando sua barriga, seu tórax, até tomar seus lábios novamente, fazendo-o sentir seu próprio gosto.

Ele pegou a minha mão e colocou meu dedo indicador todo na boca, chupando, olhando pra mim. Depois pegou ele e direcionou ao seu buraquinho, no qual eu penetrei devagar, fazendo-o arfar. Brinquei bastante com o dedo enquanto o beijava e quando senti que devia, coloquei mais um. Ele me arranhava e gemia abafado dentro da minha boca, querendo mais. Resolvi enfiar mais um e tentar lacear o máximo que eu podia. Depois de um tempo, ele mordeu minha orelha e falou rouco de desejo:

— Vem, entra em mim. Não suporto mais esperar.

Olhei nos olhos dele e o beijei mais uma vez. Seu rosto branco e lisinho estava vermelho da fricção com a minha barba rala, deixando-o ainda mais fofo.

Posicionei-me esfregando o pau na entradinha pra lubrificar bem. Passei a maior quantidade de saliva que eu podia. Comecei a forçar, indo devagar, mas com firmeza e depois de um tempo seu cu começou a ceder. A cabeça entrou, fazendo ele se contrair e fazer uma careta de dor. Esperei um pouco e voltei a enfiar. Ele apertava minhas costas e rangia os dentes. Tirei e lubrifiquei mais e tornei a colocar, enfiando devagar, indo com paciência até meter tudo dentro dele. Fiquei parado um tempo, beijando sua boca com ternura, fazendo-o relaxar. Mexia o quadril com calma, vendo como ele reagia e depois de um tempo já estava fodendo gostoso.

— Ahhh aiii, vaaaii... aaiii aahhhh, caralhooo… aaahh, aaiii, Biel! Ahhh, fodeee… me faz seeeuu!

Ele entrelaçou as pernas na minha cintura e eu tirava quase tudo de dentro dele e tornava a enfiar, fazendo-o revirar os olhos. Meu quadril se ondulava num ritmo perfeito em cima dele, sem que eu tivesse controle algum. Olhei bem para os seus olhos e disse:

— Eu te amo.

Ele sorriu, fechando os olhos para abrir em seguida e dizer:

— Eu te amo muito. Muito…

E me beijou. O ritmo foi acelerando naturalmente. Sentia as mãos dele percorrendo meu corpo, arranhando, enquanto seus dentes cravavam-se no meu ombro. Os gemidos ficavam mais urgentes, assim como as estocadas mais fortes e rápidas. Olhei bem nos olhos dele, mordendo os lábios e segurei seu pau, que já latejava na minha mão.

— Ahhhh, porrraa, ahhhh nossaa… aahhh! Aiii, ahhh, não páraaa!

Não foi preciso muitos movimentos para que ele jorrasse aquele líquido esbranquiçado e denso, melando a minha barriga, a sua, o peito, tamanha era a abundância. Ele gemeu alto, se contraindo e apertando os olhos. Gozei em seguida, sentindo seu cu mastigar a minha rola e com isso tirar uma boa quantidade de leite meu que lhe inundou o reto. Urrei sentindo aquela descarga elétrica me percorrer o corpo, deixando-me sem ar, fazendo meu corpo tremer violentamente.

Ficamos assim, colados um no outro, sentindo os espasmos dos nos nossos corpos até que a nossa respiração voltasse o normal. Me mexi para sair de cima dele, mas ele me segurou.

— Espera, não sai agora. Quero aproveitar cada segundo. Tanto tempo eu esperei por isso.

Passei a mão no seu rosto e o beijei. Senti meu dedo molhado e quando tornei a olhá-lo, vi que uma lágrima escorria do seu olho, enquanto ele os mantinha fechados. Meu coração estava tão cheio de amor que poderia explodir. Beijei sua testa e com cuidado sai de dentro dele, deitando ao seu lado. Ficamos assim, abraçados durante um tempo.

— Vamos tomar um banho? — Propus, vendo o estado que estávamos: todos melados, suados e grudentos.

— Vai ter coragem de me tirar do céu? — disse ele, rindo. Eu o apertei nos meus braços e disse baixinho no seu ouvido:

— Eu te levo pra lá de novo, depois.

Rimos, eu peguei ele no colo e fomos pro banheiro. Debaixo do chuveiro, as carícias recomeçaram, mas ele estava dolorido e não conseguia transar novamente. Mesmo assim me chupou com tanta vontade que não demorou muito pra eu estar gozando novamente, agora na sua boca, que não deixou vazar nada. Nos beijamos e retribuí a gulosa, fazendo ele gozar gostoso.

Troquei o lençol, que mais uma vez estava manchado de sangue e sêmen. Ele me garantiu que estava tudo bem, que era normal e eu me despreocupei. Afinal, ele era quase um médico. Nos deitamos e logo ele se aconchegou a mim.

— Isso parece um sonho, sabia?

— Será que não é um sonho? — Perguntei, fazendo carinho nos cabelos dele.

— Se for, eu não quero mais acordar — respondeu ele sorrindo. Logo, ele pegou no sono, enquanto eu me mantinha acordado, velando o seu descanso. Na verdade eu tinha medo que aquele desfecho de outrora se repetisse. Ele se mexeu e abriu os olhos, sorrindo ao me ver.

— Não dormiu? O que foi? Pode dormir, seu bobo. Eu não vou fugir — disse ele, beijando-me em seguida. Aconcheguei-me a ele e logo dormimos novamente.

No dia seguinte, acordei e me vi sozinho na cama. Não havia sinal dele, nem de suas roupas. O quarto estava em silêncio e um pânico tomou conta de mim. Aconteceu de novo?

Capítulo 10 — A felicidade se fez presente

Esfreguei os olhos e mais uma vez olhei ao redor do quarto. Ninguém. Levantei ainda nu e fui até o banheiro. Nada, vazio. Olhei no espelho e novamente vi as mesmas marcas no meu corpo que já estiveram ali num passado não tão distante. Lavei o rosto e voltei a olhar no espelho.

“Ele deve estar lá embaixo, só pode”.

Pus um short e desci as escadas, esperando encontrá-lo na sala ou na cozinha, mas não havia ninguém. Um frio de medo e desespero me percorreu a espinha quando constatei que mais uma vez a história se repetia.

Fiquei parado no meio do recinto, sem conseguir me mover, pois minhas pernas tremiam sem que eu pudesse controlar. “Eu não acredito nisso…”, era só o que eu conseguia repetir mentalmente pra mim o tempo todo.

Depois de um período, não sei ao certo quantos minutos tinham se passado, a porta se abre.

— Oh, você já levantou? Eu acordei faminto e fui à padaria comprar pão e quase trouxe o lugar inteiro (risos). Café da manhã reforçado, nós merecemos, né? — disse ele, entrando cheio de sacolas e com um enorme sorriso no rosto. Foi caminhando até a cozinha, deixando as sacolas na mesa da copa. Depois foi tirando item por item dos sacos plásticos, tagarelando sem parar.

— Seu estraga prazeres, eu ia fazer tudo sozinho e te levar na cama. Minha omelete é muito boa, sabia? Aprendi nos Estados Unidos direto da fonte, mas lá era muito pesada a comida. Comprei coisas mais saudáveis e gostosas. Você ainda gosta de suco de laranja, né? Espero que sim porque eu comprei um litro. Nossa, comprei um bolo de chocolate que deve estar uma coisa.

Então, perante o meu silêncio, ele parou de falar e olhou pra mim.

— O que foi, Biel? Tá branco. Você tá passando mal? O que foi?

Eu saí do meu entorpecimento e sentei no sofá. Ele veio até mim e sentou ao meu lado. Passou a mão no meu rosto, sentindo a temperatura, e depois segurou meu pulso. Já estava aferindo a minha pressão, quando falei:

— Eu tô bem.

— Então o que foi? — perguntou ele, preocupado.

— Eu achei que tinha acontecido de novo… Que você tinha ido embora.

— Ah, meu amor, não. Claro que não. Eu nunca faria isso de novo. É que a geladeira estava meio vazia e resolvi te fazer uma surpresa. Não sabia que você ia acordar tão cedo. Me desculpa, tá? — disse ele me abraçando em seguida. Abracei-o com força, sentindo seu perfume, e então meu coração se aquietou. Fomos nós dois pra cozinha e começamos a preparar o café.

Ele bateu os ovos e começou a fazer as omeletes, enquanto eu cortava o bolo. Ele marotamente sujou o dedo com chocolate e passou no meu nariz, logo estávamos com a cara toda melada de cobertura. Puxei-o e o beijei com fogo, engolindo a sua boca enquanto minha língua se enroscava na sua.

Segurei a sua cintura e o suspendi, colocando-o sentado em cima da pia, enquanto nossas mãos já percorriam nossos corpos de forma ávida. Eu abri sua calça e minha mão sentiu sua rigidez, ao mesmo tempo em que ele se livrava do meu short. Tirei sua blusa e colei minha boca no seu pescoço, descendo pelo peitoral, até que tocou a campainha.

Eu dei um pulo tão grande de susto que derrubei uma xícara no chão. Apressei-me em vestir novamente o short, enquanto ele também se recompunha.

— Caralho, quem será logo de manhã? — perguntou ele irritado, abotoando de novo a calça.

— Não sei, vou lá ver — falei encaminhando-me pra sala. Passei a mão nos cabelos numa tentativa inocente de me alinhar e abri a porta. Vi o Kadu parado ao lado do portão, vestindo uma bermuda, blusa e um boné pra trás. Sorri ao vê-lo e até respirei aliviado porque por um instante, eu pensei que fosse minha mãe voltando do interior.

— Entra aí — falei e ele entrou em seguida.

Ele veio até mim, abraçando-me forte, quase me levantando no ar.

— Porra, cara! Se Maomé não vem até a montanha a montanha vai a Maomé. Tempão que eu não te vejo! Humm, tá animadinho hein, senti. Hahaha! O que é isso no seu rosto, chocolate? — disse ele passando a ponta da língua na minha bochecha.

— Que porra é essa? — perguntou Bernardo furioso, parado no portal da porta, sem camisa e com o cabelo desarrumado.

— Uoouu! Que susto! Eu não sabia que você tava aí — falou Kadu assustado, afastando-se de mim imediatamente.

— Pois é, eu estou. Dá pra explicar que palhaçada foi essa?

Eu resolvi amenizar, antes que saísse confusão entre os dois.

— Podem parar vocês dois. Não tem necessidade nenhuma disso.

— É, Bernardo, se acalma. O Biel tá inteiro, não arranquei nenhum pedaço não — falou Kadu com aquele sorriso provocador que só ele sabia dar. Olhei com reprovação pra ele e falei:

— Quer tomar café da manhã com a gente, Kadu?

— Não, não. Passei só pra ver se você tava bem, mas já vi que você tá ótimo (risos). Depois passa lá em casa, falou?

— Tá bom.

Ele deu uma piscada para o Bernardo e foi embora. Entramos nós dois e lá dentro ele explodiu:

— Caralho, que moleque insuportável!

— Que isso, Be, é o Kadu, cara, ele é assim desde sempre. Você não achava isso antes. Sempre achou divertido esse jeitinho maroto dele.

— Antes eu não via ele se derretendo por você. Porra, ele passou a língua no seu rosto! Você quer que eu ache isso normal? Se fosse um cara que fizesse isso em mim, como você agiria?

— Você fez pior, Be, contratou um garoto de programa. Olha, vamos parar? Eu não quero brigar, a gente nem tomou café da manhã ainda. Eu tô faminto.

Ele respirou fundo e voltou para a cozinha, emburrado. Colocamos as coisas na mesa e quando ele foi pegar o suco, eu o abracei por trás e mordi sua orelha.

— Sabia que você fica uma gracinha bravo? Um tesão. Olha só como eu fico — falei segurando sua cintura, pressionando meu pau duro na sua bunda. Ele jogou a cabeça pra trás e mordeu os lábios, falando roucamente.

— Você é muito safado.

Em questão de minutos, as poucas peças de roupas que usávamos já estavam no chão. Ele ficou debruçado sobre a pia, enquanto meus dentes arranhavam sua nuca e minha rola o penetrava devagar. Tentei ser delicado, pois sabia que ele ainda estava dolorido da noite anterior, mas o tesão estava no auge. Ele reclamou de dor, gemendo e apertando os olhos, mas não demorou muito eu já estava todo dentro dele. Ele mesmo forçava o quadril pra trás querendo mais e eu dei muito mais a ele.

Fizemos amor ali mesmo, em pé em meio à comida. A estocadas firmes e ritmadas nos levaram ao orgasmo alucinante depois de alguns minutos.

Algum tempo depois, já restabelecidos e saciados de prazer, sentamos à mesa para tomar enfim a primeira refeição do dia. Nós devoramos os alimentos como dois desesperados, matando a fome que nos consumia. Só depois de estarmos empanturrados é que conseguimos conversar.

— Sério, Biel, eu não gosto dessa sua proximidade com o Kadu. Ele perde a linha, cara.

— Ele é meu amigo e foi ele quem me convenceu a te procurar. Ele tem esse jeitão palhaço, mas é um parceiraço. Me ajudou muito quando você foi embora e eu não vou abrir mão dele.

— Merda. Já vi que vou ter que aturar esse otário, mas ele que não banque o espertinho pra cima de ti. E a Jaqueline? Você não vai continuar com ela agora que estamos juntos, né?

— Não. Não seria justo com nenhum de nós. Vou hoje mesmo conversar com ela e colocar um ponto final na nossa relação. Eu sei que vai ser difícil, mas é preciso — falei, um pouco sério, pois sabia o que me aguardava. Ele segurou a minha mão e disse:

— Eu tô com você, vai dar tudo certo.

O telefone tocou e era a minha mãe querendo saber se estava tudo bem e avisando que iria ficar mais uma semana lá. Perguntou se eu iria sobreviver. Olhei marotamente pro Bernardo e disse que ela poderia ficar o tempo que quisesse.

— Minha mãe vai ficar mais uma semana lá.

— Hum, então eu vou ficar aqui com você, posso?

— Claro que pode — disse eu, abraçando-o com força e o beijando em seguida.

No final da tarde fui até a casa da Jackie. Encontrei-a deitada, lendo um livro no seu quarto. Ela me olhou e ficou em silêncio, pressentindo o que viria. Sentei ao seu lado na cama e falei:

— Oi, Jackie, a gente precisa conversar.

— Eu sei o que você veio fazer aqui, Biel. Não precisa ser advinha pra saber que quando o namorado quer conversar, na verdade quer terminar. Eu só quero saber, quem é?

— Quem é o quê?

— Quem é mulher que te enfeitiçou? Você acha que sou burra? Você já não toca em mim faz tempo, anda estranho, distante, arredio. Como você teve a coragem de me trair, Gabriel? Depois de tudo que eu fiz por você, por nós?

— Jackie, olha, eu gosto muito de você, você é uma menina incrível...

— Não! Me poupe disso. Eu corri atrás de você por meses até você se dar conta que eu existia e depois não sei mais quanto tempo até a gente ficar e muito mais até namorarmos. Eu te amei com todas as forças e agora vem outra e te tira de mim assim? Você é um cretino, Gabriel! Eu te odeio!

— Jackie, por favor, não é assim como você tá falando, não tem menina nenhuma...

— E ainda mente pra mim nessa cara dura? Sai daqui! Não precisa falar mais nada, eu já entendi.

— Jackie...

— Sai daqui!

Pra não piorar ainda mais a situação, eu levantei e fui embora. Estava com o coração apertado, me sentindo terrivelmente mal por ela. Ela tinha razão, eu a traí. Não deixa de ser uma traição, mesmo que não tenha sido como ela pensou.

Fiquei rodando de carro, pensando naqueles últimos acontecimentos e o quanto a minha vida parecia estar mudando naquele momento. Será que eu estava preparado? Provavelmente não, mas não iria fugir de nada. Passei num restaurante, peguei uma pizza e levei pra casa. Tudo estava silencioso e escuro, então subi correndo pro meu quarto.

Encontrei-o deitado na minha cama só de short, jogando vídeo-game.

— Oi, trouxe pizza — falei, colocando-a em cima da escrivaninha.

— Humm, leu meus pensamentos. E aí, como foi lá?

— Difícil, ela me odeia. Me acusou de ter traído ela… enfim, foi complicado.

— Nossa Biel, eu sinto muito. Na real, eu não queria que ninguém sofresse pra gente poder ser feliz. Ela vai encontrar alguém legal bem rápido, bonita daquele jeito.

— É, tenho certeza que sim. Agora eu tô solteiro.

— Solteiro?

— É, a não ser que… você aceite namorar comigo. Quer? Quer namorar comigo, Bernardo?

Ele largou o controle do vídeo-game e continuou olhando pra mim com aqueles olhos esverdeados, agora um tanto arregalados. Por um momento achei que fosse levar um toco, mas ele se levantou e veio até a mim.

E você ainda pergunta? Eu sou seu, Gabriel. Eu te amo.

Abraçou-me e colou seus lábios nos meus. É estranho descrever a felicidade que senti naquele momento. Quando me dei conta, mais uma vez estávamos nos amando intensamente, nus em cima da minha cama. Os corpos se completavam e se ondulavam em perfeita sincronia. A gente já estava pegando um pouco mais de prática e podíamos nos arriscar em novas posições que nos levavam a um prazer extremo.

Ele sentou por cima de mim, enquanto eu segurei sua cintura com firmeza fazendo ele cavalgar de um jeito que me deixava louco. Olhava pro seu rosto e o via morder os lábios, gemendo roucamente, denunciando todo o prazer que estava sentindo. Fizemos amor sem pressa, por minutos a fio e quando não aguentamos mais, gozamos fartamente e quase simultaneamente.

Ficamos abraçados um tempo, nos curtindo, até que ele levantou e foi se lavar. Levantei ainda pelado e fui pegar a caixa de pizza, coloquei sobre a cama, já atacando uma fatia. Ouvi ele falar lá de dentro do banheiro:

— Caralho, Biel. Se a gente continuar nesse ritmo eu vou ficar largo, arrombado mesmo.

Na hora que ele falou isso eu engasguei com o pedaço de pizza, pra depois rir muito alto. Ele falou com tanta espontaneidade que eu não aguentei. Gargalhei sonoramente.

Ele voltou pro quarto rindo também e pegou um pedaço de pizza.

— Você tá rindo porque não é você, seu safado.

— Eu to rindo porque você falou de uma forma muito engraçada. É claro que você não vai ficar largo, que besteira. E se você quiser, a gente pode inverter os papéis. Não é algo que eu sinta vontade, mas faria por você.

— Eu nem te imagino fazendo isso, Biel, sério mesmo. Nem tenho tesão em fazer dessa forma. Acho que tá ótimo assim, foi natural desde a primeira vez. Sabe, doí pra caralho, ainda mais com essa jeba que você tem, mas confesso que to ficando viciado.

Olhei com os olhos arregalados pra ele e nós dois caímos na gargalhada. Ele ficou vermelho que nem um tomate e terminamos de comer a pizza num clima descontraído e gostoso. Mais uma vez dormimos juntos, agarrados, como o resto da semana.

Confesso que era muito bom passar o dia fora, voltar e encontrá-lo ali. A gente vivia uma espécie de lua-de-mel. Nos arriscávamos na cozinha, víamos filmes juntos, fazíamos amor sempre que tínhamos um tempinho vago. Eram uma, duas, às vezes até três vezes por dia. Não me lembrava a última vez que me sentira tão feliz.

Minha mãe voltou de viagem e ele teve que voltar pra casa dele. Mesmo assim a gente se via sempre, todos os dias, e mantínhamos o nosso relacionamento de vento em popa. Saíamos com os nossos amigos e é claro que ninguém desconfiava de nada. O Kadu e o Bernardo viviam se bicando de maneira velada e sutil, mas não passava disso. Depois que o Kadu soube de nós dois, tentava me respeitar ao máximo e maneirava nas gracinhas.

Tínhamos uma vida completamente normal e o fato de manter a nossa relação para nós mesmos e escondido de todos, só apimentava as coisas. Não era raro nos agarrarmos em lugares públicos e inusitados, muitas vezes consumindo o ato longe dos olhares públicos. Era muito excitante e ao mesmo tempo muito perigoso.

Assim se passaram 4 meses.

Certa vez, estávamos num bar badalado da cidade e eu vi o Bernardo paquerando uma garota. Isso não era atípico. Achava normal ele olhar, visto que seu interesse por mulher não havia desaparecido, assim como o meu, mas estávamos em outro momento. Tínhamos nos encontrado e estávamos felizes juntos. Porém, naquela noite…

Capítulo 11 — Solidão a dois é complicado

Naquela noite, achei que o Bernardo estava um pouco mais solto que o normal. Ele não estava só olhando como costumava fazer, mas começou a conversar intimamente com uma garota que estava no local. Fiquei na mesa, só de olho. Não ia fazer uma cena, nem nada do tipo porque isso nunca combinou comigo. Porém, era só olhar para minha cara para ver que tinha alguma coisa errada.

Já tinha mais ou menos se passado uma hora enquanto ele conversava com a tal garota, entre risinhos e cochichos, até que me levantei e me encaminhei à saída em silêncio. Paguei a minha parte da conta e estava me dirigindo ao carro, quando ouvi o Kadu me chamar.

— Não ia se despedir de ninguém, não?

— Foi mal, Kadu. Cabeça cheia, é melhor eu ir pra casa.

— Não tá esquecendo nada, não? Tá deixando sua bagagem aí — disse ele ironicamente, referindo-se ao Bernardo.

— Acho que sou eu que tô sobrando.

— Por quê? Você nunca sobra em lugar algum. Eu tô aqui, não tô?

Eu dei um sorriso e o abracei.

— Valeu, Kadu, mas eu vou nessa. Depois a gente se fala, tá?

Ele ainda fez um beicinho, mas concordou. Eu entrei no carro e fui direto pra minha casa. Estava tudo escuro e o resto da família estava dormindo. Chegando ao quarto, me apressei em tirar a roupa e entrar debaixo do chuveiro. Um banho sempre é bom pra relaxar, esfriar a cabeça. Quando saí, enrolado na toalha e sacudindo o cabelo, dei de cara com o Bernardo sentando na minha cama.

— Porra, que susto!

— Por que você me deixou sozinho lá?

— Você já estava acompanhado — falei virando as costas e indo ao armário pegar um short.

— Vai me dizer que sentiu ciúmes daquela garota?

— Não sei se é ciúmes ou se achei falta de respeito da sua parte.

— Eu não fiz nada, só estava conversando com ela. Normal, ué.

Eu tirei a toalha e ia colocar o short, mas senti suas mãos em mim. Tentei sair, mas ele me segurou com força, beijando minhas costas, enquanto suas mãos apertavam a minha barriga.

— Olha pra você. É perfeito. Eu nunca te trocaria por garota nenhuma. Eu sou louco por você.

Eu virei de frente pra ele e olhei bem nos olhos dele.

— Promete?

— Claro que sim.

Puxei ele pela nuca e o beijei com fome. Ele correspondeu, arranhando minhas costas, enquanto minhas mãos se livravam da sua roupa. Quando a última peça de tecido caiu no chão, eu o joguei na cama e em poucos minutos já estava dentro dele, fodendo-o com força, arrancando-lhe gemidos altos que eram abafados com meus beijos. A cada estocada, seus olhos se reviravam e eu segurei as suas mãos para que pudesse torturá-lo ao máximo. Acelerava os movimentos do quadril até que ele ficasse louco e depois diminuía, me ondulando devagar por cima dele.

Ele tentava soltar as mãos para se tocar, mas eu segurava mais forte e voltava a aumentar as investidas, cada vez mais rápidas e intensas. Assim foi durante muito tempo, a gente já estava suado e sem fôlego, mas totalmente entregues ao momento. Voltei a foder com força, cada vez mais rápido e fundo, fazendo os corpos estalarem um no outro. Já não estava mais conseguindo segurar o orgasmo que se aproximava, então ele começou a gemer mais alto, quase gritando:

— Ahhhh vaaaiii aaaahhhhhh caralhooo aaahhhhh naaaoo paraaaaa aaaahhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Senti um jato quente me atingindo a barriga, seguido de outros, ao mesmo momento que senti meu pau latejar soltando litros de porra dentro dele. Olhei para ele e ele estava com os olhos fechados bem apertados, o rosto vermelho pingando suor, os dentes trincados. Seu corpo tremia violentamente, juntamente aos meus espasmos e a um coração que batia descompensado.

Deitei ao seu lado, tentando recuperar o fôlego. Senti-o aconchegando-se a mim, ainda trêmulo.

— Caralho, você viu isso? Eu não me toquei… nossa… que foda! Como você fez isso?

— Sei lá... — consegui responder, ainda sem ar. Tomamos banho e ele acabou dormindo lá em casa. Para minha mãe isso era normal, fazíamos isso desde moleques, só não sei como ela não acordou com tamanha barulheira.

O tempo foi passando.

O Bernardo progrediu na faculdade de Medicina e iniciou um projeto social aos fins de semana que resultou numa total falta de tempo. A gente nunca conseguia se ver e o que eu achei ser passageiro, tornou-se uma rotina. Sentia a sua falta, mas procurava incentivá-lo e apoiá-lo, pois sabia que era uma profissão de suma importância, que precisava de muita dedicação.

Meus dias se resumiam em faculdade, academia e casa. Dava meus treinos e por conta da ausência do Bernardo, aumentei minha carga horária. Às vezes saía com meus amigos, mas quase sempre sem ele.

Era raro conseguirmos passar algumas horas juntos e tentávamos aproveitar como dava. Ele sempre estava cansado demais e quase sempre dormia enquanto estava comigo. Com isso, nossa relação esfriou bastante. Distanciamo-nos, porém sempre achei que todo relacionamento é assim mesmo, tem fases e fases. Ele estava se preparando pra um futuro, construindo uma carreira e eu tinha que estar ao lado dele, da melhor maneira que eu podia.

Nesse ritmo se passou quase um ano.

O Kadu tinha alugado um apê com um colega dele de faculdade e chamou os amigos para o open house na área comum do prédio. Avisei o Bernardo com dois dias de antecedência, mas isso não adiantou nada. Ele não queria ir, mas não queria que eu fosse só, então acabou concordando em me acompanhar.

É claro que no dia ele se esqueceu da confraternização, me deixando muito irritado. Liguei várias vezes pro celular dele, que só dava fora de área. Mandei várias mensagens e por último, pedi que ele me encontrasse lá.

Cheguei ao endereço bem atrasado e quando o Kadu me viu, seu rosto iluminou-se num sorriso.

— Porra, achei que não vinha mais! Cadê o mala?

— Ele virá mais tarde. Parabéns, Kadu! Tô tão feliz por você!

Eu o abracei forte, mostrando o quanto aquela realização dele era importante pra mim. Ele retribuiu o abraço e falou:

— Liberdade! Nem acredito! Depois te mostro o apê. Vem, pega alguma coisa pra beber aí.

Sentamos numa mesa e ele me apresentou o tal colega da faculdade, que também tinha convidado alguns amigos para o churrasco.

— Ei, Kadu, rola alguma coisa entre vocês? — perguntei cheio de curiosidade.

— Quem?

— Você e esse colega da facul com quem você vai morar.

— Ah, não. Não rola nada não, é só amizade mesmo. Ele tava procurando alguém pra rachar um teto e a gente se dá super bem. Ele tem namorada.

— Ah tá, sei qual é.

— Ciúmes?

— Ah, pára, né, Kadu! — falei empurrando ele e rindo em seguida. O clima estava descontraído e alegre. A música rolava alta e o sol já tinha se posto. Já era noite e toda hora eu olhava no relógio, mas nada do Bernardo chegar.

— E aí, bora lá conhecer o apê? — perguntou Kadu animadamente.

— Tá, tudo bem — respondi um pouco inseguro. Quando estávamos atravessando o hall pra pegar o elevador, o Bernardo entrou pela portaria e nos olhou de cara feia.

— Pra onde vocês estão indo?

— Nossa, você demorou — falei aproximando-me dele.

— Eu tinha esquecido completamente. Fiquei preso lá no projeto, mas agora eu já estou aqui — disse ele olhando para o Kadu.

— Ah, jura? Nossa, Bernardo, nem tinha percebido — devolveu ele a provocação, revirando os olhos e eu intercedi antes que pudesse sair alguma confusão.

— O pessoal tá lá atrás, vamos? — falei, meio que arrastando o Bernardo para a churrasqueira do prédio. Sentamo-nos à mesa e depois de um tempo, o clima estava descontraído de novo. Tinha uma galera que tocava ukulelê e carron e nossos amigos, como sempre, estavam falando de mulher na mesa. A gente ria, opinava, mas não passava disso. Um amigo nosso, que conhecemos desde moleques também, virou em nossa direção e falou:

— Vocês dois que eu vou te contar, hein? Mais devagar, impossível! Fazem séculos que eu não vejo vocês pegarem ninguém. Acho que a Jackie te jogou uma macumba, Biel. Acha, não?

— Nada a ver, Renan. Não é porque eu não fico me agarrando na frente de vocês que eu deixo de pegar.

— Ah sim, você sempre foi “come quieto” mesmo, demorou uma cara pra assumir a Jackie, mas e você, Dado? — Dado era um apelido do Bernardo.

— Eu o quê?

— Você era pegador, cara. Desde que voltou dos “States” não pega ninguém. O que foi? Deixou o coração com alguma americana?

Achei que o Bernardo fosse responder tranquilamente, como eu fiz, mas ele travou. Ficou sem fala e terrivelmente sem graça. Os garotos entenderam que ele teve sim alguma paixão no exterior e não queria falar a respeito. Nós dois sabíamos que não se tratava disso. Eu olhei pra ele e perguntei:

— Tá tudo bem?

— Tá sim — respondeu ele, forçando um meio sorriso e voltou a ficar sério. O resto da noite ele ficou estranho, não interagia com os outros na mesa, nem parecia estar se divertindo.

— Vamos embora? Eu tô tão cansado.

— Tudo bem — respondi e fui me despedir das pessoas. Entramos no carro e eu perguntei se ele queria dormir lá em casa, mas ele negou, alegando que preferia ir para a sua casa para poder descansar melhor. No dia seguinte, acordaria cedo para mais um dia de projeto.

Fiquei um pouco chateado, mas ultimamente isso era normal. Parei com o carro na frente da sua casa e antes que ele pudesse sair do carro, eu falei:

— Be, a gente precisa conversar.

— Tem que ser hoje, Biel? Eu tô tão cansado.

— Aí é que está, Bernardo, você tá sempre cansado. A gente não tem mais tempo um pro outro. Quando você espera ter essa conversa com a agenda que você tem?

Ele se acomodou no banco, virando de frente pra mim e falou:

— Tudo bem, o que você quer conversar?

— Eu quero saber o que está acontecendo. Eu sei que Medicina é curso foda e que toma muito tempo. Eu sei que você tá engajado nesse projeto e acho muito nobre da sua parte, mas eu quero saber se tem mais alguma coisa. Tem?

— Não entendi. Tem o quê?

— Tem mais alguém?

— Claro que não. Eu não tenho tempo pra porra nenhuma, como você pode pensar nisso?

— Como? Quando foi a última vez que fizemos amor? Que nos beijamos até? Eu mal te vejo. Poxa, a gente vai fazer um ano de namoro. Eu pensei da gente fazer algo legal, viajar, passar um tempo só nós dois.

— Eu acho ótimo, só tem que ver se eu vou ter tempo. Vamos fazer assim, amanhã eu já organizo algumas coisas e vejo se consigo tirar uma semana, tá bom? E amanhã podemos passar o resto do dia juntos, me pega lá na sede. Pode ser?

— Tudo bem, eu passo lá no final da tarde.

Nos beijamos e cada um foi pra sua casa. No dia seguinte, me arrumei e fui pegar ele. Já tinha planejado fazer um programa legal, jantar e depois passar a noite juntos, para que isso nos reaproximasse e quem sabe melhorasse as coisas entre nós.

Parei quase em frente à sede que ele tinha o projeto, em uma comunidade mais humilde da cidade e fiquei esperando por ele. Quase meia hora depois, nada dele sair. Então olhei para a esquina e vi um grupo de pessoas sentadas na mesa de um boteco e o reconheci no meio delas. Ele estava bebendo cerveja, rindo animadamente com mais três garotas e um cara.

Saí do carro e fiquei olhando. A garota ao lado praticamente se jogava pra cima dele, sendo muito bem amparada pelo mesmo, que esbanjava charme ao grupo. Eu estava usando um boné virado pra trás e óculos escuros, então eu virei o boné pra frente, cruzei os braços no teto do carro e fiquei só olhando.

Depois de um tempo, ele me viu parado ao lado do carro, se despediu sorridente das pessoas e foi ao meu encontro.

— Nossa, eu não tinha te visto. Tá há muito tempo aí?

— Tempo o bastante.

Entrei dentro do carro e liguei o motor. Ele entrou no veiculo e estava colocando o cinto quando falou:

— Você podia ter me avisado, ué. Mandado uma mensagem ou ter ligado.

— Não quis atrapalhar a sua diversão. Achei que sua falta de tempo era geral e não só comigo, mas estou revendo os meus conceitos.

— Nada a ver, Biel. É que acabou antes do previsto e como eu já tinha que te esperar, eles chamaram pra tomar uma cerveja e eu topei.

— Tudo bem, Bernardo. Eu não vou discutir. Nem mesmo por causa daquela garota que tava praticamente sentada no seu colo.

— Exagerado. Ela é uma colega, bem gata aliás, né?

— Não reparei, mas se você acha tão gata assim por que não fica com ela?

Falei meio irritado e também fazendo um charminho, pois queria ouvi-lo falar que não existia ninguém além de mim. Às vezes é só isso que a gente precisa ouvir pra ficar tudo bem aqui dentro. Eu sempre fui ciumento, mas não com qualquer besteira, porém todo aquele distanciamento estava gerando uma insegurança em mim que com um pouco de carinho logo se dissiparia. Porém, ele olhou pra mim e falou:

— Na real, eu já pensei nisso.

— Hã? Pensou em quê?

— Em ficar com ela. Na real, eu quero isso.

Capítulo 12 — Cicatrizes se abrem

Eu já estava arrancando com o carro, mas então parei e olhei pra ele, incrédulo.

— Como é que é? Que porra é essa?

— Não me entenda mal, Biel. Você mesmo viu o que o Renan falou aquele dia do churrasco, a gente tá dando bandeira não ficando com mulher. Daqui a pouco vão desconfiar e eu não sei se tô preparado pra isso. Você sabe que na profissão que eu escolhi tem muito preconceito com essa parada.

Eu respirei fundo e esfreguei meu rosto com as mãos. Pensei comigo mesmo: “Calma, Gabriel”.

— Bernardo, você achou que ninguém nunca iria descobrir? Que a gente nunca teria que lidar com isso?

— Eu sei, Biel, mas eu não sei se agora eu tô preparado pra isso. Eu amo você e ficar com garotas não ia mudar em nada isso. Meu coração já te pertence há muito tempo, seria mais fachada mesmo. Eu acho que não teria ciúmes de você com uma menina.

— Ah não? Você mesmo falou pra eu terminar com a Jackie e agora você acha super normal ficar com outras pessoas?

— Não são outras pessoas. Você tinha um relacionamento com ela. Pensei em ficar com uma menina aqui e depois de um bom tempo ficar com outra, mas sem qualquer tipo de envolvimento emocional.

— Bernardo, olha o que você tá falando! Caralho, não é certo usar as pessoas assim não. Se você não tá preparado, a gente dá um tempo, sei lá. Na real, nem eu me sinto preparado pra todo mundo saber sobre a gente, mas eu não vou usar ninguém como fachada.

— Eu não posso, Biel. Poxa, eu tô pra conseguir um estágio importante com um médico renomado. Se a nossa relação vier à tona agora, me prejudicaria muito, mas isso não diminui em nada meu amor por você. Porra, a gente vai fazer um ano juntos. O melhor ano da minha vida.

Eu olhei pra ele pensando que eu não podia dizer o mesmo. O nosso relacionamento começou muito bem, com toda aquela paixão e amor represado por tanto tempo, mas com tanta ausência e falta de tempo, foi criando um abismo entre nós.

Eu liguei o carro e fui dirigindo, enquanto ele tentava em vão expor os seus motivos. Na verdade, eu nem estava ouvindo. Na minha cabeça passava um filme dos melhores e piores momentos do nosso relacionamento, no qual eu me esforçava pra lembrar só do que fazia manter aquela chama acesa dentro do meu coração.

No meio do caminho, ele desistiu de falar sozinho e ficou em silêncio. Parei em frente à casa dele e desliguei o veículo.

— Ué, porque você veio pra cá? A gente não ia fazer algo diferente hoje, só nós dois?

— Bernardo, eu acho que a gente tem que dar um tempo e rever tudo. As coisas já não vêm caminhando bem há um bom tempo, eu acho que você está mais focado no seu futuro profissional do que em nós, eu acho até que você está certo, é o seu futuro, mas depois de hoje eu vi que não tá dando certo.

— Tempo? Por quê? Porque eu falei que queria ficar com a tal garota? Não ia significar nada pra mim, meu amor, você sabe disso!

— Eu não sei de mais nada, Bernardo. Eu só sei que antes nós éramos duas pessoas apaixonadas, que só sabiam se amar e viver aquilo de forma plena e agora quase não se vê mais. Você tá mais preocupado com que os outros vão achar ou se isso vai prejudicar a sua carreira, do que com o que temos. Porra, a gente tem um compromisso, como que você me propõe algo assim?

— Gabriel, você tá sendo muito radical. Caralho, eu tô falando de uns beijos sem importância e você fala como se fosse o fim do mundo. Eu acho que o que importa é o que a gente sente e eu amo você. Eu sempre amei e sempre vou amar. Você é o amor da minha vida e eu só quero preservar a gente de comentários maldosos.

— Não, Bernardo. Você quer se preservar. Cara, eu até entendo o seu receio, porque sinto o mesmo, mas nem por isso pensei em fazer algo assim.

Ele olhou pro lado e bufou frustrado. Fiquei em silêncio esperando ele sair do carro, para enfim poder seguir e digerir aquilo tudo.

— Você tá terminando comigo, é isso?

— Não sei… Eu nem sei dizer se estamos juntos ou não. Vamos fazer o seguinte: Vamos pensar direito, você coloca na balança as suas prioridades e eu reflito também sobre tudo isso. Ok?

Ele olhou pra mim e depois pra janela. Soltou o ar pesadamente e por fim, falou:

— Tudo bem…

Abriu a porta do carro e saiu. Eu apertei com força o volante, respirei fundo e parti novamente com o carro. Mesmo dirigindo a esmo, o meu caminho foi certo. Estava precisando conversar e ninguém melhor que o Kadu. Durante o trajeto, a rádio tocava uma música do Vítor e Léo que depois vim a saber que se chamava “Lágrimas”, e por incrível que pareça, fazia todo o sentido naquele momento.

Parei em frente ao seu prédio e interfonei. Ele atendeu e me pediu pra subir.

Abriu a porta, vestindo uma bermuda que estava semi aberta, os cabelos levemente encaracolados estavam bagunçados conferindo-lhe um ar jovial e maroto, e o sorriso… ah, o sorriso era aquele que eu já conhecia.

— Fala cara, e aí, tudo bem? Pelo visto não, né?

— Ah… Porra, Kadu, é foda! Eu já não sei... — ia falando, mas então eu vi uma garota aparecer na sala. Eu fiquei em silêncio, meio espantado e olhei pra ele.

— Ah, essa é a Luíza, uma amiga de longa data. Ela já tá de saída, não se preocupe.

Ele falou na tranquilidade de praxe e a garota só concordou com a cabeça, sorrindo. Saiu dando um selinho de leve nele e ele fechou a porta em seguida. Foi na geladeira, pegou duas long necks de cerveja e trouxe até a sala.

— Cara, que merda! Empatei a sua foda. Putz... eu podia voltar outra hora, sei lá.

— Que nada, Biel, de boa. Já tinha terminado e a Luíza é de casa, vamos dizer assim. Você nunca me atrapalha. O que houve? — perguntou ele sentando-se no sofá.

Sentei ao lado dele e contei tudo que tinha acontecido. O Kadu, por ser meu amigo, sabia que as coisas não estavam às mil maravilhas, mas eu mesmo evitava entrar em detalhes com ele. Sempre fui muito reservado e isso é uma característica minha. Falei de toda a conversa que tivemos no carro e de onde eu o tinha encontrado, enfim, desabafei. Ele ouvia tudo atentamente, entre um gole ou outro, sem me interromper. Por fim, falou:

— O raciocínio dele tá certo. Claro que seria muito mais fácil pegar umas minas por aí e manter a relação de vocês intacta, mas nem todo mundo consegue fazer isso.

— Porra, Kadu! Qual é? Isso é… sei lá... como eu ia ver a pessoa que eu namoro com outra? E mesmo se não visse, eu saberia... não dá... Você faria algo assim?

— Faria se eu não estivesse apaixonado. Vocês tem um compromisso, coisa que não faço nunca. Eu nunca namorei ninguém porque eu gosto de ter essa liberdade de ir e vir, e quem se relaciona comigo sabe disso. Eu te entendo e até entendo ele, mas não acho certo.

— Eu também entendo ele, eu sei que dá medo, que é foda ser apontando, ser alvo de fofoca, de fuxico, de ter uma monte de gente te julgando, mas daí sair beijando outras bocas, usando as pessoas… não dá.

— Isso é imaturidade, Biel, ele que ir pelo caminho mais fácil, tá querendo ser prático. Coisas do coração não são práticas. Bem pelo contrário, complicadas até demais. E agora? Como vocês estão?

— Não estamos... Sei lá, falei que achava melhor a gente dar um tempo e pensar melhor nisso tudo, já que tá tudo tão estranho.

— Tempo? E existe isso?

— Ah, sei lá, Kadu! Porra, foi só o que me veio na cabeça na hora. Eu não sei se termino ou se insisto. Eu não sei, entende?

— Claro que eu entendo, cara. Olha, relaxa, que tudo se resolve, tá?

— Acho que tenho que aprender com você, né?

Eu ri, meio sem vontade. Ficamos bebendo e conversando até tarde da noite. Quando já estava me sentindo melhor e mais tranquilo quanto a tudo, voltei para casa. Antes mesmo de entrar pelo portão, o vi sentado na calçada.

— O que você tá fazendo aqui, Bernardo?

— Eu acho que a gente tem que conversar. Onde você estava?

— Eu não te falei pra gente dar um tempo? — falei entrando em casa, mas ele veio atrás.

— Onde você estava, Gabriel?

— Pára com essa merda, Bernardo, você sabe que me irrita esse seu tom.

— Foda-se se te irrita. Eu sei muito bem onde você estava e não precisa ser vidente pra saber que você estava com o Kadu. O que foi? Já foi me dar o troco por algo que eu nem fiz?

— Pára de falar merda, Bernardo! O Kadu é meu amigo. Estava lá conversando com ele, sim. Não transfira os nossos problemas pra ele, porque ele não tem culpa de você estar querendo ficar com outras pessoas.

— Eu te expliquei muito bem o que eu quero e por que eu quero isso. Não interferiria em nada no nosso namoro. Não envolveria sentimentos. Sabe o que eu tô achando? Que você só quis esse tempo pra ter uma desculpa pra correr pros braços do seu amiguinho, que devia estar louquinho pra te consolar, né?

— Seu idiota! — esbravejei, empurrando-o com força, fazendo ele quase cair no chão.

— Olha aqui, Bernardo, eu não preciso de desculpa nenhuma. Se eu quiser o Kadu, não preciso inventar porra nenhuma. Sou homem o suficiente pra assumir o que eu faço. Você não quer um tempo?

— Eu nunca quis tempo nenhum!

— Então, tudo bem. Sem tempo. Acabou.

— Hã?!

— É isso mesmo, Bernardo. Pode ficar com quem você quiser, não precisa mais se preocupar com a sua reputação. Você tá livre! Assim como eu. Acabou! — falei fechando o portão na cara dele.

Entrei em casa espumando de raiva e fui direto pro chuveiro. Ao deitar na cama, pensei em tudo aquilo. Era difícil acreditar que tinha acabado daquela maneira, que aquele quarto que foi palco de tantas cenas apaixonadas de amor, agora mais parecia um tablado vazio, sem cor. A cama que eu estava deitado, já tinha sido um ninho de momentos tórridos e carinhosos, agora parecia enorme, até mesmo pra mim.

O que eu podia fazer? Não tenho vocação nenhuma para viver uma história de solidão a dois, muito menos fazer teatrinho pra ninguém. Eu tinha vários motivos pra não querer que alguém descobrisse o nosso namoro e não me agradava nem um pouco ter minha intimidade exposta dessa maneira, mas nunca envolveria terceiros nisso.

É, acabou. Como uma história bonita que acaba com “Vivemos felizes para sempre”, só que meu final feliz não tinha chegado como eu desejava. Na vida real não existe o príncipe encantado e este, eu mesmo estava longe de ser. Todos nós somos pessoas de carne e osso, que erramos e muitas vezes deixamos de ser o ideal para o outro. Isso tudo é muito bonito na teoria, mas a realidade é que dói. Tantos momentos, tantos sonhos, tanto querer, pra se perder assim, como água se esvaindo das mãos sem que a gente possa fazer nada. Adormeci em meio às lembranças e ausência que já me rondava, mas que agora tinha se instalado ali.

No dia seguinte, acordei e havia uma mensagem no meu celular:

“Eu nunca te enganei. Sempre fui sincero com você e expus o porquê de eu querer fazer aquilo e se você não concordava, era só ter me falado e não ter terminado da maneira que você fez. Será que eu posso esperar a mesma sinceridade de você? Ou será que tudo isso não foi a desculpa perfeita pra você fazer o que sempre esteve a fim de fazer? Quantas vezes você e ele em situações suspeitas? Pode correr pro seu ombro amigo. Ombro, braço, perna e sabe lá mais o que. Você tá livre. Seja Feliz.”

Eu li aquilo com raiva e ressentimento. Quase um ano de namoro, pra terminar dessa maneira. Peguei o celular e respondi:

“BABACA”

Curto e grosso. Era assim que ele estava se comportando. Tudo que eu tinha pra falar, eu já tinha dito no dia anterior. Não ia ficar gastando o meu latim pra ficar justificando algo que não tinha cabimento. Ele que pensasse o que quisesse. Eu nunca dei motivos pra desconfiança e não ia ficar dando ibope pra isso.

Os dias foram passando, se transformando em semanas. Eu afundei a cara no trabalho e passava a maior parte do tempo ocupado. Não tinha tempo pra fazer quase nada e nos fins de semana, estava cansado demais pra sair. A verdade é que eu não estava nem um pouco a fim de me divertir. A ferida estava novamente aberta.

Numa sexta-feira, eu estava chegando em casa, exausto de mais um dia de trabalho, e quando olhei meu celular tinha várias mensagens do Kadu, me pedindo pra passar na sua casa. Respondi dizendo que não ia dar, mas com a ausência de respostas dele, me obriguei a ir. Respirei fundo, revirando os olhos em descontentamento e toquei o seu interfone.

— Eu só interfonei pra dizer que não vim e estou voltando pra casa.

— Pára de bobeira, sobe aí — disse ele, destravando o portão. Revirei novamente os olhos e entrei. Apertei a campainha e ele atendeu com calça de capoeira, dorso nu, levemente suado e um sorriso maroto no rosto.

— Não me odeie, a tática foi necessária.

— Não achei graça nenhuma, podia pelo menos ter me respondido. O que foi? — perguntei entrando no apartamento.

— Vai ter aquele show irado lá na hípica. Você prometeu que quando a banda viesse à cidade a gente iria. Sem desculpas agora.

— Ah, não, Kadu. Nem tô no clima. Ainda por cima, olha como eu tô, vindo da academia.

— Tá gato como sempre. Ah, pára, Biel. Você tá parecendo um bicho do mato. Esse seu luto tem que terminar, cara. A vida tá aí pra se viver e ela não espera não. Bora, eu vou te emprestar uma roupa.

— Não…

— Não é o caralho. Pára. Vai ser divertido, eu te prometo. Eu vou fazer ser foda. Confia? — ele perguntou com um sorriso tão grande, que eu não soube recusar mais. Talvez estivesse na hora de sair um pouco e espairecer.

— Tudo bem, mas será que o Bernardo vai? Eu não quero encontrar com ele.

— Olha, eu mesmo vi com a galera de ir geral, mas ninguém vai poder. Você era a minha última esperança. Sozinho eu acredito que ele não vá. Além disso, ele nem tem vida direito, tá sempre ocupado demais. Acho que não vai, não.

— Tá bom, me empresta uma toalha.

Ele me deu uma toalha e eu fui pro chuveiro. O colega dele de apartamento estava viajando com a namorada e eu não precisava ter medo de ser surpreendido por ninguém estranho. Saí do banheiro enrolado na toalha e fui até o quarto dele.

— Olha, vê aí no armário o que você quer vestir. Pode pegar o que quiser. Eu vou tomar banho também.

Ele saiu do quarto e fui até o armário, ainda com toalha enrolada na cintura e comecei a ver o que ele tinha lá. Calça jeans nem pensar. Além de ficar curta em mim, pois sou mais alto que ele, iria ficar muito justa. Bermuda, OK. Escolhi uma que me pareceu maior que as outras e fuçando mais um pouco, achei um pacote de cuecas novas. “Rá, perdeu, playboy” pensei. Peguei uma boxer branca e vesti. Um pouco apertada, mas tudo bem. Parti então para a bermuda. Ficou um tanto quanto justa, o que me incomodava bastante e enquanto eu estava ajeitando a mala assim e assado ele voltou pro quarto. Parou e olhou fixamente para mim.

— Nossa... serviu, né?

— Serviu, é caridade sua. Olha como tá isso, atochada.

— Tá uma delícia, isso sim — disse ele sorrindo e apertou de leve o pau por cima da toalha, disfarçando e virando de costas. — Pára de frescura e escolhe uma blusa aí.

O Kadu com vergonha era estranho até pra mim. Fiz o que ele pediu e escolhi uma blusa preta com gola em V que ficava bem com a bermuda clara. Ficou igualmente justa, mas blusa eu já estava mais acostumado a usar assim, até as minhas ficavam.

Sentei na cama e fiquei mexendo no celular. Ele foi até o armário, ficando de costas pra mim e deixou a toalha cair no chão. Foi impossível não olhar para as costas úmidas e com músculos levemente desenhados que apareciam enquanto ele procurava uma roupa. A bunda lisa e redonda era mais clara que o resto do corpo e mais parecia um monumento de tão perfeita.

Eu me esforçava pra desviar os olhos e me concentrar no celular, mas estava completamente hipnotizado. Lentamente ele vestiu uma cueca azul marinho, depois uma calça jeans clara e surrada e por fim uma blusa branca básica. Colocou um tênis e olhou pra mim.

— E aí, tá bom assim?

Eu me assustei com a pergunta, pegando o travesseiro e colocando no colo, para depois responder:

— Sim, sim. Tá bom.

— Então, vamos?

Eu sabia que o volume naquela bermuda justa que eu estava usando devia estar medonho e eu não podia nem pensar em levantar agora.

— Não. Marca um dez aí, eu tô com câimbra.

— Câimbra?

— É. Pega uma água pra mim?

Ele me olhou de um jeito estranho, interrogativo, mas foi. Na hora eu levantei e corri pro banheiro. Tranquei a porta e me debati, joguei uma água gelada no rosto e por fim o bichão começou a sossegar.

— Biel, você tá bem? — perguntou ele batendo na porta.

— Tô. Já saio.

Depois de alguns minutos, eu saí do banheiro como se nada tivesse acontecido.

— Vamos — falei já me encaminhando pra porta.

Chegamos ao local e a fila estava imensa. Tinha bastante gente e alguns rostos conhecidos. O Kadu já tinha conseguido os ingressos e só aguardávamos pra entrar. Ainda assim, tinha muita gente tentando fazer o mesmo. Quando olhei pro lado, reconheci um rosto que eu não desejava ver. O Bernardo estava abraçado com uma garota, sorrindo completamente inconsciente da minha presença. Meu corpo gelou e meu sangue parecia que estava parando nas veias. Então…

Capítulo 13 — Sentimentos tem vida própria

Eu fiquei parado, olhando para os dois sem conseguir me mexer. Ele parecia tão entretido com aquela garota que nem notava que eu estava tão perto dele. Pude observar por minutos os sorrisos, as palavras trocadas tão intimamente, com uma mulher que eu não lembrava ter visto antes.

— Ei, vamos? — chamou Kadu, me tirando do entorpecimento.

— Não, vamos embora.

— Hã? Ah, não, Biel. Pára, né? A gente já tá aqui.

— Vamos embora agora! — Eu disse firme, olhando mais uma vez pros dois.

O Kadu olhou para a direção que eu estava olhando e então entendeu os meus motivos. Naquele mesmo instante, o Bernardo olhou para nós, fazendo morrer o sorriso em seus lábios. Ficamos sérios olhando um pro outro, até que virei as costas e fui embora a passos largos em direção ao estacionamento.

Cheguei no carro e coloquei as mãos no capô, apoiando meu corpo.

— Você tá bem? — perguntou Kadu, colocando a mão no meu ombro.

— Tô. Só me tira daqui. Vamos embora — falei entrando no carro.

Não quis ir pra casa e então voltamos pro apê dele. Me joguei no sofá, me sentindo mal, reprisando aquela cena de poucos minutos atrás na minha cabeça.

— Que foda essa parada. Eu jurava que ele não ia — disse ele parado na minha frente com os braços cruzados.

— Tudo bem, moramos na mesma cidade. Isso é inevitável. Foi mal, estraguei a sua noite.

— Quem disse? Já que a gente não vai curtir o show, vamos aproveitar por aqui mesmo.

Ele colocou uma música animada e trouxe uma garrafa de rum Montilla.

— Rum? Não é meio pesado, não?

— Larga a mão de ser bicha, Biel. Vai arregar?

— Não. Vai ver é disso que eu tô precisando.

Rimos juntos e começamos com os shots. Foram um, dois, três, até que eu mesmo perdi a conta. Em pouco tempo, a bebida fez efeito e estávamos rindo, relembrando coisas do passado.

Estávamos deitados no chão da sala, lado a lado, mas com os corpos opostos, só com as cabeças uma ao lado da outra.

— Por que você nunca se apaixonou por ninguém? — perguntei olhando pro teto, que às vezes insistia em rodar.

— Ah, porque eu acho bobeira. Acaba estragando tudo, sempre dá em sofrimento.

— Eu gosto de estar apaixonado, embora não me permita muito a isso. Você devia tentar qualquer dia.

— Com quem?

— Ah sei lá, Kadu. Aí é com você, né?

— Acho que você foi o que chegou mais perto disso. Quando a gente era moleque e eu tava me descobrindo… te via jogar bola e me acabava na punheta te imaginando. Acho que fiquei bem gamadinho em ti.

— Amor de bronha? Hahahahahahaha! Só você mesmo, Kadu.

— É ué, não posso falar que é que nem amor de pica, onde bate fica, porque eu nunca experimentei de fato, mas até hoje você povoa as minhas fantasias.

Virei a cabeça de lado, encontrando os olhos dele. Um arrepio percorreu meu corpo, enquanto ele também me olhava. Olhei pra sua boca e novamente pros seus olhos. Ele sorriu.

— Mas nem nas minhas fantasias mais profundas eu podia imaginar que você pudesse curtir algo assim.

— Eu também não imaginava que tudo isso fosse acontecer… — respondi ainda olhando nos olhos dele e para sua boca, que estava incrivelmente perto da minha.

— Será que isso faz com que possa ter esperança de realizá-las um dia?

Levantei rápido demais, cambaleando sem equilíbrio.

— Acho melhor eu tomar um banho, eu tô tonto demais.

— Ei, calma, Biel, não queria te assustar. Eu não vou te atacar, nem nada disso. Se rolar algo, vai ser naturalmente.

— E-Eu sei... — falei sem graça, tentando manter o equilíbrio.

— Vai conseguir chegar ao banheiro?

— Vou — respondi rindo.

Me enfiei debaixo da água gelada, sentindo calafrios e deixando que ela me despertasse. “Que merda… eu não posso.” Pensava, esfregando o sabonete contra o meu peito. “Não posso por quê?” me perguntei. O Bernardo estava lá com uma vadia qualquer, rindo com a boca cheia de dentes, se divertindo enquanto eu estava num luto eterno. Todo mundo é adulto, responsável pelos seus atos e por que não?

— Kadu! — gritei do banheiro. Em menos de um minuto ele apareceu na porta, mas com o rosto virado para não me olhar.

— O que foi? Tá passando mal?

— Vem aqui.

— Hã? — perguntou ele entrando um pouco no banheiro.

Abri a porta de blindex do box e o puxei pela camisa, trazendo ele pra debaixo do chuveiro, beijando-o com fome. Ele se debateu de susto e de choque com a água gelada, mas logo correspondeu ao beijo que foi esfomeado e avassalador. Prendi-o contra a parede de azulejos, beijando ele de maneira faminta, as línguas enroscadas uma na outra, enquanto minhas mãos entravam por debaixo da sua camisa ensopada.

Desgrudei minha boca da dele, para pegar fôlego, olhando nos seus olhos que estavam arregalados e surpresos.

— Você ficou maluco?

— Pode ser. Quer que eu pare?

— Não...

Então eu o beijei novamente, me livrei da camisa molhada e comecei a desabotoar a calça, enquanto nossas bocas se devoravam. A água nem parecia mais tão gelada, escorria gostosa pelos nossos corpos que estavam pegando fogo. Mordi seu queixo, beijando o seu pescoço, para depois esfregar minha barba rala por ele, mordiscando sua orelha.

Ele foi beijando meu tórax, descendo pela barriga, mordendo os meus gominhos, me causando arrepios. Pegou meu pau com a mão, punhetando-o para depois colocá-lo na boca e sugá-lo com vontade. Joguei minha cabeça pra trás, mordendo os lábios e soltando um gemido rouco de satisfação. Ele chupou por alguns minutos, se demorando na cabeça para depois engolir até a base, mostrando o quanto era bom naquilo que fazia.

Puxei-o pelos cabelos, beijando a sua boca com sofreguidão, erguendo-o do chão, fazendo com que ele entrelaçasse as pernas na minha cintura, colando ele contra os azulejos em seguida. Sua mão tateou um creme de cabelo que ficava no parapeito da janela e senti-o lambuzar meu pau, colocando na entradinha do seu orifício. Soltei um pouco o peso dele para que eu o penetrasse em pé, pressionando ele contra a parede.

Ele fez uma careta de dor, espremendo os olhos, mas não pediu pra eu parar. Em pouco eu já estava completamente dentro dele, fazendo-o subir e descer no meu colo. Ele gemia no meu ouvido, apertando meus ombros com força. Fechei o chuveiro e fomos assim, engatados e encharcados até o quarto. Prensei-o contra parede e o fodi com força, sustentando seu peso nos meus braços, movimentando o quadril num ritmo frenético.

Quando meus braços adormeceram, coloquei-o no chão, virando-o de frente pra parede, colocando suas mãos espalmadas sobre a mesma e mais uma vez o penetrei. Mordia sua nuca, enquanto dava estocadas firmes, fazendo-o gemer alto. Nossos corpos molhados se chocavam um contra o outro, formando um poça de água no chão. As pernas já estavam cansadas e bambas do esforço que estávamos fazendo, então eu praticamente o puxei e o joguei na cama.

Deitei por cima dele, já encaixando novamente, adentrando seu corpo e fodendo-o com força, cada vez mais rápido. Já não sabia se as gotas que caíam do meu cabelo eram do banho ou de suor, enquanto suas mãos arranhavam minhas costas, sua boca mordia meu ombro, entre gemidos e sussurros cada vez mais urgentes.

Senti seu corpo estremecer embaixo de mim, suas unhas cravarem-se nos meus braços e a sua boca soltou uma espécie de urro que ecoou pelo quarto. Senti seu cu apertar violentamente meu pau e os jatos do seu membro me atingirem a barriga, fazendo eu gozar em seguida, despejando uma boa quantidade de porra dentro dele. Meu corpo explodiu em diversos espasmos, me fazendo urrar de prazer e então cair pesadamente em cima dele.

Era possível sentir sua respiração ofegante e o coração acelerado, enquanto nossos corpos trêmulos tentavam se recompor. Com dificuldade, rolei pro lado dele, puxando o ar com dificuldade e mantendo os olhos fechados. Ficamos assim durante um tempo, só respirando e descansando, sem que nenhum dois conseguisse falar qualquer coisa.

— Caralho, que porra foi essa? Nossa… acho que você quebrou minha costela — disse ele rindo, me fazendo rir também.

— Sério, o que foi que te deu? — perguntou ele, virando-se de lado.

— Cansei de ser trouxa, sei lá…

— Ah, entendi, foi o troco.

Eu virei o rosto, olhando-o nos olhos.

— Kadu, eu fiz porque eu tava a fim, mas não nego que teve um pouco disso também. Eu posso te dizer que minha cabeça tava aqui e não em outro lugar e fiz consciente. Vamos dizer que isso foi uma libertação.

— Pra mim é o que basta. Foi foda pra caralho, mais do que eu podia imaginar e quer saber? Eu tô devendo uma pra aquele otário, porque quem saiu ganhando fui eu — disse ele rindo.

— Não tá chateado?

— Com o quê? Tá louco? Foi maravilhoso, foi… sei lá. Não vamos complicar as coisas, né? Se aconteceu dessa forma, é porque nós dois queríamos isso. Eu não sou nenhuma donzela inocente, eu quis isso e já fazia tempo. Eu sabia da situação de vocês dois e nunca quis me meter no meio.

— É que eu prezo muito a nossa amizade, eu não quero que nada atrapalhe isso.

— Relaxa, Biel. Não mudou nada. Sou eu, lembra? Não tem essa de mimimi comigo. De boa, parça — disse ele rindo, me dando um soquinho no braço. Abracei ele e dormimos assim, nus e exaustos.

Acordei com uma dor de cabeça daquelas. Abri os olhos com dificuldade e aos poucos me dei conta onde eu estava. Ele ainda dormia ao meu lado, com uma expressão serena e tranquila. Sorri ao vê-lo assim, tão angelical. Me mexi, tentando não acordá-lo, mas foi em vão.

— Nossa... anotou a placa? — perguntou ele, abrindo só um olho.

— Hã?

— Do caminhão que passou por cima de mim… ah lembrei, foi você — disse ele rindo, me fazendo rir também. Era incrível como até de ressaca ele acordava de bom humor.

— Eu nada, foi aquela merda de rum que você arrumou — falei, sentando na cama e esfregando o rosto.

Levantei-me, fui até banheiro e tomei uma ducha pra acordar. Meu corpo estava todo marcado e a mordida no meu ombro era evidente. Saí do chuveiro me sentindo melhor e depois voltei pro quarto ainda sem roupa, pois as mesmas eu nem me lembrava onde tinha ido parar.

Ele estava deitado na cama, ainda sonolento e abriu os olhos ao me ouvir chegar.

— Nossa, você foi feito pra andar pelado, sabia?

Fiquei vermelho na hora, pegando mais uma cueca nova dele e vestindo em seguida.

— Por sua causa eu não vou poder tirar a camisa tão cedo. Olha isso — falei, mostrando as marcas pelo meu corpo. Ele sorriu, mordendo os lábios.

— Você nem tira a camisa. Já eu não tô numa situação melhor que a sua. E ainda por cima, nossa… você fez um estrago que só agora eu vou sentir. Acho que se não fosse o bendito rum anestésico, eu não tinha aguentado a surra que você me deu.

Ele levantou, nu, mostrando as diversas marcas arroxeadas pelo corpo. Fiquei vermelho de novo, catando minha bermuda no chão para vestí-la. Ele foi pro banheiro e voltou minutos depois, com a toalha envolta na cintura. Começou a se vestir, numa naturalidade que era peculiar a ele. Olhei mais uma vez pro corpo dele e tive que admitir que ele era bem gostosinho.

— Sabe o que eu tava a fim de fazer hoje? — perguntou ele, terminando de vestir a bermuda.

— O quê?

— Dar um rolê de skate. Bora?

— Pode ser, mas tenho que passar em casa. Dar um oi pra minha mãe e trocar de roupa.

A gente comeu alguma coisa para forrar o estômago e nesse momento, eu percebi o quanto eu estava com fome. Não tinha me alimentado na noite anterior e ainda tivemos todo aquele gasto calórico durante a madrugada.

Chegamos na minha casa e eu entrei já procurando a minha mãe, mas só encontrei um bilhete em cima da mesa avisando que ela tinha ido ao supermercado. Aproveitei que não tinha ninguém na residência e tirei a blusa, jogando-a na máquina de lavar, como de costume.

Subimos pro meu quarto e quando abri a porta, dei de cara com o Bernardo deitado na minha cama. Me sobressaltei de susto, quase caindo por cima do Kadu que vinha logo atrás.

— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, assustado.

— Eu vim conversar com você, mas quando cheguei me dei conta que você tinha passado a noite fora de casa — disse ele levantando furioso.

— Você não pode ir entrando na minha casa dessa maneira!

— Você passou a noite na casa dele?

— Ei, isso não é da sua conta! Sai daqui agora!

Ele olhou fuzilando o Kadu com o olhar e então, olhou mais uma vez pra mim. Só então começou a reparar no meu corpo, já que eu estava sem camisa.

— Peraê, que porra é essa? Que marcas são essas no seu corpo, Gabriel?

Capítulo 14 — Mudanças são necessárias

O Bernardo perguntou furioso, enquanto minha cabeça pensava freneticamente o que dizer.

— Não precisa responder não, eu sei exatamente de onde vieram essas marcas. Tenho certeza que esse filho da puta também tem — disse ele partindo pra cima do Kadu e lhe puxando a blusa com força, rasgando o tecido facilmente. Me sobressaltei com a atitude dele, mas não tive tempo de evitar que a blusa fosse destruída.

— Que isso, Bernardo! Você tá maluco? Olha o que você fez! — falei tentando me aproximar do Kadu, que estava chocado demais para se pronunciar ou tomar uma atitude.

— Maluco é o caralho! Olha aí, não falei? O corpo desse filho da puta tá cheio de marca também! Eu não to acreditando que você fez isso!

— Ei, quem você pensa que é? Isso não é da sua conta! — falei bravo, tentando acabar com aquela palhaçada toda, mas ele foi mais rápido que eu. Puxou o Kadu e lhe deu um empurrão, que revidou em seguida jogando o Bernardo em cima da minha escrivaninha. Tentei me meter no meio, mas fui empurrado com violência, me desequilibrando e caindo próximo a cama.

Os dois se embolaram, entre socos e pontapés, rolando pelo chão enquanto eu tentava em vão separar. Puxei o Bernardo com força, tirando-o de cima do Kadu, que ainda conseguiu acertar mais uma porrada no seu oponente.

— Pára com essa merda vocês dois! Que isso, você ficou maluco, Bernardo? Você tá na minha casa, caralho!

— Seu filho da puta desgraçado! Era isso que você queria o tempo todo! Tanto fez que conseguiu que o Gabriel te comesse, né? Sua piranha!

— Não me culpe pela sua incompetência, seu babaca! Você o perdeu porque é um idiota!

Os olhos do Bernardo faiscaram de raiva e mais uma vez, ele partiu pra cima do Kadu, mas dessa vez eu o segurei.

— Pára com essa porra! Quem você pensa que é pra tirar satisfação dessa maneira?! Eu não tenho mais nada com você e você já mostrou que tá em outra, muito bem. Você não tem o direito a nada! — falei gritando, furioso, olhando para o Bernardo.

— Do que você tá falando? — perguntou ele nervoso.

— Na noite passada você tava todo feliz, abraçado a uma garota. Eu vi e você sabe disso. Você deixou bem claro ali que já tava seguindo com a sua vida e só o otário aqui que ainda não.

Ele olhou bem pra mim e então cruzou os braços.

— Então foi por causa disso que você fez o que fez? Você nem sequer falou comigo e correu pra casa do amiguinho pra ter uma boa desculpa para foder ele a noite toda.

Eu olhei pro Kadu que estava encostado a parede, já sem a camisa que se encontrava mutilada no chão. Ele devolveu o olhar, respirando fundo, mostrando falta de paciência.

— Como eu te disse, isso não é da sua conta. Agora, vaza daqui porque você nem devia ter vindo!

— Só pra o seu conhecimento, aquela era a minha prima. Ela veio de outra cidade pra passar uns dias aqui com a minha tia e eu me obriguei a levar ela pra aquele show. Eu queria te explicar, mas você virou as costas e saiu sem nem ao menos dar chance a isso.

— Prima? — perguntei confuso, pois não esperava por isso.

— É. Eu teria te apresentado ela, se você não tivesse saído correndo e agora eu sei pra fazer o quê. Não fui eu que segui com a minha vida. Foi você! Essa cobra que você chama de amigo, conseguiu o que sempre quis!

— Ei, olha bem como você fala porque você que foi o culpado por tudo isso...

O Kadu começou a falar, mas foi interrompido pelo Bernardo, que continuou a falar.

— Cala boca! Eu não quero mais ouvir a sua voz! Na real, nenhum de vocês dois! Isso tudo é nojento demais!

— Bernardo, veja lá o que você vai falar! Você mesmo me falou que tava a fim de ficar com outras garotas, que não tinha tempo pro nosso relacionamento. Independente do que eu ou você fizemos depois disso, você não tem o direito de me cobrar nada. A gente não tá mais junto!

Ele olhou bem nos meus olhos, se aproximando.

— Você tem razão, a gente não tá mais junto. Acho que demorei demais pra perceber isso. Você sim já se desprendeu, enquanto eu ainda me sentia tão seu… Agora vendo essas merdas de marcas pelo seu corpo e principalmente no dele, eu vejo que o que a gente tinha de especial foi perdido. Seja feliz, Gabriel.

Ele disse e saiu do quarto. Ficou um silêncio incômodo, no qual nenhum de nós dois falávamos nada e então eu me sentei na cama. Minha cabeça rodava e eu respirava fundo tentando me acalmar. O Kadu se manteve encostado à parede e foi escorregando o corpo, até sentar- se no chão. Olhei pra ele e então me dei conta que ele poderia estar machucado.

— Você está bem? Ele te machucou?

— Ate parece né, Biel? Precisaria bem mais que isso. E eu só não dei uma boa surra nele, porque você não deixou.

Eu esfreguei a testa, me sentindo cansado e confuso. “Que merda! Será que eu não conseguiria ter paz?”

— Não ia deixar vocês se porrarem até não querer mais. Ainda mais na minha casa, no meu quarto.

— Foi mal, cara. Eu não consegui evitar, quando ele veio pra cima de mim, eu perdi a cabeça. É impressão minha ou você ficou balançado quando ele falou que a tal garota era prima dele?

Eu olhei bem nos olhos dele e sabia que mesmo que quisesse não conseguiria negar o que estava estampado na minha testa.

— Eu não esperava por isso. Na minha cabeça estava tão certo que ele já estava em outra, que o fato de não ser aquilo que eu estava pensando me desestabilizou.

— Sei qual é — respondeu ele, deixando claro que não queria se meter muito nesse assunto.

— Também, quem garante que ele não ficou com outras? Aquela até poderia ser a prima dele, mas isso não o impede de ter pegado tantas por aí — falei, tentando me convencer daquilo que eu estava dizendo.

— Pode ser, mas eu acho que não foi só isso que mexeu contigo e sim o fato dele jogar na sua cara a nossa foda e tal.

Abaixei a cabeça. Sim, era verdade. Ele falar daquela maneira que eu tinha jogado no lixo tudo de especial que tínhamos por ter transado com o Kadu, mexeu comigo. Por mais que eu soubesse que ele não tinha direito nenhum de me cobrar nada, doeu o ouvir falar daquela maneira.

— Um pouco, talvez…

— Você se arrependeu, é isso?

— Eu olhei pra ele e me apressei em falar.

— Não! Claro que não. Aconteceu porque tinha que acontecer e foi muito bom. Você não tem culpa de não ter dado certo entre o Bernardo e eu. Se terminou, isso coube a nós e só a nós.

Ele levantou e me deu a mão, me puxando ao seu encontro. Abraçou-me forte e disse:

— Se vocês tiverem que se entender, isso vai acontecer. Só saiba que eu vou estar do seu lado, como sempre estive. Eu desejo a sua felicidade e nada mais. Eu não quero que você se sinta obrigado a nada e não vou ficar no meio de vocês.

Eu sorri meio sem vontade, mas grato por ele ter me dito tais palavras.

— Valeu, Kadu. Eu sempre pude contar com você e você é muito especial pra mim.

A partir daquele dia, eu tentei esquecer tudo aquilo. Soube pelos outros que o Bernardo ia fazer um curso em outro município e me senti aliviado por isso. Seria bom pra nós dois manter essa distância, aproveitar esse afastamento para colocar os pensamentos em ordem.

Um mês se passou e aos poucos eu fui retomando a minha rotina. Dava meus treinos, ia a faculdade e tentava me esforçar ao máximo para concluir aquele período. Em pouco tempo eu iria me formar e precisava dar o melhor de mim.

Um final de semana, o Kadu passou lá em casa, me encontrando esparramado no sofá vendo TV.

— Nossa, que programaço, hein? — disse ele, sentando-se ao meu lado.

— Pra mim tá ótimo aqui, tá?

— Nossa, Biel. Tá um dia lindo lá fora. É um desperdício você ficar trancafiado em casa. Bora fazer alguma coisa?

— Hum, não. Quero ficar de boa em casa.

— Credo, que desânimo! Olha, eu vim aqui por outro motivo também.

— O que tá pegando, Kadu?

— É que aquele meu colega que tava rachando o apê comigo vai morar com a namorada e eu não consigo dar conta das despesas. O que você acha de ir pra lá?

Eu franzi a testa, me sentindo surpreso pela proposta.

— Tá me chamando pra morar contigo?

— É, morar lá no apê, dividir as paradas. Eu confio em você e a gente se dá bem. Me sentiria mais seguro se fosse você. Não queria ter que anunciar vaga de quarto. Além disso, seria bom pra você ter seu espaço, sair da barra da saia da sua mãe.

Eu olhei pra ele, me sentindo confuso.

— Ah, eu não sei Kadu. Eu e você… morando juntos...

— O que foi? Você acha o que, que seríamos um casal? Me poupe, né? Tô te chamando porque você é meu brother e não pra te amarrar. Além disso, por mais gostoso que você seja, eu não preciso ficar te caçando — disse ele sorrindo.

— Eu não sei... Acho que tenho que pensar a respeito. Eu te dou uma resposta ainda nesse fim de semana, OK?

— Tá bom, só não demora porque se você não topar, vou ter que ir atrás de alguém.

Ele ainda tentou me convencer a sair e fazer alguma coisa, mas eu estava morrendo de preguiça. Ele se foi e eu fiquei pensando por horas no que ele tinha me proposto. Quem não quer sair de casa e ter seu canto, ter liberdade e poder ser independente?

Era um desejo antigo, mas eu não sabia até que ponto isso seria positivo sendo com o Kadu. Ao mesmo tempo, eu não podia me esquecer que ele sempre foi meu amigo e aquilo que rolou somente uma vez não tinha obrigação de acontecer de novo. Nós éramos adultos e ele era um cara tranquilo, que nunca me cobrou nada e respeitava meu espaço.

Conversei com a minha mãe a respeito e apesar do drama de perder o filho mais velho pra vida, ela me apoiou. Fez-me jurar milhões de vezes que eu iria visitá-la várias vezes por semana e que eu não iria fazer do apartamento um bordel. Coisas de mãe e eu quase assinei promissória das promessas que ela me obrigou a fazer.

Naquele fim de semana mesmo eu dei a resposta a ele, que ficou radiante. Na semana seguinte eu já levei as minhas coisas e me acomodei. O quarto não era grande, mas coube a minha cama de casal e uma pequena cômoda. Não levei todas as minhas roupas ou pertences, só aqueles que eu usava mais.

Naquele dia mesmo comemoramos a minha chegada, bebendo até tarde e assistindo vários DVDs de shows. Confesso que a leveza e a alegria do Kadu me faziam rir e me sentir bem, tranquilo. Era fácil conviver com ele, que apesar de bagunceiro e péssimo cozinheiro, era parceiro e muito bem humorado.

Aos poucos fui me acostumando ao novo ambiente e já podia chamar o apartamento de minha casa. Passava o dia todo fora, só voltando bem à noite, a tempo de comer e logo ir dormir. Aos finais de semana, ele conseguia quase sempre me arrastar pra rua e acabávamos nos divertindo muito. Por insistência dele, eu fiquei com uma garota que há muito tempo vivia atrás de mim e era muito bonita de fato, mas vi que não seria nada que durasse mais que uma noite. Eu não estava preparado pra me relacionar novamente e foi bom pra eu poder me dar conta disso.

Apesar de sempre ver o Kadu rodeado de meninas, ele até que estava bem sossegado e nunca o vi levar mulher para casa. Talvez pelo fato dele achar que eu não me sentiria bem, o que eu até concordava, pois sempre gostei de ter privacidade. A vida seguia normal, sem grandes acontecimentos.

Um dia, cheguei em casa mais cedo e o encontrei deitado no sofá, adormecido vestindo somente uma cueca boxer branca. Mesmo eu fazendo barulho ao entrar, ele não despertou e mesmo sem ter a intenção de olhar, eu fiquei o observando. Ele estava deitado de bruços, com a bunda formando um grande contorno redondo no tecido. “Nossa, que bundão”. Eu constatei em pensamento. Eu sempre olhei tão rápido, desviando o olhar na maioria das vezes que nunca tinha reparado nesse atributo. As pernas levemente torneadas e com poucos pêlos, estavam abertas e um pouco flexionadas.

Sem me dar conta, meu pau foi ficando duro, enquanto eu me deixava observar ele dormindo. Ele se mexeu e eu de susto dei um pulo para trás, derrubando um copo que estava no balcão de granito que separava a sala da cozinha. Ele acordou sobressaltado e me olhou assustado, sorrindo em seguida percebendo que era eu.

— Nossa, você quer me matar?!

— Foi mal, Kadu. Eu... eu… cheguei agora.

— Tudo bem, cara. Nossa, eu tava dormindo de babar. Saiu mais cedo?

— É... eu... não vou pra faculdade hoje. Não tem aula.

— Ah, tá. Nossa, quanta animação, hein? — disse ele, apontando com a cabeça em direção ao meu pau que estava estufado na calça, formando um imenso volume. Eu fiquei vermelho na hora, tentando colocar a mochila na frente, fazendo- o rir.

— Palhaço. Eu vou tomar um banho.

Eu disse muito sem graça, me encaminhando ao banheiro. Debaixo do chuveiro, eu dei um jeito de aliviar aquele tesão todo, batendo uma punheta gostosa. Sai do banho me sentindo mais leve e controlado, e fui com a toalha envolta na cintura até o quarto. Ouvi meu celular apitar e sentei na cama, lendo as mensagens que tinha ali.

Ele apareceu na porta e falou:

— Biel, eu tô a fim de dar um rolê hoje à noite, me empresta aquela sua blusa que eu gosto?

— Pega aí, tá no armário — falei enquanto ele entrou e se dirigiu ao móvel. Fuçou, fuçou, mas não encontrou.

— Eu não tô achando. Tá aqui mesmo, não tá lavando?

— Não, eu vi ela hoje mesmo. Tá aí.

— Então é melhor você pegar pra mim ou vou fazer um zona aqui — disse ele ainda de cueca.

Aproximei-me do armário e comecei a procurar. A verdade é que ele já tinha feito uma bagunça e a blusa tinha caído atrás das outras. Peguei a peça de roupa e quando me virei para entregá-la a toalha caiu no chão, me deixando completamente nu.

Ele olhou para o meu corpo todo, de forma demorada, como se estivesse avaliando cada parte dele. Eu fiz menção de abaixar e pegar a toalha, mas quando me curvei dei de cara com o pau dele estufado na cueca. Olhei para ele novamente, que olhava para mim sério, com a boca entreaberta, respirando de maneira ofegante. Ele olhou pros meus olhos e fixou-se na minha boca.

— Biel, eu…

Capítulo 15 — Marionetes do destino

Eu me aproximei dele devagar e olhei bem nos seus olhos.

— Não fala nada. A gente não precisa disso.

— Eu não quero ver arrependimento em você de novo, nem quero ser uma pedra no seu caminho.

— Eu não me arrependi, Kadu.

— Pode ser, mas eu não quero que você surte depois. Afinal a gente tá morando junto e eu não quero estragar a relação que a gente tem.

Abaixei-me e peguei a toalha.

— É, você tem razão. Não sei o que me deu. Tá aqui a blusa, você pode pegar quando quiser.

Entreguei a blusa para ele. Ele a segurou e falou:

— Valeu. Tá bravo?

— Não (risos). Claro que não.

Eu respondi sorrindo e ele foi saindo do quarto, mas parou e falou:

— Biel, você sabe que da minha parte não ia mudar nada. Sou um cara que gosta de aproveitar os momentos e procuro não complicar as coisas. Minha preocupação é você.

— Eu sei e foi legal da sua parte. Eu às vezes ajo por impulso, mas sei que com você eu posso ficar tranquilo.

— É isso aí, brother. Bom, vou me arrumar e ir pra rua. Quer ir?

— Não. Vou ficar de boa em casa. Divirta-se — falei sorrindo.

Depois de um tempo ele saiu e eu fiquei sozinho em casa. Resolvi não me preocupar com isso e deixar rolar. Afinal, eu estava solteiro, ele também e as coisas eram bem resolvidas entre a gente. Estudei um pouco, comi alguma coisa e depois assisti a um filme na TV. Adormeci.

Algum tempo se passou, sem que nada de importante acontecesse. Minha rotina estava puxada e quase não me sobrava tempo. Via o Kadu à noite e conversávamos um pouco antes de dormir. Apesar dele andar semi nu pela casa e ter uma sensualidade natural, ele não forçava a barra pra nada, me deixando muito à vontade.

Num final de semana, resolvi andar um pouco de skate aproveitando a manhã que estava bonita. Tentei acordar o Kadu a todo custo, mas a gente tinha saído na noite anterior e estava pregado na cama. Sacudi, gritei e ameacei jogar água fria, mas ele mal abriu o olho. Por fim, deixei um bilhete dizendo onde ia.

Fui a um parque bonito da cidade e lá comecei a andar, pegando impulso e sentindo a brisa no meu rosto, completamente absorto com meus fones no ouvido. Depois de um tempo, parei próximo a um banco para descansar um pouco e perto aos quiosques, eu avistei um rapaz que eu reconheci imediatamente.

Ele estava acompanhado de algumas pessoas e ao me ver, distanciou-se delas e caminhou em minha direção.

— Não esperava te encontrar aqui.

— Muito menos eu, Bernardo. Eu achei que você estivesse em outra cidade fazendo um curso — falei, um pouco desconfortável com a presença dele ali.

— Pois é, cheguei ontem. Tá um dia tão bonito, eu resolvi dar um passeio com uns colegas de faculdade.

— Saquei — falei, sem querer prolongar muito o assunto. Na última vez que nós nos vimos o clima ficou muito tenso e eu não queria repetir qualquer cena em público.

— Por acaso você não está morando mais com a sua mãe? — perguntou ele de maneira seca.

— Por que você ta me fazendo essa pergunta?

— Porque o assunto corre, mas eu queria saber de você.

Eu respirei fundo e pensei se devia ou não responder a ele, com medo da sua reação, mas eu não estava nem um pouco a fim de ficar me escondendo. Afinal, ele não tinha nada a ver com isso.

— Eu fui morar com o Kadu.

Ele olhou pra mim revirando os olhos, demonstrando nojo da situação.

— Nossa, Gabriel, você não perdeu tempo, né? Caralho! Morar com o cara? A gente ficou um ano juntos e não fizemos isso e você em uma semana correu pra lá.

Tentei me controlar ao máximo, puxando o ar para encher meus pulmões e então falar:

— Bernardo, não é assim da maneira que você tá falando. Eu estou dividindo o apartamento com ele, não estamos juntos. E você fala como se eu tivesse te largado e corrido pra outra pessoa e você sabe que não foi assim. Já se passaram meses.

— Vai me dizer que vocês não estão transando?

— Isso não é da sua conta, mas não. Não estamos. E eu não te larguei! Acabou, muito por culpa sua.

Ele cruzou os braços contra o peito.

—Ah claro, né, Gabriel? Fácil falar que a culpa foi minha. Você foi radical e muito incompreensivo. Eu falei de uma vontade que eu tinha só para a nossa a segurança e você surtou. Além de jogar a minha falta de tempo na minha cara, sendo que eu faço Medicina. Eu pensava no nosso futuro.

— Bernardo, não se faz de vítima. Você sabe o que aconteceu. Você deixou a desejar em várias coisas, flertava com garotas na minha frente e tava mais preocupado com o seu curso que com a gente. Cara, não adianta discutir… Isso só faz mal a nós dois, será que você não percebe? A verdade é que acabou.

— Acabou pra sempre, é isso?

— Eu não sei Bernardo, eu…

Uma moça aproximou-se e chamou-o.

— Be, a gente já tá indo. Vamos?

Ele olhou pra mim, que desviei o olhar. Ficou um clima chato, um silêncio breve, mas incômodo.

— Bom, tenho que ir. A gente se fala.

— Tudo bem, valeu.

Peguei o skate e andei para longe. Depois pensei na minha falta de educação de nem ter cumprimentado a garota ou me apresentado, mas não fazia diferença alguma naquele momento. Peguei-me, me perguntando quem era aquela menina ou que tipo de relação que eles tinham, porém sabia que aquilo não era problema meu.

Voltei pra casa e encontrei o Kadu ainda adormecido na mesma posição. Acordei-o e contei o que tinha acontecido, ressaltando o meu desconforto com aquela situação toda. Ele me acalmou dizendo que agora nós dois deveríamos aprender a lidar com isso e que era para eu relaxar, deixando as coisas acontecerem. Foi o que eu fiz.

Um tempo se passou e eu mergulhei na minha rotina, me dedicando ao máximo na faculdade e no meu trabalho. Via o Bernardo às vezes na rua e em alguns lugares, mas na maioria das ocasiões eu conseguia passar despercebido.

Certa noite, estava eu e o Kadu em casa jogando vídeo-game, tomando umas cervejas. Estava frio e tinha chovido o dia todo, desanimando a gente de sair de casa. Eu estava ganhando no jogo, o que o deixava charmosamente irritado. Estávamos sentados no tapete da sala, quando de repente ele se levantou:

— Porra, eu tô morrendo de frio. Essa cerveja tá me gelando ainda mais. Precisamos de algo mais forte pra aquecer.

— Aff Kadu, põe mais um casaco, é mais fácil.

— Que mané casaco. Eu ainda tenho aquela garrafa de tequila que ganhei de Natal. Bora?

— Você e suas atitudes extremas, né? Tá bom na cerveja, pra que isso?

— Ah, Biel, você é uma bicha. Uma bicha covarde. Hahahaha!

Ele disse rindo, se encaminhado pra cozinha e voltando com um prato com limões cortados e sal, a garrafa e dois copos. Ele sentou-se novamente no chão, depositando os itens na nossa frente.

— Vai arregar, viadinho?

Ele perguntou, com o tom malicioso.

— Cara, isso não vai prestar. Eu acho que você tá querendo me embebedar para poder ganhar no jogo. Que feio, sr. Kadu.

— É, você me conhece muito bem. Agora pára de enrolar.

Ele disse, servindo as doses e me dando uma fatia de limão. Lambi o sal na mão, engoli o líquido ardente e chupei o limão em seguida.

— Arrrrghhhh! Caralho! Você é um demônio na minha vida, já te disse isso?

Perguntei, ainda me recuperando da golada que tinha dado.

— Nunca quis ir pro céu mesmo. Isso é para os chatos. Hahaha!

Ele disse rindo, servindo mais uma dose para nós dois. Bebemos e continuamos a beber, até que a garrafa chegasse à metade. Inevitavelmente, caímos no assunto sobre sexo e ele começou a contar suas peripécias.

— Eu gosto de fazer isso na pessoa.

Ele me disse maliciosamente, fazendo com que eu abrisse os olhos. Olhei pra ele e disse:

— Vou te mostrar o que eu gosto de fazer.

Puxei-o com força, fazendo-o sentar no meu colo, de frente pra mim. Abocanhei seu pescoço, sugando sua pele, mordendo em seguida. Minhas mãos apertaram a sua cintura, pressionando sua bunda contra o meu pau que estava duro como uma rocha. O fiz rebolar, com força, fazendo-o sentir a dureza do meu membro.

Arranquei sua roupa sem cuidado algum, sentindo o tecido esgarçar entre meus dedos urgentes. Mordi seu ombro e desci pelo seu peito, arranhando-o com os dentes até chegar ao seu mamilo. Suguei, puxando a pontinha com os dentes, fazendo- o gemer de olhos fechados.

Ele deitou-se na minha frente, mordendo os lábios fazendo uma cara safada, que só me incendiou ainda mais. Tentou me puxar, mas eu segurei suas mãos acima da sua cabeça e continuei a descer pela sua barriga, mordendo e chupando as laterais, metendo a língua no seu umbigo.

Mordi sua cueca e fui puxando-a, tirando-a devagar, enquanto olhava para ele. Subi novamente, arranhando sua canela com os dentes, subindo pela coxa, a qual eu mordi com força, chegando à virilha a qual eu passei a língua, mordendo em seguida. Ele gemeu mais alto, se contorcendo de tesão. Lambi seu saco, sugando as bolas devagar, para depois subir com a língua da base até a cabeça, contornando-a e sugando-a de leve. Engoli seu pau de forma faminta, chupando de maneira desajeitada, mas gulosa, o fazendo arfar em gemidos.

Narrava com desenvoltura suas aventuras, exagerando nos gestos, caras e bocas, o que me excitava muito. Eu tentava disfarçar ao máximo, controlando meus instintos, mas a bebida dificultava tudo.

— Fecha os olhos.

Ele pediu olhando para mim. Eu imediatamente fechei, sem ao menos perguntar para que. Senti a ponta da sua língua percorrer meu pescoço, subindo a minha orelha para depois a morder devagar, sugando a pontinha. Um arrepio me percorreu o corpo todo, me fazendo soltar um gemido baixo e rouco pela boca.

Chupei por alguns minutos e quando senti sua rola latejar, eu parei. Virei ele com força, colocando-o de quatro e dando um tapa forte na sua bunda.

— Ahhh! Caralho, Biel, me come, vai. Me fode agora!

— Ainda não.

Eu respondi maliciosamente, abrindo sua bunda com as mãos, exibindo o seu buraquinho que piscava loucamente. Passei a ponta da língua em volta, fazendo-o praticamente urrar. Fiquei brincando, provocando, até que esfreguei a língua com força no seu cú, que se contraiu imediatamente junto a um gemido alto dele. Linguei, chupei e me demorei ali, experimentando as sensações que isso causava nele. Nunca tinha feito isso e não era a coisa mais agradável do mundo, mas o jeito que ele demonstrava estar louco com aquilo, me enlouquecia também. Peguei seu pau, que babava muito e o punhetei de leve, fazendo- o gritar.

— Por favor, pelo amor de Deus, me fode. Eu não aguento mais, tô pra gozar já.

Então eu sorri, posicionando minha rola na entradinha e esfregando com força, sentindo as preguinhas piscarem na cabeça do meu pau. Segurei com força a sua cintura e forcei, fazendo entrar a cabeça. Ele se contraiu, apertando os olhos, mas puxando a minha coxa, fazendo entrar ainda mais. Atendi o seu pedido, dando uma estocada forte, fazendo entrar o resto.

Ele gemeu alto, mordendo os lábios e apertando com força a minha perna em sinal de dor. Parei um pouco até que ele se acostumasse e assim que senti que era o momento, tirei ate a cabeça, rodando a pica devagar e voltei a enfiar. Comecei a bombar forte, entrando e saindo de dentro dele, lhe dando uns tapas na bunda que só aumentavam o volume dos seus gemidos.

O fodi com vontade, batendo com o meu saco contra a sua bunda, sentindo minha rola ir fundo nele. Puxei-o com força pelo cabelo, fazendo suas costas grudarem suadas no meu peito e o fiz rebolar, enquanto mordia a sua nuca. Ele jogava a cabeça para trás, gemendo muito e me incentivando a continuar.

Saí de dentro dele e o joguei no chão, de barriga pra cima, levantando suas pernas e enfiando-me novamente dentro dele. Minha boca encontrou a sua e nos beijamos de maneira faminta, com as línguas enroscadas, alternando quem sugava qual. Ele arranhava minhas costas, envolvendo a minha cintura com as pernas, fazendo com que eu entrasse ainda mais fundo.

Eu revezava os movimentos, ora mais rápidos e depois mais lentos, rodando o quadril quando me encontrava totalmente enterrado no seu cu. Ele se contorcia, mordia meu ombro, me xingava e implorava que eu continuasse.

Então eu retomava as estocadas mais fortes e mais rápidas, para depois torturá-lo mais um pouco. Não se dizer quanto tempo ficamos ali, transando intensamente, sem nos preocuparmos com mais nada.

Senti que não dava mais pra segurar, que nós dois estávamos no limite do nosso tesão. Então o segurei com força e bombei mais rápido e profundo, ouvindo seus gemidos ficarem tão urgentes quanto os meus, segurando suas mãos, até que explodimos praticamente juntos em um orgasmo absurdamente intenso. Ele esporrou na minha barriga, jatos longos e espessos, sem ao menos se tocar, enquanto eu inundei seu cu com tanta porra que chegou a escorrer.

Caí por cima dele exausto e ofegante, sentindo ele praticamente desfalecido embaixo de mim. Dormimos ali mesmo no chão da sala, embolados, com os corpos quentes e suados, sentindo-nos leves e satisfeitos.

No dia seguinte acordamos, e a naturalidade com que o Kadu agiu, não me deixou constrangido ou preocupado com o que rolou. Nem falamos sobre o ocorrido, somente as marcas em nossos corpos denunciavam o que tinha acontecido entre nós. Com ele tudo era tão leve e natural, que eu me sentia feliz de ter essa relação de “amizade colorida” com ele.

No fim de semana, tínhamos um churrasco para ir em comemoração ao aniversário de uma amiga. Chegamos à chácara da sua família, que era um pouco afastada da cidade, ainda no começo da tarde. Cumprimentamos a todos e nos sentamos com o grupinho de sempre.

Algum tempo depois, avistei o Bernardo chegar acompanhado de uma garota, aquela que estava com ele no parque. Disfarçadamente eu levantei, indo até a churrasqueira com a desculpa de pegar algo pra comer. Enrolei por lá, batendo papo com algumas pessoas, até eles vieram até ali. Não tinha como eu sair novamente, sem demonstrar que era proposital, então me mantive parado.

— Oi Gabriel, eu queria te apresentar a minha namorada, a Débora.

Capítulo 16 — A paz vem disfarçada em nuvens de chuva

Eu fiquei olhando para ele incrédulo, sem conseguir disfarçar a minha surpresa com o que ele tinha acabado de me dizer.

— Namorada? — perguntei, sem acreditar naquilo tudo.

— É, a gente começou a namorar há pouco tempo — respondeu ele um pouco sem graça, tentando manter a naturalidade.

— Oi, Gabriel. É um prazer te conhecer. Eu já te vi algumas vezes, mas nós não tínhamos sido apresentados ainda — disse ela sorrindo, enquanto eu a olhava com a boca meio aberta, completamente sem ação.

— Ah... prazer.

Foi só o que eu consegui dizer.

— Debby, pega uma cerveja pra mim, por favor? Tô com uma sede!

Ele pediu, dando um selinho na boca dela na minha frente. Eu fiquei olhando a cena, me amaldiçoando por ainda não ter saído dali.

— Bonita ela, né?

Ele perguntou, ironicamente.

— O que, Bernardo? Como é que é? Namorando? E ainda tem a cara de pau de me perguntar se é bonita?! Vai tomar no cu, seu babaca!

Eu disse e fui saindo, mas ele entrou na frente.

— Calma! Eu não tô entendendo essa sua reação. Não foi você quem terminou comigo? Que falou que não dava mais certo e que não adiantava mais discutir? Parti pra outra. Você achou que eu ia ficar trás de você pra sempre?

Ele falou, olhando bem nos meus olhos, com aqueles olhos esverdeados que estavam estranhamente mais claros naquele dia. Eu olhei de volta, sério, para depois abrir um sorriso.

— Tem razão. Ela é muito bonita, sim. E espero que você seja feliz. Parabéns, o prêmio de hétero convicto e enrustido vai pra você.

Eu disse e saí em seguida. Fui andando, me afastando de todos até chegar a um pequeno lago. Sentei na grama e fiquei pensativo. Como ele pôde esfregar a garota na minha cara? Babaca! Estranho como tudo foi acabar assim, dessa maneira tão ridícula. Vai ver ele tinha razão em partir pra outra, esquecer tudo que tinha acontecido.

Nem vi quanto tempo se passou, enquanto eu estava ali perdido nos meus devaneios. O sol estava perto de se pôr. Senti alguém sentando do meu lado e quando olhei, era o Kadu.

— Você tá bem? — perguntou ele preocupado.

— Não sei...

— Eu tava te procurando já faz tempo. Você sumiu. O que houve? Tem a ver com o Bernardo e a tal garota, né?

— Ah, Kadu. Eu não sei porque isso ainda me afeta, era óbvio que eu devia esperar por algo assim. Acho que eu achei que ele fosse ter um pouco de respeito depois de tudo, mas parece que não. Ele veio me apresentar a namorada, acredita? Mas ele tá certo em partir pra outra. Era o que ele queria, ficar com garotas, voltar a ser hétero… sei lá. E pensar que foi ele que começou tudo isso. Eu tinha uma vida normal e agora, me tornei um viado... sei lá...

Ele me olhou e sorriu.

— Você não acredita nessa bobagem, né? Você não virou um viado (risos). A atração já existia, ele só a despertou em você. E você continua o mesmo, um homenzarrão, bruto, ogro... lindo.

Ele disse me olhando, sorrindo pra mim. Sorri de volta.

— Desculpa… eu nem sei o que eu tô falando. É claro que isso não tem nada a ver e eu nem me arrependo de nada, não. Só criou uma confusão na minha cabeça, mas você tem me ajudado tanto, em tantas coisas. Eu nem tenho como te agradecer por tudo. Valeu, Kadu.

— Que isso, Biel. Você é... Nossa… eu...

Ele ia falando, mas foi interrompido por uma voz familiar.

— Olhaaa! O casalzinho assistindo o pôr de sol juntinhos! Que lindo!!!

Eu me sobressaltei e olhei para o Bernardo que praticamente gritava, segurando uma garrafa de uísque na mão direita.

— Tá louco, Bernardo?! O que você veio fazer aqui? Você tá bêbado?

Eu perguntei, me levantando.

— Tô e daí? Não fuja do assunto, seu desgraçado! Você querendo me dar lição de moral, mas já rolava essa palhaçada com esse cara enquanto a gente tava junto. Me largou pra poder ficar com o seu amiguinho aí.

— Bernardo, pára com isso. Isso daqui não é lugar pra esse tipo de conversa e você tá embriagado. Cadê sua namorada?

— Não põe a Debora nisso. Essa conversa é entre nós três.

Ele voltou a atenção pro Kadu, que até aquele momento só observava.

— Tá satisfeito, seu filho da puta? Conseguiu o que queria. Tirou o Gabriel de mim, tá morando com ele, deve estar se acabando de dar esse rabo imundo! Eu nunca te engoli. Você acha que quando a gente era moleque eu não via a maneira que você olhava pra ele?!

— Você teve a sua chance, cara. Não vem me culpar pelo seu fracasso. Se você tivesse cuidado bem do que tinha, não teria perdido nem pra mim, nem pra ninguém.

O Kadu falou, ligeiramente irritado. Eu olhava ao redor, vendo se alguém se aproximava, receoso daquela cena toda.

— Pára com essa merda, Bernardo! Você já não tá namorando, feliz? Pra que tudo isso?

Eu perguntei estressado, tentando acabar com aquilo de uma vez por todas.

— Pra que? Porque eu não consigo ver vocês dois juntos! É demais pra mim. Que você me trocasse por qualquer pessoa, menos por ele. Eu não engulo isso!

— Você não tem que engolir nada! Você fez as suas escolhas e eu as minhas. Agora volta pra sua mulher, que ela deve tá te procurando. E vai curar essa sua bebedeira, porque pra um futuro médico com uma carreira tão promissora, não pega nada bem esse tipo de cena.

Eu falei, de forma sarcástica.

— Não antes de acertar as contas por aqui.

Ele disse, partindo imediatamente pra cima do Kadu, que desprevenido caiu no chão, fazendo com que os dois rolassem pela grama, até caírem no lago. Eu corri para poder separar, me jogando na água de roupa e tudo, sem me importar com os pertences que estavam no meu bolso. A lama que existia no fundo atolava os pés, dificultando os movimentos e as mãos escorregavam por estarem molhadas. Entre socos e empurrões, cada hora um tentava afogar o outro, mas o Bernardo por estar embriagado, estava em desvantagem, apanhando bastante do Kadu.

Alguém viu e avisou ao resto das pessoas, que vinham correndo agitadas para ver aquela confusão. Pronto, o circo estava armado. Eu agarrei o Bernardo por trás, tentando puxá-lo para acabar com aquela briga sem propósito, mas ele por reflexo me acertou uma cotovelada na costela, que me tirou o fôlego. Cambaleei para trás, afundando na água barrenta do lago.

Novamente recuperei o equilíbrio, irritado e saturado daquela confusão e não pensei duas vezes: acertei um soco na cara do Bernardo, que caiu desacordado na água. Apressei-me em puxá-lo á tona para que ele não se afogasse.

— Porra, Biel, esse soco era meu.

O Kadu falou, exaltado.

— Cala boca e me ajuda a tirar ele daqui.

Juntos, levamos ele para a margem, onde todas as pessoas do churrasco já esperavam por nós. Alguns amigos nos ajudaram a puxar ele pra fora e deitá-lo na grama. A namorada dele estava muito nervosa e eu só queria sair dali, mas não faria isso até saber se ele estava bem.

— Biel, o que aconteceu?

Um amigo nosso perguntou, enquanto se agachava do meu lado.

— Coisa de gente bêbada.

Resumi-me a falar, me debruçando em cima do Bernardo. Dei uns tapas na cara dele para que ele despertasse e assim que ele abriu os olhos, eu disse:

— Babaca!

E me levantei, me afastando daquele tumulto. Entrei no carro, todo molhado e enlameado, esperando pelo o Kadu. Ele me olhou pela janela e falou:

— Porra, vai sujar o carro todo!

— Foda-se, Kadu. Eu só quero ir embora daqui. Entra logo!

Eu falei irritado, não deixando outra opção a não ser que ele entrasse no veículo e então fomos embora. No caminho ele se desculpou pelo ocorrido, mas na verdade ele só revidou a agressão do Bernardo. Ele bem que mereceu umas porradas. Eu só me perguntava quando aquilo tudo iria acabar, quando eu simplesmente teria paz. A vontade que eu tinha era de me afastar de tudo e de todos, mas isso só seria fugir do problema e não resolvê-lo.

Uns dois dias depois, eu estava saindo da academia quando vi o Bernardo encostado sob o capô do meu carro. Travei meu corpo, já esperando por mais confusão, mas ele parecia estranhamente tranquilo. O rosto exibia alguns hematomas e a boca ainda estava um pouco inchada da surra que ele tinha levado do Kadu e do soco que eu tinha lhe dado.

— O que você está fazendo aqui, Bernardo? Pelo amor de Deus, cara! Chega de confusão, eu não aguento mais isso.

— Calma, Biel. Eu vim em missão de paz. Será que a gente pode conversar? Eu não vim pra brigar, eu juro.

Abri o carro e nós entramos. Fiquei olhando pra frente, evitando fitá-lo.

— Fala logo.

Eu vim me desculpar. Eu agi mal naquele dia… acabei bebendo demais e perdi a cabeça. Tenta entender que pra mim é difícil essa situação toda. Ver vocês dois juntos é como uma faca enfiada aqui dentro, machuca demais.

Respirei fundo e olhei pra ele.

— Nós não estamos juntos, Bernardo. Eu e o Kadu somos amigos. Ao contrário do que você pensa, eu não te troquei. Não é possível que mesmo depois desse tempo todo você não enxergue seus erros.

Ele abaixou a cabeça e depois me olhou.

— Sim, eu enxergo. Eu sei que eu não te dei a atenção que você merecia, sei que tive medo daquilo que a gente tinha. Pra mim é doloroso ver que te perdi… mas, eu não quero mais brigar.

— Você acha que pra mim foi fácil te ver com aquela garota? Você não teve um pingo de respeito comigo. Meu Deus, Bernardo você gosta dessa menina? Ou tá usando ela pra me fazer ciúmes, pra me esquecer? Seja sincero.

Ele novamente abaixou a cabeça. Respirou fundo e então começou a falar:

— Eu gosto, mas não a amo. Ela surgiu num momento que eu me sentia carente, perdido, sofrendo. Vi nela uma tábua de salvação e depois que eu soube que você estava morando com ele, me apressei em seguir adiante… eu preciso tentar te esquecer já que você não me quer mais.

— Eu acho que você não sabe o que você quer, Bernardo. E enquanto for assim, não existe qualquer futuro pra gente. Eu só te peço pra parar com tantas brigas, isso daí só nos faz mal, não resolve nada. Se você assumiu o namoro com essa garota, tente de verdade ser feliz com ela. Não a use porque com certeza ela não merece isso. Nem tente levar uma vida dupla, porque isso não é justo com ninguém. Honre as suas escolhas.

Eu disse, olhando para ele.

— Tudo bem, Biel. Espero que pelo menos a gente possa ser amigos ou colegas, pelo menos…

— Vamos deixar as coisas acontecerem naturalmente, Bernardo. Eu só quero paz pra nós dois.

Ele assentiu com a cabeça e estendeu a mão. Eu apertei e ele sorriu timidamente, fazendo com que eu fizesse o mesmo. Ele saiu do carro e eu ainda fiquei um tempo ali, pensando em tudo que conversamos. É, poderia ser um novo começo para nós dois ou pelo menos o fim de tantos problemas. Fui para casa e contei ao Kadu o que tinha acontecido e ele mais uma vez foi conciliador, dizendo que era o melhor para nós dois que a paz reinasse entre nós.

No dia seguinte, eu acordei mais tarde ouvindo vozes vindas da sala. Coloquei um short, pois tenho a mania de dormir completamente nu e fui ver o que estava acontecendo. Havia uma garota parada na soleira da porta, gesticulando nervosamente e discutindo com o Kadu. Aproveitei que nenhum dos dois me viu e pensei em voltar para o quarto, mas confesso que a curiosidade foi maior e então, me pus a ouvir do corredor.

— Cara, eu só quero que você seja sincero comigo. O que tá acontecendo? Você não me procura mais, não responde as minhas mensagens, foge de mim. Você nunca fez isso!

— Kamila, a gente nunca teve compromisso algum, você sabe disso.

Ele falava, aparentando tranquilidade.

— Eu sei que não, mas poxa, a gente sempre teve um lance legal. Eu sei que você ficava com outras pessoas, mas mesmo assim nunca deixou de sair comigo. Agora eu não te vejo mais com ninguém e simplesmente não quer mais nada comigo. Surgiu outra pessoa?

— Não…

— Você está gostando de alguém?

— Estou...

— Como assim, Kadu? Você tá apaixonado por alguém?!

— Estou…

Ele respondeu em tom de confissão, fazendo meu sangue gelar nas minhas veias. Agora eu não podia fingir que não tinha ouvido. Eu precisava saber se a tal pessoa era quem eu mais temia.

Capítulo 17 — O coração não precisa de explicações ou razões

Fiquei parado, petrificado no corredor ouvindo aquela confissão que soou tão estranha aos meus ouvidos. O Kadu sempre me contou tudo, se ele estava apaixonado por alguém, eu deveria saber.

— Quem é a pessoa?

A garota perguntou, apreensiva.

— Isso cabe somente a mim. Olha, Kamila, eu não quero te magoar. Vamos deixar as coisas acontecerem como sempre foi, tá?

— Se você não quer falar, eu não posso te obrigar. Saiba que eu gosto de você e vou estar onde sempre estive quando você quiser me procurar. Vou indo…

E então eu ouvi um silêncio e o barulho da porta se fechando. Caminhei até a sala e esperei ele se virar. Ele se sobressaltou ao me ver.

— Nossa, Biel! Que susto, cara! Há quanto tempo você tá aí?

— Tempo suficiente pra ouvir o que você acabou de dizer. Como assim, você está apaixonado? Por quem, Kadu?

Eu perguntei, esperando uma resposta, que obviamente não veio. Ele ficou mudo, me olhando de forma assustada, com certeza pensando freneticamente no que dizer.

— Ah… eu falei isso pra poder me livrar dela. Eu não queria mais ficar com ela e foi a forma que eu encontrei…

Eu me aproximei e olhei bem nos olhos dele.

— É verdade isso ou você vai começar a mentir pra mim?

Ele desviou o olhar e foi para a cozinha, mas eu o segui.

— Eu to esperando, Kadu.

Ele continuou de costas para mim, com a geladeira aberta sem pegar nada dentro dela.

— Eu já te falei… é isso.

Eu continuei parado ao lado do balcão da cozinha, esperando ele falar mais alguma coisa, mas isso não aconteceu. Dei de ombros e voltei para o quarto. Deitei na cama e fiquei pensando no que eu ouvi e no que eu não tinha escutado. Ele podia estar falando a verdade, mas algo em mim me dizia que ele estava me escondendo algo e isso me incomodava bastante.

A gente não tinha segredos um com o outro e não queria que isso começasse agora. Porém eu não podia obrigar a ele me falar o que ele não queria e não me restava outra opção a não ser respeitar o espaço dele.

O resto da semana passou, assim como as outras sem maiores acontecimentos. A rotina estava corrida como sempre, meus horários de aula cada vez mais loucos faziam com que eu quase não parasse em casa.

Um dia estava na academia, supervisionando o salão, quando sinto uma mão no meu ombro. Olhei e me surpreendi ao constatar que era o Bernardo. Ele estava vestindo uma blusa de dry fit azul e uma bermuda, sorrindo ao olhar pra mim.

— O que você está fazendo aqui, Bernardo?

— Como sempre o seu bom humor matinal me cativa. Bom dia pra você também.

— Eu não tô mal humorado, só tô surpreso de te ver por aqui. Aconteceu alguma coisa?

Perguntei, sério.

— Aconteceu. Resolvi tomar vergonha na cara e me matriculei na academia. Você vivia me dizendo que sou sedentário e acho que você tem razão.

— Hã? Péra… Desde que você voltou dos Estados Unidos, você nem sequer cogitou a ideia de pisar numa academia, nem durante o tempo que a gente… você sabe… e agora você resolveu malhar? E logo aqui?

— Essa é perto de casa e é claro que eu vim atrás do melhor personal que existe: você.

Eu arregalei os olhos e caí na gargalhada.

— Hahahahaha! Ah tá… senta lá, Cláudia! Você só pode estar brincando.

— Não tô, não. Sério Biel, eu preciso malhar, me exercitar. Eu quero cuidar da saúde dos outros, então tenho que começar pela minha. Eu não tenho muito tempo, então preciso de um profissional e você é o melhor que eu conheço. Topa?

Eu olhei pra ele espremendo os olhos, do tipo “Oi?”

— Claro… que não! Vai se foder, Bernardo! Tanta academia por aí, você tem que escolher logo a minha? E você acha que eu vou ser seu personal? Só pode ser piada. Vá na recepção que lá eles tem uma lista de profissionais e escolha outro. Agora dá licença, que eu to ocupado.

Saí andando, mas ele foi atrás de mim.

— Nossa, você é um cavalo mesmo. Eu não quero outro, eu quero você.

Eu me virei e olhei bem pros olhos dele.

— O que?

— Como personal, é claro. Pô, Biel, seja profissional, separe as coisas. Eu posso pagar mais do que você cobra porque eu confio no seu trabalho…

— Ei, péra… Você tá querendo me comprar? Que porra é essa? Bernardo, eu vou meter a mão na sua cara!

— Não! Nossa, Gabriel, você é difícil, hein cara? Eu tô te falando que não me importo de pagar mais caro porque sei que você é melhor. Eu só quero orientação para me exercitar, não é possível que você negue isso. Profissionalismo, lembra? Você mesmo falou que poderíamos ser colegas, conviver numa boa. Você tem medo do quê?

Eu olhei pra ele, sem argumentos no momento, sabendo que ele havia me vencido no cansaço.

— Não tenho medo de nada, seu merda! Olha Bernardo, eu vou fazer porque realmente sou profissional e sei separar as coisas. Se você vier com alguma gracinha ou me tirar do sério, além de parar com o trabalho, eu te marco a cara de novo. Entendeu?

— Tá! Eu vou me comportar, até porque somos amigos agora. Nada a ver, né? Eu sou comprometido, você sabe.

Ele falou essas últimas palavras com tanto orgulho, que eu quase perdi a paciência, mas sabia que não podia ceder as provocações dele. Eu iria mostrar a ele que eu poderia ser superior a esses detalhes ridículos.

— Claro. Vem, eu tenho que fazer a sua avaliação.

— Ah, sim.

Ele respondeu com uma alegria que me fez revirar os olhos.

Entramos na sala de avaliação física e fechei a porta. Liguei o computador e comecei a preencher os dados dele.

— Tira a camisa, por favor.

Pedi, sério. Ele, no entanto, abriu um sorriso que fez com a minha vontade de quebrar seus dentes chegasse ao limite. Ele começou a tirar o short e eu praticamente berrei:

— Não precisa tirar o short!

Ele se sobressaltou e falou, meio sem graça:

— Ah, tá. Desculpa.

Revirei os olhos mais uma vez.

Aproximei-me com a fita métrica e comecei pelos braços. O mais afastado possível, tirava as medidas e as passava para o computador. Virei ele de costas e medi as mesmas. Ele virava o rosto e sorria, mas eu ignorava, me mantendo sério. Virei ele novamente de frente e passei a fita pela sua barriga, medindo seu abdômen, me amaldiçoando por ter que encostar as mãos na sua pele quente e quando levantei os olhos, encontrei os dele. Ele virou a cabeça pro lado sorrindo e eu continuei o meu trabalho.

Respirei fundo e passei a fita na sua coxa, me concentrando em tirar a medida, mas isso era uma tarefa árdua para mim e eu sei que ele estava percebendo isso. Sorria o tempo todo, tentando parar quando eu o encarava, mas demostrando satisfação com aquilo tudo.

Deixei a parte mais difícil para o final: o quadril. Sentia seus olhos em mim, mas foquei no que eu estava fazendo, tentando demonstrar naturalidade. Ele ficou imóvel e vi que sua pele se arrepiou quando passei a fita em torno do seu quadril, resvalando na sua bunda e consequentemente no seu pau. Tentei ser ligeiro, passando rapidamente os dados para o computador.

— Acho que o Sr. Profissionalismo corou. (risos)

Ele afirmou, com um sorriso malicioso nos lábios.

— Vai tomar no cu, seu desgraçado. Tá precisando de óculos, é? Mais uma gracinha eu vou te deixar sua cara corada na base da porrada.

Esbravejei e ele se calou.

Encaminhei-o até a balança e depois medi a sua altura, completando as informações que faltavam para fazer a avaliação.

— Qual é o seu objetivo?

Perguntei para ele, sério.

— Ah, eu acho que eu tenho que ganhar um pouco de massa, né? Apesar de sedentário, eu não estou fora de forma, como você pode ver, mas um pouco de músculos é sempre bom. Não acha?

— Quem tem que achar é você, não eu. Vou trabalhar em cima do seu objetivo. Você já pode vestir sua camisa.

Respondi seco.

— Ah, claro.

Ele disse, sorrindo. Voltamos novamente ao salão e falei para ele:

— Bom, você já pode ir. Vou estudar a sua avaliação e preparar um treino em cima dela. Esteja aqui amanhã às 7h. É um horário vago que eu tenho.

— Cedo, né?

— Você ainda pode desistir.

Eu falei, esperançoso.

— Não, não. Estarei aqui. Vai ser bom para começar o dia. Muito obrigado, Biel.

— Tchau.

Eu respondi seco e virei as costas, voltando para as minhas atividades.

O resto do dia eu fiquei pensando naquilo. Era muita falta de sorte ou muita marotice do destino pregar peças desse tipo. Já que eu aceitei, eu iria fazer da forma mais profissional possível. Só esperava conseguir essa proeza.

No dia seguinte, pontualmente, ele estava lá. Arrependi-me de ter aceitado aquela loucura, mas era tarde demais pra voltar atrás. Ele com certeza não ele aceitaria uma recusa naquele momento e eu sabia que ainda iria me arrepender muitas vezes de ter cedido.

— Achou que eu não viria, né?

Ele perguntou, sorrindo.

— Eu tinha certeza que sim. Bom, vamos começar logo que eu tenho um dia cheio.

Encaminhei-o para esteira e fiz com que se aquecesse. Depois fomos pro primeiro aparelho e eu ensinei como fazia. Pus a carga e ele começou a fazer o exercício. Fui intensificando a série, passando para outros aparelhos e utilizando materiais próprios pro treino. Diverti-me vendo o seu sofrimento e o suor que aumentava de acordo com os exercícios.

Pô, Biel, pega leve, né? Não é muito pro primeiro dia, não?

— Faz o que eu mando e não reclama. Você que quis isso. Bora, mais 15 repetições.

Eu falei seco, enquanto ele se esforçava pra dar conta do recado, embora eu tivesse quase certeza que muitas vezes ele errava os movimentos, só para que eu o tocasse corrigindo-o. No final do treino, ele estava acabado. Respirava com dificuldade, suando bastante e eu me sentia estranhamente vitorioso.

— Porra, você acabou comigo. Fez de propósito, né?

Ele perguntou, secando o suor com a camiseta.

— Eu fiz o meu trabalho. Confesso que ele é bem recompensador às vezes. Quando você quer marcar o próximo?

— Eu marcaria pra amanhã, mas tenho certeza que não vou conseguir nem andar depois disso daqui. Então pode ser pra depois da amanhã no mesmo horário. Acho que 3 vezes por semana está de bom tamanho.

— Por mim, tudo bem. Tá marcado. Tenho que ir.

Eu disse, já virando as costas para que ele não tivesse tempo pra prolongar aquela conversa.

— Ei, não tem um tempinho pra tomar um suco?

Ele perguntou, amistosamente.

— Vai pro inferno.

Eu disse calmo, sem nem olhar pra trás.

Passei o dia entre treinos e pequenos intervalos e depois fui pra faculdade, só chegando tarde da noite em casa. Tinha um bilhete do Kadu avisando que tinha saído e provavelmente não voltaria àquela noite, o que eu estranhei um pouco, mas pensei que poderia se tratar de uma mulher ou uma nova conquista. Fazia muito tempo que não o via com ninguém e de certa forma o fato dele não dormir em casa me causava alívio e desconforto, que eu não sabia explicar por quê.

No dia seguinte não tinha que dar treino tão cedo e resolvi dormir mais um pouco. Acordei, fui à cozinha beber um copo de água e me sobressaltei ao ouvir a porta da sala se abrindo. O Kadu e mais um rapaz entraram rindo, numa intimidade evidente. Quando eles me viram ali, pairou um silêncio no ar. Então ele resolveu se pronunciar:

— Ah… Oi, Biel. Eu não sabia que você estava em casa a essa hora….

Eu continuei quieto e sério, somente olhando para ele e depois pro rapaz que me encarava com naturalidade.

— Ah… esse é o Bruno…

O tal cara me cumprimentou à distância, fazendo com que eu me limitasse a responder com um aceno de cabeça. O Kadu voltou a sua atenção pro rapaz e eles começaram a ensaiar uma despedida. Eu sei que eu deveria ter voltado pro meu quarto e ter deixado eles à vontade, mas eu simplesmente não consegui.

— Bom, eu vou nessa, então. Me liga mais tarde?

O cara falou pro Kadu com um sorriso enigmático nos lábios.

— Eu ligo sim...

— Gostei muito da noite…

— Eu também, Bruno…

O Kadu respondeu, meio sem graça. O cara foi embora e então ele fechou a porta, me olhando com uma aparente tranquilidade.

— Não teve treino essa manhã?

— Não.

Eu respondi no automático.

— Entendi. Bom, eu vou tomar um banho. Ainda tenho que ir trabalhar.

Ele foi pro banheiro e eu continuei parado no meio da cozinha, me sentindo estranhamente incomodado. Fui atrás dele, que já se encontrava embaixo do chuveiro.

— Kadu, quem é esse cara?

Eu perguntei seco.

— Uow, Biel. Que susto! É um conhecido… um amigo.

— Amigo? Que amigo é esse que eu nunca vi? Kadu, vocês dormiram juntos?

Eu perguntei, não conseguindo conter a ansiedade.

— Hã?

Ele perguntou, se fazendo de desentendido.

— Você transou com ele?!

Capítulo 18 — Tudo se torna estranho e confuso

Ele me olhou, espantado. Parou de ensaboar o corpo e me falou:

— Porque você tá agindo assim, Biel?

— Assim, como?

— Tá bravo. Praticamente gritando, exigindo uma explicação.

Eu olhei pra ele um tanto sem graça e só então me dei conta que tinha exagerado. Levantei as mãos numa tentativa de explicar, mas as deixei cair novamente sem que as palavras me viessem à boca. Ele desligou o chuveiro e pegou a toalha.

— O que foi, Biel?

Ele me perguntou, enquanto secava o corpo.

— Nada, Kadu. Desculpa se pareci bravo… é que me preocupo com você. Só quis saber, mas se você não quiser falar, eu entendo.

— Não, tudo bem. Só me assustei com o jeito que você falou. Eu dormi com ele, sim. Conheci ele faz pouco tempo e ontem rolou pela primeira vez.

Senti meu peito apertar, estrangulando meu coração. Por que estava me sentindo assim? Sempre soube que o Kadu tinha seus relacionamentos e isso nunca me causou nada.

— É que eu achei que você estava apaixonado por m…

Eu falei, sem pensar.

— Apaixonado por quem?

Ele perguntou, olhando fixamente pra mim, enquanto eu não conseguia encará-lo nos olhos.

Não podia falar que pateticamente achei que ele pudesse estar apaixonado por mim, já que estava evidente que não.

— Ah, sei lá Kadu. Eu não acreditei muito quando você me falou que não estava apaixonado, depois de ter afirmado pra aquela garota que estava. A não ser que você esteja apaixonado por esse cara. Está?

Ele soltou uma sonora gargalhada e enrolou a toalha na cintura.

— Hahahahahahhaha! Ah, Biel… tenho que rir. Desde quando eu me apaixono? Ainda mais por alguém que conheci outro dia. O Bruno é um cara legal, bonito e tal, mas é uma distração. Se eu não te conhecesse bem, eu diria que você está com ciúmes.

Fechei a cara e falei, sério:

— Não seja ridículo!

Saí do banheiro e fui para o meu quarto.

Deitei-me e coloquei as mãos atrás da cabeça. É claro que eu estava com ciúmes, só não entendia muito bem o por quê. Ele apareceu na porta do quarto, somente de cueca boxer branca.

— Ei… Quer conversar?

— Conversar sobre o que?

Ele se aproximou e sentou na beirada da cama. Olhou nos meus olhos e sorriu.

— Não precisa ficar bravo, Biel. Eu falei brincando. Eu sei que você não sente ciúmes de mim, só está preocupado comigo. Mesmo se fosse ciúmes, seria sem sentido algum. Você é uma das pessoas mais importantes na minha vida e meu coração não tem espaço pra mais ninguém.

Ele me olhava, enquanto meus olhos, mesmo contra a minha vontade, estudavam suas feições, descendo lentamente pelo seu corpo. Voltei o olhar novamente nos seus olhos.

— Por que você tá me falando essas coisas?

Eu perguntei, perdido no desenho dos seus lábios.

— Porque eu quero que você saiba o quanto é especial pra mim e que eu nunca estragaria nada entre a gente… nunca…

Ele disse se aproximando mais de mim, com o rosto estranhamente próximo ao meu. Fiquei imóvel, com a boca semi-aberta. Então ele se afastou, como que se tivesse recobrado a consciência.

— Nossa, vou me atrasar pro trabalho.

Ele disse, levantando em seguida e saindo do quarto.

Eu continuei ali parado, estático, me sentindo estranhamente confuso. Não havia entendido direito o que ele quis dizer com aquelas coisas e tampouco o meu ciúme despropositado. Afastei tais pensamentos da minha cabeça e fui para o chuveiro, tomar uma ducha e começar o dia. Ouvi ele se despedir a distância e respirei aliviado. Era melhor esquecer aquela conversa e tudo mais. Éramos amigos e era isso que importava.

O dia passou e a noite, cheguei tão cansado que logo dormi. Não tinha necessidade de retomar aquele assunto, visto que era confuso pra mim. No dia seguinte, o Bernardo estava lá na academia à minha espera, dolorido e reclamão. Mais uma vez peguei pesado, fazendo com que ele não tivesse folego para argumentar ou puxar assunto. Tudo correu de maneira normal e assim foi assim durante os outros dias. Já estava me acostumando a treiná-lo e a lidar com o desconforto daquela situação. Ignorava as suas gracinhas e o colocava para suar para compensar a raiva que eu sentia dele.

No fim de semana fomos a um barzinho encontrar a galera. Estávamos ocupando uma mesa grande, animada e a musica ao vivo embalava o ambiente. Avistei o Bernardo chegar com a sua namorada a tira colo e disfarcei meu descontentamento. Ter o mesmo grupo de amigos e morar tão próximos ocasionava situações assim. Eles cumprimentaram a todos e o papo seguia animado.

Depois de um tempo, vi o Kadu se levantar e ir até um rapaz que logo reconheci sendo o tal Bruno. Eles conversavam amigavelmente, sorrindo, enquanto eu os observava a distância. Levantei-me e fui até a varanda do bar pegar um pouco de ar. Sem querer, me peguei olhando os dois novamente, de cara fechada e então senti uma presença ao meu lado.

— O Kadu não perde tempo mesmo, né? Já te trocou por outro.

O Bernardo disse, em tom de deboche.

— Como que é? Do que você está falando?

— Ué, Biel. Ele tá ali de papinho com aquele cara, dá pra perceber que não é só um amiguinho corriqueiro.

Ele disse, sorrindo.

— Cala a boca, Bernardo! O que você tem a ver com isso?

— Não tenho nada. Só foi uma observação. Eu achei que vocês estavam juntos, mas pelo jeito não, né? O Kadu não tem pudor de se jogar pra outro cara na frente dos outros.

Eu olhei pra ele bravo. Quem ele pensava que era pra falar essas coisas?

— Larga a mão de ser preconceituoso, cara. O Kadu não tá fazendo nada demais, só está conversando com um conhecido. Você tá falando isso só porque sabe que ele é bi. Ninguém nem tá vendo com esses olhos. Quem deveria se envergonhar é você, por pensar assim.

Ele sorriu, cruzando os braços.

— Eita, calma. Eu não sou preconceituoso, afinal olha o que aconteceu entre a gente. Não é nada que eu me arrependa, muito pelo contrário. Por mim estávamos juntos até hoje. O Kadu que sempre levantou a bandeira que não pertence a ninguém, é porra louca…

Ele disse olhando nos meus olhos. Desviei o olhar.

— Você não tem nada mais o que fazer, não? Cadê a sua namorada?

— Ela tá lá dentro.

Ele respondeu com tranquilidade.

— E o que você tá fazendo aqui, então? Vá ficar com ela e me deixe em paz. Que merda!

— Nossa, Gabriel! Como você é grosso! Se eu tô aqui, é porque eu quero estar aqui… com você.

— E se eu tô aqui é porque eu quero ficar sozinho.

Eu falei irritado, coçando a região da pélvis.

— Já é a quinta vez que te vejo coçando aí. Tá com alguma coisa?

— Era só o que me faltava!I Isso não é problema seu, Bernardo.

— Fala, Biel.

Eu revirei os olhos, descontente com aquela insistência. Virei às costas, largando-o sozinho e me dirigi ao banheiro. Realmente aquela coceira estava me incomodando há dias e só estava piorando. Fui até o mictório e comecei a urinar. Olhei bem pro meu pênis, que estava avermelhado e com algumas pintinhas. Senti alguém do meu lado e quando vi, era o Bernardo novamente.

— Meu Deus, o que você tá fazendo aqui agora?!

Eu perguntei, me apressando em guardar meu pau novamente na cueca.

— Me mostra.

— Mostrar o quê?

Eu perguntei, me fazendo de desentendido.

— Biel, eu sei que você tá com alguma parada aí. Eu quero ver, posso ajudar.

— Pode é o caralho. Você nem é médico ainda e mesmo se fosse, com certeza essa não seria a sua especialidade.

— Eu não sou ainda, mas já tenho noção de muitas coisas. Deixa-me ver, não tem nada ai que eu não tenha visto. Vamos, anda.

Eu olhei pra ele contrariado, mas por fim cedi. Realmente estava incomodando e ele podia ajudar. Sei que ali estava uma desculpa implícita para ver meu pau, mas não tinha porque temer. Abri a calça novamente e pus o meu membro para fora, olhando nos olhos dele. Ele olhou bem nos meus olhos e depois olhou para baixo. Ficou analisando por alguns segundos e depois sorriu.

— Mudou o sabão em pó ou amaciante de roupas?

Ele perguntou com naturalidade.

— Eu tô usando um lá que o Kadu comprou, por quê?

— Porque está te dando alergia. Muda os dois por precaução e usa a pomada que vou te passar. Te mando o nome por SMS, ta?

— Tá… valeu.

— Disponha e vê se me dá um desconto nos treinos.

Ele disse sorrindo, me fazendo sorrir também.

— O que está acontecendo aqui?

Eu me sobressaltei com a pergunta e só então me dei conta que eu não tinha guardado meu pau. O Kadu estava parado na porta, esperando pela resposta enquanto eu me apressava em fechar a calça, de maneira desajeitada e aflita. O Bernardo sorriu e saiu do banheiro, sem falar uma palavra sequer. Antes de sair, passou pelo o Kadu e o encarou de forma instigante e deixou o recinto. “Filho da puta”, eu o xinguei mentalmente, me dirigindo a pia para lavar as mãos.

— Biel... não vai me responder?

— Responder o que, Kadu?

Eu devolvi a pergunta, lavando as mãos.

— Sei lá, eu entro no banheiro, tá você de pau pra fora na frente do Bernardo… que porra é essa?

— Não é nada demais. Eu estou com uma alergia e ele só deu uma olhada. Só.

— Ah... só. E desde quando o Bernardo entende de alergia? Você nem me falou nada sobre isso. Tá com alergia há quanto tempo?

— Eu nem sabia que se tratava de uma alergia. Ele está fazendo Medicina, já começou a residência. Olhou e falou que é por causa de sabão em pó ou amaciante. Você fica fazendo essas economias porcas, dá nisso.

Eu respondi, secando as mãos.

— Ah, claro. A culpa de alguma forma tinha que ser minha, né?

— Eu não disse isso. Só que vai ter que trocar. Cadê seu amiguinho? Ele deve estar sentindo a sua falta.

Eu disse, saindo do banheiro. Não estava a fim de continuar aquela conversa. Na verdade me sentia estranho em relação a tudo. O melhor que eu tinha a fazer era ir embora.

Não me despedi de ninguém, só dando um tchau coletivo. O Kadu pra variar não estava na mesa e eu não me preocupei em procurar. Antes de entrar no carro, ouvi meu celular apitar e era a mensagem do Bernardo falando o nome da tal pomada.

Passei na farmácia antes de ir pra casa e comprei o medicamento. Tomei um banho ao chegar e apliquei o produto. Estava quase pegando no sono, quando ouvi um barulho na porta. Levantei e fui até o corredor. Infelizmente, o meu péssimo habito recém adquirido de ouvir conversas estava virando rotina. Identifiquei as vozes como sendo do Kadu e do tal do Bruno.

— Valeu pela carona.

— Não vai me convidar pra entrar?

— Ah não, não vai dar. O Biel tá em casa.

— Mas vocês tem quartos separados, não tem nada a ver. Deixa, vai? Você fazendo jogo duro comigo. Resistiu naquela noite, nem quis… você sabe. Tô começando a achar que você não é tão a fim de mim quanto eu sou de você.

— Não é isso, Bruno. É que naquela noite eu não tava na vibe e aqui não rola.

— Tá, então vamos pra outro lugar… um motel, que tal?

— Hoje não…

— O que foi? Tem mais alguém, é isso?

— Não… eu só tô meio cansado.

— Kadu, seja sincero comigo. Poxa, eu tô gostando de você. É o Gabriel? É isso? O que rola entre vocês?

— Não, por que você está falando isso? A gente é amigo.

— Hum... sabe que você olha de uma maneira pra ele, que nunca olhou pra mim. Acho que rola mais do que você tá me dizendo. Pode ser que não da parte dele, mas da sua com certeza.

— Bruno, por favor, tá tarde. Amanhã ou outro dia a gente conversa. Pode ser?

— Tudo bem, não vou mais insistir. Quando você tiver a fim, me procura.

Então eu ouvi a porta se fechando e corri de volta pro meu quarto. Joguei-me na cama e fingi que estava adormecido, e não demorou muito pra ouvir batidas na minha porta. Ele entrou e eu abri os olhos, encarando-o.

— Cara, o que deu em você pra ir embora e me largar lá?

— Eu estava cansado. Só isso.

— Custava avisar?

— Você tava de papinho com aquele cara, não quis atrapalhar.

— Nada a ver. Eu só estava conversando com ele. Não fui eu que estava no banheiro mostrando o pau pro ex namorado.

— Kadu, eu te expliquei o que aconteceu…

— Para, Biel! Cara, o que é isso? A gente nem devia tá tendo essa conversa... Você tem a sua vida e eu tenho a minha. A gente sempre se respeitou, nunca teve essa cobrança entre a gente.

— Eu sei, mas a gente já está tendo essa conversa, então não foge. O que tá pegando?

Do que você tá falando, Biel?

— Senta aí. Vamos conversar.

Ele me olhou um pouco desconfiado, mas acabou sentando. Dava para sentir a tensão no ar, mas o nosso relacionamento estava ficando cada vez mais estranho e a gente precisava tentar resolver antes que aquilo crescesse ainda mais.

— Kadu, você tá agindo estranho e não negue, por favor. Parece que você está me escondendo algo. E você tem mentido pra mim, que eu sei.

— Como assim?

— Você me falou que tinha rolado com esse cara aí e não rolou nada.

— Você tava ouvindo a minha conversa de novo?!

Capítulo 19 — Nada é por acaso.

Engoli em seco. E agora, como iria responder que realmente estava ouvindo a conversa dele do corredor?

— Vamos, Biel… Tô esperando.

Respirei fundo e falei:

— Eu confesso, Kadu. Sim, eu ouvi a sua conversa com ele. Eu sei que isso é horrível, uma tremenda falta de educação e de respeito, mas foi mais forte que eu.

Ele me olhou, bravo e decepcionado.

— Porra, Biel… Caralho… Se a gente não pode ter privacidade dentro da própria casa, vai ter aonde?

— Eu sei, Kadu, eu errei. Você tem todo o direito de ficar chateado comigo por causa disso, mas você também errou, mentiu pra mim. O que você tem a dizer sobre isso?

Ele desviou o olhar, se acomodando na beirada da cama.

— Eu dormi com ele, não menti quanto a isso.

— Então por que falou que tinha rolado pela primeira vez, quando não tinha?

— Eu não tô entendendo porque você está tão preocupado com isso, Biel. Cara, que diferença faz se eu transei ou não com ele?

— Pra mim faz…

Eu disse, olhando bem nos olhos dele que retribuiu o olhar com intensidade.

— Por que?

Eu continuei sustentando o olhar, sentindo minha respiração ficar mais ofegante.

— Porque… porque me preocupo com você. Me dói saber que você se entrega assim, pra qualquer um, por diversão.

— Não é pra qualquer um, mas eu sou livre quanto a isso. Me assusta o fato de eu deixar de ser, de me apaixonar por alguém e me tornar refém desse sentimento.

Olhei pra ele e perguntei:

— E você está apaixonado?

Ele abaixou a cabeça e então tornou a olhar pra mim.

— Eu não quero mentir pra você, então não me pergunta mais sobre isso. É algo meu e eu não quero compartilhar. Por favor, entenda.

— Tudo bem, eu não pergunto mais, mas não mente mais pra mim.

— Não vou, mas não escute mais atrás da porta, no corredor, seja onde for, OK?

— Ta bom.

Eu concordei, rindo. Ele sorriu e saiu do quarto.

Continuei deitado, pensando que na verdade aquela conversa não tinha chegado a lugar nenhum. Continuava com as mesmas dúvidas, com a mesma confusão na minha mente, mas não podia forçar uma situação. Eu sempre odiei me sentir pressionado a qualquer coisa na minha vida e não podia fazer isso com ele.

No dia seguinte, dei alguns treinos de manhã e de tarde resolvi dar uma volta de skate no parque. Estava uma tarde agradável, com o clima ameno e ensolarado. Andei bastante e por fim sentei na beira do lado para descansar. Tinha um pequeno pacote de bolachas no meu bolso e fui moendo com as mãos, jogando aos patos que ali nadavam.

De repente ouvi um barulho, um grito meio abafado e quando olhei vi uma pessoa levando um tombo cinematográfico a poucos metros de mim. Assustei-me e me surpreendi quando me dei conta que não era ninguém menos que o Bernardo. Não me movi, olhando com a boca aberta ele se levantar, todo desajeitado e fazendo careta de dor. Não me controlei comecei a rir.

— Porra, você nem pra me ajudar.

Ele falou, massageando o joelho sujo de terra, esboçando dor.

— Meu Deus, Bernardo. Você é o Mestre dos Magos, é? O que você táa fazendo aqui?

— Eu tava seguindo os conselhos do meu personal e resolvi me exercitar, e então te avistei de longe e resolvi vir falar com você. Não vi a merda daquele buraco e tomei um pacote com a bicicleta.

— Hahahahahaha!

Eu ri, sem conseguir me controlar.

— Para de rir, caralho! Eu não sei controlar bem essa coisa.

Ele disse, fingindo irritação. Trouxe a bicicleta mais pra perto, encostando ela na grama. Sentou-se ao meu lado.

— Você tá bem?

Perguntei, ainda rindo um pouco.

— Tô, obrigado por perguntar.

Ele disse, cedendo ao cômico da situação e rindo também.

— Devia ter filmado essa cena. Você decolou com a bicicleta na versão mais desajeitada de E.T., o Extraterrestre. Hahahahaha!

— É, eu tentei chegar triunfante e garotão com a bike e deu nisso. (risos)

— Foi engraçado, Bernardo.

— É, garanti sua diversão. E você, o que veio fazer aqui?

— Eu vim dar uma volta e aproveitar a tarde que estava bonita.

— E alimentar os patos, né Biel? (risos)

Eu sorri, jogando as últimas migalhas que havia na minha mão. Fiquei olhando os patos comerem e até mesmo disputarem por aqueles pedaços de bolachas e continuei a sorrir.

— Será que você ainda sabe atirar pedras como quando a gente era moleque?

— Claro que eu sei.

Eu respondi, sorrindo.

— Eu era bem melhor que você. Garanto que eu continuo sendo.

Ele disse, pegando uma pedra e a arremessando, fazendo-a quicar algumas vezes sobre a água, assustando os patos.

— Nossa Bernardo, você quase acertou o coitado do pato.

— Putz, foi mal. (risos) Sua vez, faça melhor.

Ele me entregou uma pedra, me desafiando. Eu o olhei com um olhar maroto e arremessei a pedra com toda a habilidade que eu não tinha. A pedra quicou poucas vezes e logo afundou. É obvio que a dele tinha ido mais longe, fazendo com que ele risse de mim.

— Ahhh, continuo o campeão de todos os tempos. Hahahaha!

— Como você se acha, hein?

Eu disse fingindo desdém, mas rindo no final.

— Eu não me acho, eu sou. (risos) Mas eu também sei ser muito generoso. Tem uma técnica, é a maneira que você segura a pedra. Olha.

Ele segurou a minha mão, colocando a pedra sobre ela. Posicionou o objeto, apertando-a sob a minha pele como se quisesse dar firmeza a pegada. Juntou o braço ao meu, esticando-o para mirar o alvo. Olhei pra ele, que estava concentrado em me mostrar a posição do braço e como a minha mão deveria girar dando impulso a pedra. Ele olhou pra mim e ficamos assim, nos encarando por alguns minutos, até que eu acordei daquela pequena hipnose e voltei o meu olhar pra frente.

Atirei a pedra, que foi bem mais longe que a primeira vez. Sorri e olhei de volta pra ele que sorriu também.

— Viu? Bem melhor. Tenta você sozinho agora.

Eu peguei outra pedra e fiz todo o movimento que ele tinha me ensinado. Atirei e dessa vez foi melhor ainda.

— Acho que alguém vai perder o trono. (risos)

— Ah tá, se acha, né? Só fui generoso em ensinar a técnica, mas tem o talento e esse eu tenho de sobra. (risos)

— Afff, Bernardo. (risos)

Eu disse rindo, fazendo com que ele risse também.

— Bom, já está anoitecendo, é melhor eu ir.

— Poxa, Biel… Fica mais um pouco. Fazia tanto tempo que a gente não passava um tempo assim… de paz, sorrisos…

Ele pediu com afetuosidade.

— Algum conhecido seu pode passar aqui e achar que somos um casal feliz e aí, Bernardo? Você tem uma reputação a zelar.

Eu disse, pegando o meu skate e me afastando. Ele veio até a mim, empurrando a bicicleta.

— Porra, Gabriel! Porque você fala essas coisas? A gente tava tendo um momento tão legal e você parece que quer estragar tudo.

— Eu? Eu só não esqueci as coisas que você fez. Não é um momento agradável que faz apagar todos os outros que você me fez sofrer, cara.

— Eu também sofri…

Eu olhei pra ele, que me olhava triste. Puxei o ar e falei:

— Cuida desse joelho, Bernardo. Não vou aliviar na segunda-feira.

E virei as costas, sem olhar pra trás.

Fui embora pensando o quanto eu conseguia ser cruel às vezes, mas eu não podia simplesmente ignorar tudo que tinha acontecido. Ele tinha dilacerado meu coração duas vezes e eu não ia deixar que isso acontecesse uma terceira.

Cheguei em casa e ao abrir a porta me choquei com o que eu vi. A Jaqueline, minha ex namorada, estava sentada no sofá ao lado do Kadu, que me encarava com cara de quem não sabia o que fazer. Encostei o skate na parede, tentando me refazer daquela surpresa, até que finalmente falei:

— Jackie?

Ela sorriu e levantou-se, vindo em minha direção.

— Oi, Biel. Quanto tempo, né?

— Sim, muito tempo… mas o que você está fazendo aqui?

— Ah, eu passei pra uma faculdade em outra cidade e passei esse tempo todo lá, agora estou de volta. Soube que você estava morando aqui e vim fazer uma visita. Fiz mal?

Ela perguntou, um pouco sem graça.

— Não. Eu só estou surpreso.

Olhei pro Kadu, que estava atrás dela fazendo um gesto com as mãos como se não tivesse culpa.

— Eu trouxe uma garrafa de vinho, aquele que você gosta. Eu achei que a gente podia tomar e colocar o papo em dia. O que você acha?

Ah… tudo bem, eu só vou tomar um banho. Pode ser?

— Claro, fica à vontade. Eu espero.

Ela disse, com um sorriso encantador.

Fui até o banheiro e logo me despi, entrando embaixo do chuveiro. Estava me ensaboando, pensando naquela travessura do destino e como a vida conseguia ser bizarra às vezes. Vi a porta abrindo e logo me encolhi atrás do vidro de blindex transparente, tentando esconder em vão o corpo, me amaldiçoando por ter esquecido de trancar a porta. Me senti aliviado ao ver que se tratava do Kadu e não dela.

— Ei, calma sou eu. Nossa cara, que isso hein? Quando ela tocou a campainha quase cai pra trás. Nem reconheci, ela tá ainda mais linda.

— Porra Kadu, você podia ter me ligado, né? Me preparado. Eu quase tive um infarto.

— Ligar como? Ela ficou do meu lado o tempo todo. E ela pediu pra te esperar. O que você queria? Que eu fechasse a porta na cara dela?

— Tudo bem, agora já era… O que eu faço? Você vai ficar aqui comigo, né?

— Eu? De jeito nenhum. Falei pra ela que vim aqui te avisar que to de saída. Se vira, meu irmão.

Eu fechei o chuveiro, pegando a toalha.

— Ah não, Kadu, por favor. Quebra essa, vai? Eu não quero ficar sozinho com ela, é muito desconfortável essa situação.

— Hahahaha, eu não quero nem saber. Vou sair e você juízo, hein? Usa camisinha.

— Hã?!

— Calma, Biel. Tô brincando. Eu sei que você honra nosso acordo. Oh, boa sorte, tá? (risos)

Ele disse, dando uma piscadela com o olho e saindo do banheiro.

Respirei fundo e enrolei a toalha na cintura, indo até o quarto me vestir. Coloquei uma blusa e uma bermuda, ajeitando os cabelos com as mãos e fui até a sala encontrá-la.

— Demorei?

Perguntei, com um sorriso sem graça.

— Uma eternidade. (risos)

Fui até a cozinha, abri o vinho e voltei com duas taças. A servi primeiro e depois a mim, e sentei ao seu lado.

— Nossa, você tá tão bonito. O tempo só te fez bem.

Ela disse, me fazendo corar. Mudei drasticamente o assunto.

— Então, como vai a faculdade?

— Ah Biel, você sabe que Veterinária sempre foi uma vocação, né? Estudar na rural tem sido um aprendizado e tanto. Estou em recesso de alguns meses e só vou voltar pra defender a monografia. E você, indo bem?

— Sim, estou quase me formando também. Tô trabalhando bastante, me ocupando boa parte do tempo.

Eu respondi. Fomos conversando assuntos aleatórios, entre uma golada e outra. Ela contou das coisas que aconteceram com ela lá e como foi a adaptação na outra cidade, já que passou a morar numa república de garotas. Eu, em contrapartida, contei da academia que dava aula e de como era morar com o Kadu, largando a saia da mamãe.

Ela sorria, mexendo nos cabelos, esbanjando charme e feminilidade. Eu sorria também, tentando disfarçar ao máximo o desconforto que sentia e confesso que o vinho estava ajudando nisso. Depois de algum tempo, pedimos uma pizza e nos sentamos no chão da sala para comer. Comemos algumas fatias e retornamos as taças de vinho, finalizando a garrafa.

— Acho que agora eu acredito que você realmente não tinha ninguém quando terminou comigo.

Ela falou, sorvendo um gole de vinho.

Achei, inocentemente, que aquele assunto não viria à tona, mas estava enganado. Senti-me culpado, pois aquilo não era verdade, porém o que mais eu poderia falar?

— Jackie, isso já tem muito tempo. Eu acredito que você teve outros caras e eu também segui com a minha vida. Espero que possamos ser amigos, eu gosto muito de você.

— Claro. Eu só tenho boas lembranças de ti e quero muito ser sua amiga. Eu to falando porque você nunca mais assumiu ninguém e eu achei que talvez eu tivesse ficado marcada na sua vida, que seu amor fosse realmente eu.

Eu abaixei a cabeça tentando pensar em algo pra dizer. Não queria magoá-la, mas também não podia dizer a verdade.

— Eu não assumi ninguém porque não era a hora certa e tenha certeza que te guardo sim num lugar muito especial no meu coração. Também só tenho boas lembranças e você foi muito especial na minha vida. Só que já passou muito tempo e eu tô bem assim como eu estou.

Ela esboçou um olhar decepcionado, mas logo sorriu para disfarçar tal descontentamento.

— Eu entendo. Bom, eu acho que já vou indo, mas vamos marcar de sair, conversar. Eu gosto muito de você. Não quero mais ficar distante. Eu não te esqueci e duvido que algum dia isso vá acontecer.

— Claro, Jackie. Vamos sim.

Eu respondi rápido, não prolongando aquele assunto.

Eu levantei, levando-a até a porta. Abraçamos-nos e antes de sair ela colou os lábios levemente aos meus, sorrindo em seguida.

— Pelos velhos tempos.

Ela disse e saiu.

Fechei a porta e pensei naquilo. Ela estava ainda mais bonita, tornando-se uma mulher exuberante. Só que eu não podia voltar atrás, nem tinha o direito de magoá-la estando na situação que estava. Já tinha problemas demais e não queria mais um.

No dia seguinte acordei e passei o dia na casa da minha mãe. Mandei uma mensagem para o Kadu avisando que iria dormir lá para curtir um pouco a velha e meu irmão, mas perto de meia-noite eu me lembrei que tinha marcado com uma aluna muito cedo e meu tênis estava no apartamento. Resolvi voltar.

Chegando ao apartamento, eu me deparei com uma cena que me tirou o folego. O Kadu estava dormindo só de cueca abraçado com o tal do Bruno, também semi nu, no sofá. Fiquei olhando, atônito sem entender aquilo.

— Que porra é essa?

Eles acordaram, sobressaltados.

— Biel?

Capítulo 20 — O mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder

Fiquei olhando os dois levantarem do sofá, afobados.

— Biel… não é o que você tá pensando…

O Kadu falou com nervosismo.

— Claro que não.

Eu respondi seco, indo para o meu quarto.

Peguei a minha mochila e comecei a colocar algumas roupas e pertences, com raiva e nojo da cena que eu tinha presenciado na sala. Eu sabia que no fundo eu não tinha direito algum de me sentir assim , mas eu me sentia. Eu nem conseguia pensar com clareza, a única coisa que eu queria era sair dali o mais rápido possível.

— O que você tá fazendo, Biel?

Ele me perguntou, parado na soleira da porta. Olhei com um olhar fulminante e respondi, seco:

— Eu vou embora.

— Embora??? Do que você está falando? Por que?

— Por que? Porque eu não preciso chegar em casa e dar de cara com você e um outro seminus, abraçados no sofá. Se você tá trazendo caras pra cá, não tem mais lugar pra mim aqui.

Eu disse, indo até o armário pegar algumas coisas.

— Não, você entendeu tudo errado. Não rolou nada. A gente chegou ensopado por causa do temporal que caiu e eu pus as roupas na secadora. Na espera a gente acabou dormindo. Foi só. Ele já até foi embora.

— Ah tá, Kadu. Você quer que eu acredite que não rolou nada nesse meio tempo? Nem um beijo, nem uns amassos?

— Não rolou, Biel. Eu tô falando a verdade. Eu não ia quebrar nosso acordo. Eu sei que não foi nada feito formalmente, mas a gente nunca trouxe outras pessoas pra cá pra não causar desconforto, não é? Eu não iria mentir pra você.

Eu joguei as coisas em cima da cama e olhei bem pra ele.

— Não é de hoje que você tá mentindo pra mim. Vai ser melhor pra nós dois… isso já tá fugindo do controle.

Peguei a mochila e tentei passar por ele, mas ele se colocou na frente.

— Não! Por favor, não vai. O que tá acontecendo? Por que você ta reagindo assim?

Eu olhei pra ele, com raiva.

— Eu só não quero mais presenciar esse tipo de cena. Você pode ficar com quem você quiser, sou eu que tô invadindo a sua privacidade. Sai da minha frente!

Eu disse, empurrando-o

— Espera! Você não pode ir embora assim. Caralho… a gente é amigo, sempre foi parceiro um do outro. Já te disse, não rolou nada! Você nunca ligou pros caras que eu fiquei e agora tá assim… Espera!

— Me solta, Kadu!

— Não vou soltar. Você não vai embora! Por que você tá agindo assim? Tá com ciúmes, por acaso?!

— Tô! Satisfeito?

Ele me segurou e eu me desvencilhei. Ele tentou novamente me segurar e a gente começou a se debater, enquanto um tentava segurar e outro tentava se soltar e eu o empurrei contra a parede.

— Chega!

Eu gritei, olhando nos olhos dele.

Ele me olhou nos olhos e num impulso me beijou. Na minha cabeça eu queria ter empurrado ele, mas o que aconteceu foi justamente o contrário. Prensei-o com mais força contra a parede, beijando ele com violência. Minha boca se moldava a dele, enquanto as línguas se enroscavam e se sugavam mutuamente. Eu descarregava toda a minha raiva naquele beijo, que era intenso e avassalador.

Ele puxava minha blusa com força, quase a rasgando, fazendo meu corpo se colar ao dele. Eu apertava sua cintura, me livrando inconscientemente do seu short e da cueca boxer que havia embaixo. Minha boca percorria seu pescoço, esfregando a minha barba, arranhando com os dentes, puxando seu cabelo pra trás para morder seu queixo e novamente abocanhar a sua boca, engolindo-a com ferocidade.

Em poucos minutos estávamos completamente nus, meu corpo pressionando o dele contra a parede, enquanto as bocas se devoravam famintas. Virei ele de frente para o concreto, espalmando suas mãos na parede, mordendo a sua nuca, a sua orelha.

— Eu sou louco por você…

Ele falou de maneira rouca, com os olhos fechados.

Eu apertei sua bunda com força, abrindo-a e fazendo meu membro se encaixar na entradinha do seu orifício. Sarrei-o gostoso, fazendo um vai e vem com o quadril, enquanto mordia seu ombro. Ele empinou um pouco a bunda, pressionando para trás, então eu forcei, penetrando-o. Ele se contraiu, apertando os olhos em sinal de dor. Investi com mais força, segurando a sua cintura.

— Ai ai ahh aiiii caralho, tá me rasgando... Aiiiii!

Eu ignorei e continuei enfiando, sentindo suas pregas se distenderem, enquanto ele apertava minha coxa, espremendo os olhos.

— Aiiiiiiiii porraaaa…. aiiiiiiiiiii arrrrrrhhhh…. aiiiiiiiiiiiii.

Quando senti que estava tudo dentro, esperei um pouco e comecei a tirar para logo em seguida enfiar novamente, arrancando-lhe gemidos doloridos. Mordia sua nuca e estocava com força, segurando sua cintura. Ele jogava a cabeça pra trás, suado, com os olhos fechados. Puxei seu cabelo, fazendo sua cabeça encostar-se ao meu ombro e fui beijando seu pescoço, enquanto meu quadril se ondulava e meu pau entrava e saia de dentro dele. Minha mão arranhou seu peito, descendo pela barriga até segurar sua pica e a punhetar com firmeza, seguindo os movimentos da minha pélvis.

Sai de dentro dele e o virei de frente pra mim. Beijei sua boca com paixão, sugando a sua língua, sentindo meus lábios deslizarem pelos seus. Minhas mãos escorregaram pelas suas costelas, alcançando a sua bunda a qual eu apertei com força e puxei pra cima, suspendo-o do chão. Ele entrelaçou as pernas em volta do meu quadril, segurando em meus ombros, sem descolar sua boca da minha. Levei-o para o sofá e deitei por cima dele, me encaixando entre suas pernas.

Olhei bem nos olhos dele e fui pressionando meu quadril para frente, sentindo-o acompanhar o movimento me trazendo com as pernas, fazendo com que eu voltasse a penetrá-lo. Ele gemeu rouco, fechando os olhos, sentindo cada centímetro da minha pica entrar dentro dele. Ao sentir entrar tudo, pressionei mais e rodei o quadril, fazendo com que ele arranhasse minhas costas, enquanto mordia meu ombro, delirando de prazer.

Logo os movimentos ficaram mais intensos, fazendo nossos corpos suarem juntos, enquanto eu o fodia com força. Os gemidos saíam de forma natural, denunciando todo o tesão que sentíamos. Beijava seu pescoço, mordendo e chupando em seguida, chocando meu corpo contra o dele. Ele gemia cada vez mais rápido e urgente, anunciando que o orgasmo estava próximo.

Cravei as unhas na sua bunda e acelerei os movimentos, sentindo que eu não iria aguentar muito tempo. Ele apertou minha nuca, abrindo a boca, revirando os olhos em prazer.

— Ahh caralho... aaarrrrrrhhhhhh... ahhhhh… arrhhhh! Eu tô sentindo… aaarrrrhhh poorraaaa… não páraaa… aaaaarrrrrrrhhhhhhhhhhhhhhh aaaaaaaaaarrrrrrrrrhhhhhhhh, asssimmmm, arrrhhhhhhhhhhhh!

Então meti com força, sem parar, sentindo meu gozo se anunciar. Ele urrou, me apertando, enquanto seus jatos atingiam minha barriga em grande número sem que ele se tocasse. As contrações do seu ânus me fizeram explodir em um orgasmo intenso, inundando seu reto de porra. Nossos corpos se debatiam em espasmos e o ar parecia fugir dos pulmões. Permaneci dentro dele, enquanto tentava recuperar o fôlego, com a cabeça afundada em seu pescoço.

Ele afagou meus cabelos e depois o puxou, chegando com a boca perto do meu ouvido e falando roucamente.

— Não sai. Continua…

Olhei nos seus olhos e sorri, movimentando o quadril, fazendo-o arfar novamente.

Novamente recomeçamos a transar e assim permanecemos durante um bom tempo até que chegamos ao ápice do prazer e mais uma vez tivemos um orgasmo intenso. Adormecemos juntos, embolados no sofá, sem nos preocupar com os corpos suados e melados, visto que estávamos exaustos demais para isso.

Acordei com o som do interfone, mas me recusei a me mexer. Sentia-me dopado de sono e mal conseguia abrir os olhos. O Kadu acordou, coçando os olhos. Percebendo a insistência do aparelho, rolou por cima de mim e foi atender, ainda pelado. Mantive-me deitado, de olhos fechados.

— Quem?

Ele perguntou ao interfone, com súbito estranhamento. Depois voltou-se a mim:

— Biel, Bieeeel?

— Fala…

Respondi ainda de olhos fechados e com voz sonolenta.

— O Bernado está aí embaixo.

— Hã?

Eu perguntei, abrindo os olhos subitamente.

— É, o Bernardo está aí embaixo. Deixo ele subir?

— Tá louco, Kadu?!

Eu disse, praticamente pulando do sofá, sentindo uma dor incômoda na nuca.

— Ai, caralho... O que ele tá fazendo aqui?!

Perguntei, massageando o pescoço.

— Sei lá, Biel. Me responde você.

— Também não faço ideia. Pede pra ele esperar, por favor.

Eu pedi, me encaminhando nu para o banheiro. Tomei uma ducha rápida e depois avaliei as marcas que a aquela noite tinham deixado no meu corpo. “É, com o Kadu o sistema é pegada bruta” pensei.

Fui para o quarto e vesti uma roupa, pegando um agasalho de moletom e fechando o zíper até o pescoço. Voltei pra sala e encontrei o Kadu deitado no sofá, ainda nu.

— Eu vou lá ver o que ele quer.

— Tá. Boa sorte.

— Vai ficar ai assim?

— Eu ainda não acordei.

Ele respondeu, fechando novamente os olhos.

— Tá. A gente ainda precisa conversar, agora com a cabeça mais fria.

— Tá, Biel. A gente faz isso depois, tá? Vai lá atender seu ex-namorado.

Ele disse, com uma ironia implícita.

Desci e encontrei o Bernardo encostado ao portão do prédio. Fechei ainda mais o zíper do casaco, colocando o capuz.

— Bernardo, o que você tá fazendo aqui?

Ele se virou e me olhou.

— O que eu tô fazendo aqui?! Você já olhou que horas são? Você me deixou plantado naquela academia te esperando por mais de uma hora. O que foi que aconteceu?

Eu arregalei os olhos e só então me dei conta que tinha esquecido completamente de dar o treino pra ele.

— Eu perdi a hora…

Eu falei, sem graça.

— Perdeu a hora? Porra, Biel! Qual é, mano? Eu tenho meus compromissos também, sabia?

— Desculpa, Bernardo… Eu… eu nem sei o que te falar. Foi mal mesmo.

— Tá, né?

Cocei a cabeça, tentando pensar em algo pra consertar aquela situação.

— Olha, eu posso te dar o treino agora. Você tem tempo?

— Já tô aqui mesmo, pronto pra isso. Bora, então. Te dou uma carona.

Fomos no carro dele e em poucos minutos chegamos na academia. Fiz com que ele se aquecesse na esteira e depois fui indicando os aparelhos. Ele suava e fazia caretas de dor, mas eu não aliviava.

— Ei, você não vai tirar esse casaco, não? Mó calor.

— Não, eu tô bem assim.

De fato eu estava morrendo de calor, mas se eu tirasse o casaco ele poderia ver as marcas da noite anterior e eu não estava a fim de me explicar. Encerrei o treino e peguei minha mochila pra ir embora, mas ele me alcançou antes de eu chegar a saída.

— Biel, a gente pode conversar um minuto?

— Ah, Bernardo… eu tenho que ir.

— É só um instante. Poxa, é o mínimo depois de você ter me deixado esperando.

Eu olhei pra ele e revirei os olhos. Ele sabia ser chantagista quando queria.

— Tá bom. Um minuto, OK?

Eu falei, massageando a nuca e ele concordou com a cabeça.

Sentamos na cantina da academia e pedimos um suco.

— Tá com torcicolo?

— Eu dormi meio torto. O que você quer falar?

Eu perguntei, dando um gole na bebida.

— Eu tô pensando em terminar com a Debora.

— E porque você tá me falando isso?

— Ah Biel, eu sei que não somo mais amigos como antigamente, mas eu ainda te vejo assim.

Eu olhei pra ele sem saber ao certo o que dizer. Respirei fundo e falei:

— Por que você vai fazer isso?

— Porque não quero magoá-la. Eu não a amo.

— Então é melhor ser sincero com ela, Bernardo. O amor só é válido quando se ama a dois.

— Você tem razão. É o que eu vou fazer. Obrigado por me ouvir.

— Tudo bem. (risos)

Eu disse, sorrindo.

Voltei pra casa e o Kadu não estava mais lá. Pensei comigo: “Hoje vamos ter que ter uma conversa séria e isso não pode mais ser adiado”. Resolvi algumas coisas, arrumei a casa e fiquei esperando por ele. Quando a porta se abriu e ele entrou, estava sentado no sofá a sua espera.

— Kadu, precisamos conversar e tem que ser agora.

Capítulo 21 — Quem é vivo sempre aparece

Eu sabia que aquela conversa seria definitiva e não estava disposto a enrolar. Ele ficou parado diante da porta, sobressaltado com o tom da minha voz. Vi nos olhos dele que ele tinha consciência que não poderia mais fugir daquele assunto. Sentou no sofá e eu sentei ao seu lado.

— Kadu, vamos esclarecer as coisas. Eu quero que você seja absolutamente sincero comigo, assim como eu prometo que serei com você. Certo?

— Tudo bem.

Olhei mais uma vez para ele e então comecei a falar:

— Eu sei que o que rola entre a gente é bom, gostoso e pode ter certeza que eu gosto muito, mas eu acho que as coisas estão fugindo ao nosso controle. Você tem estado estranho comigo, com atitudes suspeitas e eu por minha vez estou me tornando possessivo contigo, o que eu sei que não tenho o menor direito.

Parei de falar e olhei nos olhos dele. Ele me encarava, sem dizer uma palavra sequer.

— Eu não quero estragar a nossa amizade, a leveza da nossa relação, a cumplicidade que a gente sempre teve. Por isso eu vou te fazer uma pergunta e quero a verdade. O que você sente por mim, Kadu?

Ele olhou pra baixo e depois novamente tornou a me fitar.

— Eu te amo, Biel.

Aquelas palavras me causaram calafrios que percorreram todo meu corpo.

— Me ama como amigo?

— Sim. Sobretudo como um amigo, mas te amo como homem. Eu te amo como eu nunca amei ninguém.

Eu olhei pra ele com os olhos arregalados, como se aquela revelação tivesse me acertado como um soco no estômago.

— Fica calmo, Biel. Não vai mudar nada. Eu te amo, sim. Porém, não quero nada além da sua amizade. Eu não quero um relacionamento sério e acho que isso só estragaria a nossa relação. E eu sei que você ainda nutre sentimentos pelo Bernardo e eu nunca quis ficar entre vocês. Vamos deixar tudo como está.

Eu olhei para baixo, esfregando a cabeça com as mãos. Eu era o primeiro a não querer que as coisas mudassem, mas admitia que eu mesmo não sabia ao certo o que sentia por ele. Só tinha uma solução para aquela situação.

— Kadu, eu vou embora.

— Hã? O que? Não! Você tá louco?

— Não, eu não estou. É o melhor pra nós dois e você sabe disso. A gente precisa se distanciar e colocar a cabeça no lugar. Não quero colocar tudo a perder.

— Não vai, Biel. Eu já te falei. Eu te amo, mas não te quero. Fui bem claro? Não quero nada contigo. Vamos manter a nossa amizade como sempre tivemos.

Confesso que ouvir ele falar daquele jeito, tão categoricamente que não me queria, me causou uma sensação desconfortável. Porém eu sabia que era o melhor pra gente.

— Eu não sei, Kadu… Ainda acho melhor a gente manter distância até as coisas esfriarem.

— Não é necessário. Você mora aqui, essa casa já é sua também. Nós dois somos adultos e podemos tomar as rédeas da situação.

Olhei para ele e por fim falei:

— Tudo bem, mas como uma condição.

Eu disse, olhando firme para os olhos dele.

— Qualquer uma.

— Não vai rolar mais nada entre a gente. Você sabe que eu nunca fui do tipo de cara que fico transando casualmente. Não curto essa situação e dá brecha pra gente misturar as coisas. Então ontem, foi a última vez.

Ele me olhou e seu semblante ficou triste imediatamente. Abaixou a cabeça e a levantou novamente sabendo que a única forma de eu permanecer naquele apartamento, era aceitando.

— Tudo bem, Biel. Eu aceito.

Eu sorri timidamente e vi o sorriso também brotar devagar em seu rosto. Ele me puxou e me abraçou forte, o que eu retribui de forma ainda mais intensa.

Ali selamos novamente a nossa amizade, que sempre esteve em primeiro lugar em nossas vidas e não podia ser abalada por sentimentos paralelos. No coração não se manda. A gente não escolhe por quem se apaixona, mas podemos sim escolher como proceder diante daquilo.

Os dias que se seguiram foram tranquilos e harmoniosos. Tudo parecia estar voltando ao normal entre eu e o Kadu e eu me sentia muito aliviado com isso.

Um dia, tinha chegado a pouco tempo da academia quando o interfone tocou.

— Oi, Biel, tem como você descer para a gente bater um papo?

A voz do Bernardo parecia triste do outro lado da linha. Que merda! Agora aquilo dele vir até o prédio estava virando rotina.

Não tinha muito o que fazer, então coloquei novamente a blusa e desci ao seu encontro.

— Fala, Bernardo. O que você quer?

— Ogro! Nem pra perguntar se eu tô bem.

Ele respondeu, fingindo indignação.

— Fala logo, cara. Tô cansado. Quero tomar um banho.

— Eu terminei tudo com a Debora. Foi chato pra caramba, sabe? Eu tô mal com tudo isso. Achei que a gente podia conversar, você poderia me dar um pouco de força, mas já vi que não.

Revirei os olhos com aquela chantagem emocional barata. Tem coisas que nunca mudam.

— Bernardo, eu sinto muito.

O que mais eu podia dizer?

Ele me olhou tristonho e foi caminhando em direção ao carro dele que estava estacionado logo ali na frente.

Ele entrou no veículo batendo a porta, mas eu abri a porta do carona, sentando-se ao seu lado.

— Tudo bem, Bernardo. Eu tô aqui. Quer desabafar?

Ele abaixou a cabeça e eu fiquei aguardando ele falar alguma coisa.

— Na verdade você sabe muito bem porque eu terminei com ela. O problema não era ela, era eu. Eu sempre te amei e mesmo assim eu quis negar isso pra mim mesmo. Te perdi… me perdi… e agora eu to aqui, que nem um idiota chorando na sua frente. Eu não mereço nada de bom que já aconteceu comigo.

— Não fala assim, Bernardo. As coisas aconteceram como deviam acontecer. Vai ver não era pra gente ficar juntos. Mas nós fomos corajosos, nós tentamos. Só não deu certo.

Ele olhou pra mim, com os olhos esverdeados mais claros que o normal, contrastando com o vermelho que o pranto ocasionara.

— Não deu certo por culpa minha. Eu não dei valor quando te tinha.

— Esquece isso Bernardo, já passou.

— Não Biel, não passou. Pelo menos não pra mim.

Ele disse olhando nos meus olhos. Fiquei olhando, sem saber ao certo o que dizer. Ele parecia tão frágil, tão vulnerável. Por uma reação instintiva, o puxei e o abracei. Ele se aconchegou com a cabeça no meu pescoço e pude sentir suas lagrimas molharem minha pele. Passei as mãos pelo seu cabelo e sussurrei no seu ouvido que tudo ficaria bem, para que ele se acalmasse.

Alguns minutos depois, ele levantou a cabeça do meu ombro e olhou pra mim. Seu rosto estava mais próximo do meu que deveria estar e eu sem pensar em mais nada, o beijei. Minha boca se moldou perfeitamente a sua, sugando seus lábios devagar, para depois engoli-los com fome, sentindo sua língua entrar na minha boca e se enroscando a minha. As mãos percorriam os corpos, livres e sem controle algum.

Parecia uma represa que tinha acabado de se romper. Sentimentos tão confusos e intensos, reprimidos durante tanto tempo pareceram vir à tona naquele momento. Puxei-o e senti ele sentar no meu colo, com as mãos me arranhando os ombros, enquanto nossas bocas não se desgrudavam, famintas e ao mesmo tempo serenas.

Ele tirou a blusa e olhou nos meus olhos, tornando a me beijar. Minhas mãos deslizaram pelas suas costas, apertando sua pele, reconhecendo cada pedaço daquele corpo que já tinha sido tão meu. Minha boca escorregou pelo seu pescoço, arranhando de leve com os dentes até chegar no seu ombro, no qual eu mordi devagar. Ouvi um gemido escapar rouco pela sua boca. Ele começou a desabotoar minha bermuda, puxando minha blusa, querendo tirá-la.

Ouvi uma buzina na rua e isso me despertou do transe em que estávamos.

— Pára, Bernardo!

Eu disse, empurrando-o.

— O que foi?!

— Você tá louco?! Olha onde estamos. Alguém vai ver!

— Nossa, nem me liguei nisso. Vamos lá pra casa, não tem ninguém lá.

— Não, de jeito nenhum. Eu não sei o que deu em mim. Isso tá errado, Bernardo. Sai de cima de mim, eu vou sair desse carro.

— Errado por que? A gente se quer, se deseja. A gente se ama, Gabriel. Eu sei que você me quer, eu posso sentir.

Ele disse dando uma rebolada de leve. Senti meu rosto queimar e sabia que estava ficando vermelho.

— Pára com isso! Sai de cima de mim.

Eu disse, empurrando-o mais uma vez, fazendo ele voltar pro banco do motorista.

— Vamos lá pra casa, a gente conversa melhor. Tem tanta coisa que eu queria te falar e depois desse beijo, eu tenho certeza que a gente pode se entender.

— Não. Não é assim, Bernardo. Muita coisa aconteceu, as coisas mudaram.

— Pode ser, Gabriel, mas tem coisas que não vão mudar nunca.

De repente me senti sufocado ali dentro. Eu olhei pra ele e saí do carro. Atravessei a rua e voltei para o apartamento sem olhar pra trás. Sentia-me estranhamente perturbado.

Liguei pra Letícia. Pra ela eu poderia escrever um capítulo a parte. É a pessoa que mais me conhece no mundo, é meu espelho que consegue saber tudo que se passa na minha cabeça sem que eu abra a boca. Costumo falar que ela é a mulher da minha vida e não tenho dúvidas disso.

Não deu nem meia hora e ela chegou no apartamento. Passamos a tarde conversando e no final me sentia mais tranquilo. A noite fizemos algo pra comer, bebemos um vinho e mais tarde o Kadu se juntou a gente. Uma noite agradável que me fez esquecer dos momentos mais tensos vividos horas antes.

Alguns dias se passaram e eu confesso que eu fugia do Bernardo Não atendia suas ligações, não retornava as mensagens e mudei meus horários para que dificultasse ele me achar. É claro que tudo aquilo que sentimos não iria desaparecer assim, de uma hora pra outra, mas não sabia se queria voltar. Existia tanta mágoa, tanta dor, que misturada ao amor que restou parecia uma forma não muito saudável de se viver.

Um dia estava em casa, distraído, vendo TV deitado no sofá. O celular apitou indicando que tinha chegado uma mensagem.

“Até quando você vai fugir?”

Fiquei minutos olhando aquelas palavras, até que me dei conta que não podia mais adiar. Precisava ser homem e resolver aquela situação.

Pus uma blusa, peguei as chaves do carro e fui pra casa dele. Toquei a campainha e ele atendeu a porta vestido somente com um short de futebol velho, praticamente semi nu.

— Será que a gente pode conversar?

— Claro Biel, entra aí. Eu tô sozinho.

Eu entrei e fomos direto pro seu quarto. Sentei na cama e esperei ele sentar ao meu lado. A verdade é que eu nem sabia por onde começar.

— Eu vim pra a gente resolver essa parada de uma vez por todas. Você precisa entender que acabou. O que a gente teve foi insano, foi bom, durou o tempo que precisava durar e acabou.

— Não acabou, Biel.

— Acabou, sim. Cara, a gente sempre foi amigo, desde moleque. De repente rolou aquela noite louca e foi uma surpresa pra você e pra mim e desencadeou tudo que a gente viveu, mas você não sabe o que você quer e sinceramente, nem eu. A gente já se machucou muito e a nossa amizade acabou prejudicada… eu nunca quis isso.

— Gabriel, o meu desejo por você foi um choque pra mim e eu levei dois anos negando isso. Voltei, lutei e a gente viveu tudo aquilo. Só que acabou por um equívoco. Eu continuo te amando e sei que você também. Vamos deixar as coisas seguirem seu curso, vamos nos entregar a essa coisa que a gente sente.

Eu olhei pra ele e mais uma vez ele estava muito próximo a mim. Me afastei um pouco.

— Não é assim, Bernardo. Eu não sou assim, cara. Olha tudo que a gente passou, eu já sofri pra caralho e eu não quero mais. Não vou ficar por ficar, nem deixar rolar pra depois me arrepender.

— Você tem que parar de ser tão difícil, Biel. Você me quer, não quer? Eu te quero. Essas coisas não se controlam e só se vive uma vez.

Eu olhei pra ele e vi ele se aproximar. Tocou meu peito e foi deslizando a mão para baixo. Fiquei imóvel, sentindo minha respiração acelerar. Ele segurou meu pau por cima da bermuda e apertou, me arrancando um gemido abafado.

— Você foi o único, você sabe. Com você eu senti coisas que eu nunca senti na minha vida e não quero sentir com mais ninguém. Em mim só você entra. Só você enfia em mim…

Ele disse rouco, com a boca escorregando pelo meu pescoço, arrepiando todos os pelos do meu corpo.

— Vem Biel, me faz sentir de novo. Eu te quero tanto… faz tempo….

Ele disse me beijando em seguida. As bocas se encontraram famintas, enquanto as mãos se encarregavam de se livrar das roupas. Fui deitando por cima dele, beijando seu peito devagar, descendo pela barriga, mordiscando, fazendo-o se contorcer de tesão. Peguei seu pau com a mão e comecei a punhetar lentamente, então passei a língua na cabeça e fui descendo até a base, para depois voltar circundando ele todo.

Ele puxou minha mão e chupou meu dedo, fazendo com que eu entendesse o recado. Fui engolindo seu pau devagar, enquanto meu dedo esfregava seu cu, entrando no mesmo ritmo vagaroso, fazendo- o gemer. Sugava com força, sentindo- o estremecer e agarrar o lençol com as mãos, enquanto eu enterrava o dedo cada vez mais fundo, laceando-o.

Ele puxou meu cabelo, fazendo eu levantar a cabeça e olhá-lo.

— Vem Biel, eu não aguento mais. Vem.

Ele disse olhando nos meus olhos, abrindo mais as pernas em convite.

Deitei por cima dele, beijando sua boca com fome, sentindo nossas línguas se enroscando. Apertei sua coxa, fazendo ele abrir mais as pernas, para então me pau deslizar entre elas, melando seu orifício. Esfreguei um pouco a cabeça na entrada, fazendo ele arfar em urgência.

Olhei nos olhos dele e ele nos meus, os rostos muitos próximos e então forcei o quadril pra frente, sentindo resistência na entrada. Ele apertou meu ombro e espremeu os olhos a medida que seu cu foi cedendo e a cabeça entrando. Continuei a colocar devagar, parando de pouco em pouco, enquanto ele gemia de dor se acostumando.

Depois de um tempo, senti que já estava tudo dentro e comecei a me movimentar lentamente, mexendo o pau lá no fundo, sentindo suas unhas cravarem nas minhas costas. Então tirei devagar e coloquei novamente, repetindo o movimento, ouvindo seus gemidos ora doloridos, ora de puro prazer. Ele mordia meu ombro com força, enquanto meu quadril ondulava-se em cima dele. O suor já escorria livremente pelos nossos corpos, aos mesmo tempo que eles se chocavam de forma cadenciada. Acelerava o ritmo, para depois reduzir os movimentos, rodando e empurrando o quadril, fazendo ele gemer mais alto.

Comecei a estocar mais rápido e mais fundo, sentindo seus gemidos ficarem mais urgentes e suas mãos apertarem meu corpo com força. Meu pau pulsava dentro dele e sabia que não ia demorar para explodir. Segurei as suas mãos e continuei a foder forte, enterrando tudo. Senti seu corpo começar a tremer e ele praticamente gritar palavras desconexas e então senti o jato quente na minha barriga. Se cu contraiu meu pau, que jorrou com força, inundando-o por dentro. Urramos praticamente juntos, sentindo os espasmos intensos de cada um.

Ficamos deitados, nos recuperando daquela avalanche de sensações.

Depois de um tempo, levantei nu e comecei a pegar minhas roupas no chão, vestindo-as. Ele sentou na cama e me olhou.

— Fica comigo essa noite?

— Não Bernardo, eu vou pra casa.

— E a gente, como que fica?

Coloquei a blusa e olhei pra ele.

— Eu não sei Bernardo, mas depois de tudo que a gente passou, vamos devagar. Olha, foi bom, maravilhoso, mas não quero que isso vire uma rotina. E sem mentiras, vamos ser transparentes um com outro. Com calma, tá?

— Tudo bem.

Ele disse um pouco triste, mas eu sabia que seria melhor assim. Ele foi me levar até o portão e eu reconheci um rosto conhecido andando pela calçada do outro lado da rua. Ele pareceu surpreso ao me ver, enquanto eu me esforçava pra reconhecer quem era o rapaz.

— Bernardo, aquele garoto ali… eu conheço ele de algum lugar, mas não me lembro da onde.

— Ah sim, é o Allan, aquele viadinho que te chupou algumas vezes quando a gente tinha o quê? Uns 13 anos, né?

Então eu lembrei. Claro que era ele. Estava diferente, mais velho, mas os olhos azuis angelicais na cara de menino continuavam os mesmos. Ele olhou e logo entrou na casa da frente. Ele era mais novo que eu, uns 3 anos e naquela época, anos atrás, era comum certas brincadeiras entre a galera da rua.

— Porra Bernardo, não fala assim. É tão pejorativo. Já faz tanto tempo isso, vai ver o garoto tá em outra. Enfim, vou nessa. A gente se fala.

Entrei no carro e fui embora.

Os dias se seguiram normalmente. O Bernardo me mandava mensagem, mas eu evitava encontrá-lo. Na verdade eu tive que admitir pra mim mesmo que as coisas estavam diferentes. Eu achei que se um dia rolasse novamente da gente ir pra cama e se render a paixão ia ser uma coisa extraordinária que sempre foi, mas não foi assim. Foi maravilhoso, mas eu não senti sensações tão intensas e surreais como das outras vezes. Parecia que o tempo tinha feito seu trabalho e aplacado todo aquele frenesi e sentimentos. Fiquei aliviado por isso.

Certo dia, O Kadu insistiu para que eu fosse no shopping com ele e depois de muito enrolá-lo resolvi aceitar. Era tarde da noite e venci a preguiça para acompanhá-lo no maior estilo “brother pra toda vida”. Paramos em um sinaleiro, e olhei uma movimentação que tinha em uma casa de festas. Na entrada do estabelecimento, eu vi o Bernardo com a ex-namorada, abraçados. Fiquei olhando incrédulo, tentando entender aquela cena. O sinal abriu, mas eu coloquei a mão na marcha, impedindo o Kadu de engatar a primeira.

— Que isso, Biel? Tá louco? O sinal abriu, já tão buzinando.

— Eu vou sair…

Eu disse olhando fixo para aquela cena, enquanto descia do carro. Caminhei por entre os carros, ignorando as buzinas irritantes e parei a alguns metros diante deles.

Capítulo 22 — Tudo tem um fim

Perdi eles de vista por um instante e quando meus olhos voltaram àquela cena, só vi a Debora parada perto da entrada do local, como se estivesse esperando alguém. Me aproximei sem pensar muito no que dizer, mas ciente que tinha que tirar aquela história a limpo.

— Debora?

Ela me olhou surpresa, para em seguida abrir um sorriso.

— Biel? O que você está fazendo aqui?

Eu abaixei a cabeça para pensar em algo para dizer naquela enrascada.

— Eu tava passando por aqui e pensei ter visto você e o Bernardo. Resolvi parar pra cumprimentar.

— Ah tá, achei que você também ia na festa. O Bernardo esqueceu os convites no carro, mas já ele volta. Por que você não o espera?

— Na verdade eu só tava só de passagem mesmo. Vocês dois? É… Vocês estão juntos?

Ela fez uma cara de quem não estava entendendo a pergunta, mas mesmo assim respondeu.

— Claro Biel, que pergunta é essa?

Eu abri a boca pra falar qualquer coisa, mas minha voz não saiu. Eu só sorri e abaixei balançando a cabeça, não acreditando o quanto eu tinha sido idiota de acreditar nele.

— Eu fico feliz por vocês, Debora. Vocês fazem um casal bacana. Eu tenho que ir e…

— Biel?!

Eu ia me despedindo, mas fui interrompido pelo Bernardo. Olhei para a cara dele, vendo o espanto evidente ali.

— Oi Bernardo, eu tava passando por aqui… Que coincidência, né? Mas eu não vou atrasar vocês, não. Só vim mesmo pra cumprimentar e até falei com a Debora que acho vocês dois um casal bonito.

Eu disse ironicamente olhando bem nos olhos dele, que ficou imediatamente sem graça com aquela situação.

Virei as costas e comecei a andar, mas um pouco antes de atravessar a rua senti uma mão segurando meu braço.

— Espera, deixa eu te explicar.

Eu olhei pra ele e puxei o braço, fazendo-o me soltar.

— Não tem o que explicar, Bernardo. Só não entendo porque mentiu pra mim.

Ele abaixou a cabeça para logo depois me olhar com um semblante desconsertado.

— Eu ia terminar com ela. Eu só estava esperando as coisas firmarem entre a gente. Eu ia fazer isso ainda essa semana…

— Chega, Bernardo! Você sabe muito bem que eu odeio mentira. Eu não tô bravo com você, eu tô decepcionado. A verdade é que eu e você já acabamos faz tempo.

— Não Biel, não fala assim. Você me ama e eu te amo também. Eu sei que eu errei, meti os pés pelas mãos, mas se você me der uma chance eu…

— Eu já te dei muitas, Bernardo. Só que em meio as suas mentiras e as suas atitudes, o sentimento que tinha por você foi se modificando, perdendo a força e hoje não passa de um carinho. Eu sinto isso, só não sabia como te dizer.

— Ah tá! Vai negar que quando eu te toco o seu corpo não estremece, que você não sente nada?

— Eu não preciso negar, mas eu tô te falando do sentimento, de amor. Eu não sinto mais o que eu sentia por você. Passou… Infelizmente não existe mais nada que me faça querer continuar. Ás vezes precisou dessa última gota pra eu me dar conta disso. Fica com a sua namorada, tenta ser feliz com ela. Me esquece, porque não dá mais.

— Biel, por favor… Eu sei que eu errei.

— Não, Bernardo. Sério, não é por isso. Isso foi só mais um motivo, mas acabou já faz tempo. Eu te desejo tudo de bom na sua vida e sei que nem amigos a gente vai conseguir ser depois de tudo isso, mas eu também não me arrependo de nada do que fizemos. Foi especial e mudou a minha vida. Só que ninguém vive de passado.

Ele olhou triste, mas percebeu que não tinha mais o que fazer.

— Volta pra ela.

Eu disse, dando um tapinha camarada em seu ombro.

Virei as costas e continuei andando. Passei pelo carro e o Kadu novamente buzinou, mas eu precisava caminhar um pouco. Sentei embaixo de uma arvore num lugar mais isolado. Olhando pro céu eu pensei em tudo. Um filme foi se passando na minha cabeça: O primeiro beijo, a primeira vez e tudo mais que aconteceu. Os momentos felizes, as brigas e todo o resto.

Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, mas só levantei quando realmente me dei conta de estava encerrando um ciclo da minha vida. Me levantei quando senti que estava preparado pra isso. Levantei como a quem se obriga a levantar e seguir em frente, pois era isso que eu iria fazer. Com uma paz imensa no coração, me levantei e voltei pra casa.

Lá eu contei tudo pro Kadu, que mais uma vez me apoiou e ouviu. A partir daquele momento sabia que tudo seria diferente.

Os dias se passaram e se transformaram em semanas e até mesmo em meses. Ele tentou me procurar no início, mas desistiu quando se deu conta que não tinha mais volta. Uma hora o coração mesmo dá indícios que é a hora de parar.

Num final de tarde ensolarado, fui correr no parque e avistei um rapaz levando um tombo praticamente na minha frente. Corri para ajudá-lo, mas quando ele virou o rosto eu o reconheci.

— Ei cara, tá bem? Machucou?

Eu disse, tocando de leve seu ombro.

— Eu tô bem, só me ralei.

Ele falou, ajeitando o boné virado pra trás. Ajudei-o a se levantar e me certifiquei que apesar do machucado no joelho, ele estava bem.

— Pô cara, acho que quebrou a roda.

Eu disse, indicando a peça parcialmente destruída.

Os olhos azuis se fixaram em mim, para depois comprovar a destruição do skate.

— É… Droga.

Falei que era melhor ele cuidar daquele ferimento e ele foi até ao banheiro lavar o joelho. Fiquei de olho no skate, sem nem saber o por quê, visto que aquilo estava mais para sucata do que qualquer outra coisa. Quando ele voltou, fez a menção de pegar o skate e se despedir, mas eu o interceptei.

— Valeu por me ajudar, eu vou indo nessa.

— Ei espera. Eu te conheço… Seu nome é... A... A... A…

— Allan.

— Isso! Allan. Você morava na rua de atrás, não é isso?

— Isso mesmo.

— Você não deve nem lembrar mais de mim, eu sou quantos anos mais velho que você? Você tem quantos anos agora?

— 17 e sim, eu lembro de você, Gabriel.

Fiquei um pouco sem graça dele lembrar até o meu nome, mas sorri.

— Você sumiu de lá, né?

— Sim, meus pais se mudaram e agora resolveram voltar. Meu pai é militar e às vezes tem essas mudanças.

— Entendi. Bom, você deve tá meio deslocado ainda depois de tanto tempo fora. Se você quiser que eu te leve pra conhecer os lugares, te apresentar algumas pessoas… é só falar.

Ele me olhou um pouco tímido, mas logo abriu um sorriso.

— Vai ser legal sim. A gente pode combinar uma saída.

Trocamos números de celular e ficamos de marcar alguma coisa. Nos despedimos com um aperto de mão e cada um seguiu o seu caminho.

Se passaram alguns dias, mas obviamente não liguei. Não curto ligações e nem tinha o que falar. Acabei esquecendo.

Em uma noite eu sai com alguns amigos para um barzinho no qual sempre nos encontrávamos e no caminho para o banheiro, dei de cara com ele.

— Hey man, você por aqui?

— Oi! (risos) É, uma amiga me chamou.

— Ah, legal, e o joelho?

— Tá bom já.

Ele disse, sorrindo. Fiquei mudo, meio sem ação. Ele falou:

— Bom, eu vou voltar pra mesa… Minha amiga tá sozinha.

— Ah, claro, vai lá. A gente se fala.

Também voltei para junto dos meus amigos e a noite transcorreu tranquilamente. Quando estava no caixa pagando a conta, reparei que ele estava meio cambaleando e na hora constatei que ele não estava no seu juízo normal. Alcancei ele antes que ele pudesse atravessar a rua.

— Ei Allan! Calma, espera aí. Você tá bem?

— Tô sim...

— Eu acho que não, hein? Quer uma carona?

— Não, Gabriel. Eu tô bem, eu pego um táxi.

— Pára cara, não me custa. Vem, meu carro tá logo ali.

Eu praticamente fui encaminhando ele, cuidando para que ele não tropeçasse ou algo do tipo. Entramos no carro e o silêncio ficou incômodo. Ele ficava o tempo todo olhando para a janela e eu já estava achando estranho aquele comportamento. Não me encarava nos olhos, parecia apreensivo.

— Allan, você é tímido?

— Sou...

Eu aproveitei a situação e perguntei.

— Eu também sou mega tímido e bem fechado. Só que você parece é além do normal, como se algo te assustasse. É comigo isso?

Ele me olhou de relance e logo desviou o olhar. Eu tive a certeza que eu precisava. Claro que ele lembrava e sentia vergonha ou mal estar pelas coisas que aconteceram no passado.

Há anos, nas brincadeiras com os garotos da rua, rolaram os famosos “troca-troca”. Eu era do grupo dos mais velhos e o Allan era um dos mais novos. Uma vez eu estava numa casa em construção que os garotos usavam como uma espécie de sede da garotada e claro que sempre tinha revistas de mulheres peladas para que a punheta rolasse solta.

Lá também era o lugar onde os moleques traziam os outros para fazer essas brincadeiras mais apimentadas. Eu nunca participava e minha timidez me impedia até de participar da punheta coletiva, mas justamente nessa noite os meninos tinham levado uma garrafa de vodka e baralho para podermos jogar. Naquele lance de quem perde toma uma dose, quem ganha toma duas e assim por diante, eu fiquei bastante alterado. Vi o Allan num canto da casa sozinho, provavelmente aguardando o colega que se encontrava no andar superior da construção com outro garoto.

Fui atrás da casa para mijar porque era uma parte mais isolada, sem tanta bagunça. Quando terminei, percebi que o Allan tinha me seguido e estava me observando. Guardei meu pau dentro da bermuda e indaguei:

— O que você tá fazendo aqui? Tá me espiando, é?

Ele ficou um tanto sem graça, mas não recuou.

— Estava.

— E porque você fez isso? Tá louco, moleque?

Ele se aproximou de mim, com um certo receio.

— Deixa eu te chupar?

Eu arregalei os olhos, como se não tivesse ouvido o que ele falou.

— O que?

— Deixa eu te chupar, por favor.

— Cara… olha, eu não sei o que você tá achando, mas procura outro porque eu não curto essas coisas não.

Ele se aproximou mais um pouco, com cuidado.

— Eu não quero outro. Deixa, por favor? Ninguém vai saber, eu prometo que não conto. Eu sempre quis te chupar. É só chupar. Deixa, por favor?

— Mas você é muito novo moleque. Não rola, sério.

— Por favor…

Ele disse e foi se aproximando mais, até ficar na minha frente.

Eu não disse nada. Fiquei paralisado enquanto ele não sentindo mais resistência, foi abrindo novamente a minha bermuda, colocando meu membro pra fora e chupando avidamente. Era um pouco desajeitado, parecia um tanto esfomeado fazendo com que doesse às vezes, mas não posso negar que a sensação foi incrível. Prendi o ar para não gemer na hora que o gozo se anunciou e afastei seu rosto para que não inundasse sua boca com o meu leite, mas ele segurou meu pau fazendo com que eu esporrasse na sua cara inteira.

Fiquei sem ação. Meio ofegante e assustado, mas ele não pareceu se importar. Pelo contrário, a sua cara de satisfação era gritante. Guardei novamente o pau dentro da bermuda e fui embora. Estava desconcertado com aquilo, por mais que visse os outros garotos fazendo e por ter sido só uma chupada, eu não via as coisas assim.

Numa outra noite que eu estava lá mijando, e mais uma vez o flagrei se aproximando. Sabendo das suas intenções, eu já o repreendi:

— Não. Não vai acontecer de novo.

— Por favor, Biel. Eu quero tanto.

— Cara, se você gosta de chupar, procura um dos outros moleques. Eles vão adorar traçar uma tetéia como você.

Eu falei querendo ofendê-lo pra ver se o dissuadia daquela ideia.

— Eu não gosto de chupar, mas eu adorei te chupar. Deixa vai…

Ele disse, se aproximando.

Eu estava com um tesão filho da puta naquela noite e acabou rolando de novo. Dessa vez ele caprichou mais e eu quase fui na lua com aquela chupada. Gozei em jatos, os quais ele engoliu prontamente, me surpreendendo.

Depois daquele dia, evitei ir até a sede. Me sentia culpado e confuso com aquela situação e não queria que ela evoluísse para nada que eu não quisesse. Ele era muito novo e com certeza fazia isso com outros garotos e na aquela época fiquei até com medo de doenças. Fora que era hétero convicto.

Pouco tempo depois ele se mudou e eu nunca mais o tinha visto, até alguns meses atrás.

Agora, com ele dentro do meu carro, a situação era no mínimo constrangedora. Sabia que assim como eu ele lembrava daquela época e podia ser isso que o deixasse tão sem graça que ele não conseguisse me olhar direito. Ainda aguardava a resposta pela minha pergunta, quando parei o carro em frente à sua casa. Como ele não respondeu nada, resolvi falar mesmo com muita vergonha:

— Olha Allan, se você ta assim por aquelas paradas que aconteceram há um tempão atrás, isso é passado. Coisa de moleque, não pira com isso.

Ele ficou mudo me olhando com aqueles imensos olhos azuis. Ainda mantinha as feições de menino, mas a barba rala no rosto denunciava que os anos tinham passado. Ele com certeza era um dos garotos mais bonitos que eu já vi. Uma beleza quase angelical em um rosto perfeito. Os cabelos castanhos caiam lisos pela testa e as sobrancelhas escuras e densas pareciam desenhadas naturalmente.

— Eu não quero falar disso.

Ele disse, seco.

— Tudo bem, eu só quis te tranquilizar porque…

— Se meu pai sabe, eu tô ferrado. Ele é militar e nunca aceitaria.

Ele me interrompeu, demostrando ansiedade.

— Ah, claro. Como eu disse, ficou no passado. É besteira de adolescente. Só acho que você podia ter tomado cuidado… sei lá, nunca se sabe, né?

Ele se ajeitou no banco e soltou o ar que parecia estar prendendo nos pulmões há bastante tempo.

— Eu nem sabia o que estava fazendo direito. Era curioso e tava naquela fase de se descobrir. Um amigo meu fazia direto e eu meio que fui na onda, mas nunca gostei. Os mais velhos me forçavam e até ameaçavam.

— Mas eles te violentaram ou coisa do tipo? Você chegou a…

— Não! Não... Isso não. O máximo foi chupar mesmo e ainda sim eu não gostava. Era forçado com a ameaça deles espalharem ou coisa do tipo.

— Ah… entendi. Eu não te forcei...

Eu falei com cuidado e ao mesmo tempo, cheio de vergonha.

— Não. Você não. Diferente dos outros, você eu quis. Não me arrependo.

Na hora senti um calor subindo pelo meu rosto e sabia que estava ficando vermelho, e agradeci por estar escuro dentro do carro e ele não ver.

— Bom, você tá entregue. Boa ressaca amanhã. (risos)

— Valeu pela carona.

Ele disse meio sem graça, mas com os olhos fixos em mim. Ficamos assim em silêncio, com os olhos um no outro sem ação. Eu estava esperando ele descer do carro, mas ele não o fazia e por outro lado, nem eu sabia o que fazer. Até que ele abriu a porta e se foi.

Fiquei ainda um tempo parado, atordoado. Liguei o carro e voltei pra casa.

No dia seguinte tinha uma mensagem dele no meu celular agradecendo pela carona. As mensagens se tornaram mais frequentes, até que trocamos MSN. Ficávamos horas conversando sobre os mais diversos assuntos e nos encontrávamos muito pouco, praticamente casualmente sem que combinássemos. Apesar de morarmos na mesma cidade, parece que por ali nos sentíamos mais seguros para conversar, sem constrangimento.

Semanas se passaram. Um sentimento estranho começava a nascer, embora eu não soubesse dizer o que era. Não me sentia seguro a fazer nada, nem tomar qualquer iniciativa. Ele não sabia de nada que tinha acontecido com o Bernardo e eu achava melhor assim. Pra ele eu era somente um cara hétero, enquanto ele eu não tinha tanta certeza.

Um dia ele me chamou pra conversar. Nos encontramos num parque e sentamos embaixo de uma arvore. Ele estava sério e não quis rodeios.

— Tá bom, eu vou ser direto. Eu vou me mudar de novo. Meu pai foi transferido e eu já sabia que isso ia acontecer tanto que nem fiz o vestibular aqui.

Olhei pra ele um tanto surpreso e perguntei:

— Mas você me falou que não ia fazer porque estava pensando ainda sobre a área que cursar e não porque ia se mudar. Você mentiu pra mim?

— Não, Biel. Quer dizer... em partes. Eu sabia que tinha riscos do meu pai ser transferido, mas eu achei que pudesse dar um jeito… mas como? Eu não trabalho, sou dependente… eu não tenho opção.

Eu olhei pra cara dele sem acreditar naquilo.

— Quando?

Ele abaixou a cabeça e falou:

— Semana que vem.

— O que????! Allan, como você me fala uma coisa assim dessa maneira?

— Biel, eu quis falar mas eu travei, sabe? Por várias vezes eu pensei em tocar no assunto, mas o papo tava tão bom e eu juro que eu tinha esperanças de não ir. Só que essas mudanças são repentinas mesmo. Temos que ir rápido…

— Cara eu, achei q a gente fosse amigos…

— E somos.

Ele disse, com um semblante triste.

— Não somos! Como você pode me esconder algo assim. Você vai se mudar semana que vem… Meu Deus, pra onde você vai?

— Pará…

Eu levantei na hora que ouvi aquilo. Sai caminhando, pisando fundo, irritado com aquela conversa. Senti ele atrás de mim.

— Biel, por favor…

— Não! Não fala nada. Vamos aproveitar que você ta indo e vamos encerrar aqui.

— Não, por favor! Somos amigos e eu gosto muito de você. A gente pode dar um jeito e continuar se falando…

Eu virei e olhei pra ele.

— É isso que você quer? É isso que a gente vai ficar fadado? Um em cada extremo do país?

Ele me olhou sério e triste ao mesmo tempo.

Biel, não existem amigos em outros cantos? Não podemos levar a nossa amizade além de uma fronteira?

Foi aí que me dei conta que realmente tudo não se passava de uma amizade, mas porque que pra mim parecia algo a mais? Por que meu coração estava tão apertado? Por que eu tava me sentindo daquela maneira? Na mesma hora senti raiva de mim por estar me sentindo daquele jeito e dele por estar indo embora.

— Olha só, Allan. Eu não quero mais. Não quero sua amizade, não quero porra nenhuma! Boa viagem e boa sorte na sua vida. Não me procura mais e eu também vou fazer o mesmo.

— Não, Biel. Por favor. A gente pode pensar em algo, mas não me deixa assim.

— Me esquece!

Virei as costas e fui embora.

Claro que os apelos dele foram insistentes, mas fui irredutível. A verdade que a partida dele me machucava e eu não sabia como lidar com aquilo. Fiquei isolado e incomunicável durante toda aquela semana e fiquei sabendo pelos outros que ele tinha partido. Era um sentimento difícil de se descrever. Uma saudade do que não foi vivido, uma ligação que não tem explicação.

Depois de uns dois meses sem contato algum, recebi uma mensagem no meu celular que me sobressaltou. Era ele perguntando se eu estava bem e dizendo que queria muito conversar comigo. Pensei por alguns minutos… ou melhor, nem pensei. Respondi a mensagem e novamente voltamos a conversar. No começo foi estranho, com resquícios de mágoa e uma timidez velada. Aos poucos tudo foi voltando ao normal.

Fizemos um Skype e apesar de não rolar chamadas de vídeo ou coisa do tipo, conversávamos todo dia. Só então tive coragem de contar toda a história do Bernardo e do Kadu. O sentimento foi acontecendo, sem que a distância fosse impedimento de algo. Fomos descobrindo uma forma só nossa, única e intensa de se relacionar. Quando nos demos conta, estávamos completamente apaixonados e resolvemos viver aquele amor.

Comentários (33)

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  • em 05-08-2020 às 15:59 Leonardo
    O final me decepcionou. Eu torcava pelo Bernardo e pelo Gabriel e a confusao entre o Allan e o Gabriel e coisa pra umas sessoes de terapia.
  • em 05-08-2020 às 04:14 Paulo
    *várias punhetas...
  • em 05-08-2020 às 04:13 Paulo
    Bati várias punhetar durante o conto. Muito bom. Pena que Biel e Kadu não se acertaram de vez. Ali nasceu sim um amor. Já existia uma amizade. O Kadu é um cara excepcional.
  • em 05-08-2020 às 04:10 Paulo
    O melhor conto que já li. Um livro. Muito grande. Mas o final com esse novo garoto ficou meio sem nexo. Estava torcendo pelo Kadu. Mas valeu!
  • em 02-08-2020 às 23:15 Icaro
    Gistei muito mas o final me decepciono u
  • em 02-08-2020 às 19:47 gostosinho
    isto não é um conto, sim um livro. Desisti no meio. muito cansativo pra conto gay.
  • em 31-07-2020 às 13:01 Giovanni
    Não curti o final... pra mim ficou tipo "nada a vê" .....
  • em 29-07-2020 às 18:00 SSA
    Que coisa mais longa e cansativa !
  • em 28-07-2020 às 20:45 River Phoenix
    Excelente conto, mas o final ficou sem sentido, além de ser triste. Esta "paixão" pelo Allan ficou na contramão.Estava torcendo pelo Bernardo e pelo Gabriel.
  • em 28-07-2020 às 12:50 MarcosDF
    Excelente conto - Real e que nos faz filosofar : Quantos "Bernardos" ( que precisam de uma namorada de fachada por causa da Sociedade ), "Kadus " ( que nos satisfazem , mas não querem compromisso sério ) e "Allans " ( que nos fazem acreditar no amor ") já passaram na nossa Vida ????
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