Fim do Mundo

Um acidente de trânsito é o início de uma história que acaba com o fim do mundo.

por Anderson Oliveira

Segunda-feira, 05 de Outubro de 2020

Quando o sinal abriu, olhei para os dois lados e pedalei rápido para atravessar a rua no meio do tráfego. Um carro à minha direita, em vez de seguir reto, dobrou à esquerda e me atingiu na lateral. Fui jogado sobre o asfalto e a mochila térmica com cinco pedidos do restaurante se soltou dos meus ombros e voou por cima da minha cabeça. O carro freou a poucos centímetros.

Senti uma dor horrível na parte superior da minha coxa direita e pressionei o local com as duas mãos, gritando. Fiz força para me sentar no asfalto, mas não consegui, então apenas me deixei deitar.

Eu ouvia um zumzum de vozes e só processava alguns trechos:

– ... ainda bem que ele estava de capacete...

– ... no celular, eu vi, foi culpa do motorista...

– ... ambulância, acho que ele quebrou a perna...

– ... tão jovem, coitado, alguém chama o SAMU...

Dois rostos flutuaram no meu campo de visão encobrindo a luz do sol como balões de gás. As bocas se mexiam, mas eu não entendia nada. A dor na minha perna era mais urgente.

Um terceiro balão flutuou e começou a ficar maior que os outros, a boca movendo-se e formando palavras. Só então comecei a ouvir.

– Você está bem? Fala alguma coisa, pelo amor de Deus!

Fixei minha atenção na boca que se movia com dentes muito brancos e perfeitos, tão próxima que eu sentia a respiração na minha cara.

– Estou bem, estou bem – gemi contorcendo o rosto de dor, o que talvez não o tenha convencido muito. – Me ajuda a levantar.

– Por que você não esperou o sinal de pedestre? – perguntou o balão maior de novo.

Ignorei a pergunta, a última coisa com que eu estava preocupado naquele momento era quem estava certo ou errado, mas a pessoa continuava insistindo que a culpa de alguma coisa era minha.

Como eu não recebi nenhuma ajuda, tentei me sentar e a dor na parte superior da minha coxa foi muito grande. Olhei para a minha perna direita e não vi sangue, apenas a calça que estava um pouco rasgada.

– Qual é o seu nome, amigo? – perguntou o rapaz e agora vi que sua gravata roçava o meu pescoço. Foi um executivo que me acertou, provavelmente conferindo mensagem no celular enquanto dirigia.

– Fernando... – falei.

– Fernando, vou rasgar sua calça pra dar uma olhada na perna, ok?

Eu fiz que sim com a cabeça enquanto o executivo segurava o rasgo na minha calça com as duas mãos e puxava com força, abrindo uma fenda que subia pela minha coxa até o quadril. Minha cueca ficou exposta e ele a puxava para cima me deixando quase pelado.

– Tá roxo, mas parece que não tem nada quebrado – disse o engravatado. – Eu vou pressionar o local levemente e você me diz se estiver doendo muito, ok?

Balancei a cabeça e ele começou a apertar o alto das minhas coxas, que eram bastante musculosas talvez por eu ser jogador de futebol. Sua mão encostou várias vezes no meu saco por cima da cueca que estava exposta, mas eu não estava preocupado com isso, só queria ter certeza de que não teria que ir para o hospital.

– Você é médico? – perguntei.

– Não, mas já fiz alguns cursos de primeiros socorros – disse ele enquanto a mão subia e descia pela minha coxa. Várias pessoas estavam ao redor, o mundo entrava em foco de novo.

– Acho que você teve sorte – falou o advogado. Agora eu achava que era um advogado. – Parece que não quebrou nada. Fica tranquilo que a ambulância já deve tá chegando.

– Eu não quero ir pro hospital, mano, tenho cinco entregas aí pra fazer. Que porra de ambulância? Se não quebrou nada eu vou continuar meu trampo – falei um pouco confuso.

– Parece que você não vai a lugar nenhum, amigo, sua bike tá destruída.

Depois do choque, vem o entendimento e a aceitação. O advogado – agora eu tinha certeza que era um advogado – tinha razão. O dia de hoje já estava fodido, já era.

– Cara, desculpe – disse ele. – Me dá o teu número de telefone, eu vou pagar pelo prejuízo que te dei, fica tanquilo.

Eu passei o número e me deitei no asfalto de novo. Era só esperar, já que não tinha outro jeito. Eu não ia conseguir pagar o aluguel daquele mês mesmo, então que o mundo fosse à puta que pariu. “Foda-se”, pensei.

Só me lembro que fechei os olhos e esperei equanto sentia a mão do desconhecido que havia me atropelado tentando cobrir o rasgo da minha calça e roçando a mão no meu saco mais umas duas vezes, acho que sem necessidade.

***

Minha esposa entrou no quarto da enfermaria já falando pelos cotovelos.

– Eu falei pra você tomar cuidado, não falei? Esses filhos da puta agora só dirigem olhando pro celular.

Eu só virei o rosto pra ela e não disse nada.

– Sim, porque disseram que ele tava no celular, – continuou ela – e espero que ele pague pelo prejuízo porque sua bicicleta agora pode ir pro lixo. Tá toda amassada e não vale nem a pena tentar arrumar.

– Ele disse que ia pagar.

– Espero que ele pague o celular também, porque ninguém encontrou.

No meio da confusão, meu celular simplesmente desapareceu. A desgraça dos outros não vale nada se alguém puder tirar algum proveito. Roubaram.

Eu estava tão desanimado que continuei calado. Ela então disse pegando minha mão: – Você está bem?

Balancei a cabeça e ela me deu um beijo. A Vera tinha o seu jeito de mostrar afeto. Tinha o dobro da minha idade e às vezes me tratava como se eu fosse seu filho.

– O que o médico falou? – perguntei.

– Ele disse que não é nada, graças a Deus. Foi só a batida mesmo, não quebrou nada – e completou: – Imagina se fosse um ônibus.

Tremi com esse pensamento.

***

Saí do hospital no mesmo dia, à noite. O médico disse que eu tive sorte de ter as pernas musculosas. A musculatura protegeu meus ossos de certa maneira, mas pagou o preço. Minha coxa ainda estava inchada e bastante dolorida.

O cara que me atropelou já tinha ligado na empresa onde eu trabalho e avisado sobre o acidente. Só dois dias depois, quando consegui comprar um outro celular vagabundo e usado é que consegui ver as três mensagens que ele havia enviado no mesmo dia do acidente. Liguei de volta.

– Wagner, bom dia. É o Fernando, do acidente...

– Oi, Fernando, como você tá? Eu tentei ligar várias vezes pra você.

– É... alguém roubou meu celular e só agora consegui pegar um usado. Eu tô bem sim, bem que você falou que não era nada.

– Certo. Você consegue passar lá em casa hoje à noite? Vou te pagar pelo prejuízo.

– Tá certo. Você mora onde?

Ele me passou o endereço, que não era muito longe da periferia onde eu moro, e anotei num pedaço de papel.

No dia seguinte à noite, depois de tomar dois ônibus, eu estava em pé diante do portão dele olhando para o mesmo carro que me atropelou. Era uma puta casa, com um quintal grande na frente e gramado bem cuidado.

Nem o reconheci direito quando ele saiu para me atender, só de chinelos e bermuda. Só agora reparei que ele não tinha nada de advogado debaixo da camisa e da gravata porque tinha corpo atlético, o que eu achava incomum para caras que aparentavam a idade dele, na casa dos trinta e poucos anos. Na minha rua, os caras nesta idade já tinham uma barriga imensa e eu duvido que eles conseguissem enxergar o próprio pau.

– Entra aí – disse ele me cumprimentando com um sorriso. Nem parecia o encontro de dois caras que se envolveram num acidente.

A sala da casa dele era tão grande que eu calculei que o meu barraco cabia inteiro ali dentro. Nas paredes havia diversos quadros de fotografia, a maioria de paisagens que eu acreditei serem de fora do Brasil. Havia praias com areia muito branca, desertos e montanhas nevadas. Sentei-me com uma certa dificuldade e ele permaneceu em pé.

– Como tá isso aí? – perguntou apontando pra minha perna.

Eu respondi que ia sarar logo e levantei a bermuda pra ele ver o roxo. Ele se adiantou, puxou a barra da minha bermuda ainda mais pra cima e disse:

– Caramba, você teve sorte mesmo.

Ficou olhando e acho que demorou demais com a mão na minha coxa. Apertou aqui e ali e eu disse:

– Tô bem cara, desencana, vou ficar bem.

Falei esticando de volta a barra da bermuda e então ele se sentou no outro sofá em frente.

– Tô te devendo uma bicicleta e um celular, então?

– Cara, o celular nem é culpa tua. Eu comprei esse aqui usado – falei e tirei do bolso um aparelho com a tela estilhaçada. – Um parceiro meu lá do trampo que me vendeu baratinho e dividiu em cinco vezes.

Ele olhou pra minha mão e então falou:

– Eu vou pagar pelo teu prejuízo. A bicicleta, o celular e os dias que você vai ficar parado. Acho que nós dois fomos culpados, mas você foi o que saiu com o maior prejuízo.

Ele foi até uma estante e tirou de lá um envelope dizendo a quantia que estava me dando. Eu não acreditei.

– Mas isso é muito mais do que eu tive de despesa – falei pegando o envelope.

– Eu sei, mas acho que vai pagar pelos danos materiais e por todo o resto.

– Brigado mesmo – falei até meio sem jeito, mas no fundo estava era muito contente. Com aquela grana eu ainda podia ficar mais um mês em casa se eu quisesse. É claro que a minha mulher ia mandar eu trabalhar naquele mesmo dia, mas ainda assim fiquei satisfeito.

– Quer beber alguma coisa? Água? Café? – e completou: – Cerveja?

– Não, eu não bebo. Aceito uma água – respondi rindo e perguntei: – Você não é advogado, né? Achei que você era advogado.

– Advogado? Eu? – ele soltou uma risada. – Não, não... Trabalho com turismo. Tenho uma agência de turismo.

Estavam explicados aqueles quadros todos. Ele já devia ter viajado pra caramba.

– Você conheceu todos esses lugares aí? – perguntei olhando para a parede atrás dele.

Ele olhou para trás e deu um sorriso.

– Sim, mas estas fotos aí eu fiz tem muito tempo. E não fui a passeio na maioria delas. Pense em viagens chatas com um monte de gente metida que eu tive que aguentar. Se eu tivesse ido pra curtir, aí sim teria sido diferente. Com alguém especial, por exemplo.

– Então você não é casado?

Ele riu e disse:

– Não, não sou casado e nunca fui.

Eu fiquei sem jeito, havia tocado num assunto muito pessoal.

– E você? – perguntou ele. – Casou cedo, né? Quantos anos você tem? Vinte?

– Vinte, eu? – desta vez fui eu quem riu. – Eu já tenho 23 anos.

– Ah se eu tivesse 23 anos ainda... – disse ele.

Apontei para um dos seus quadros para mudar de assunto e perguntei:

– Onde é aquele lugar ali?

Ele olhou na direção que eu apontava. A foto mostrava huskies em primeiro plano e eles estavam num vale coberto de neve. Ao fundo havia uma tenda e mais atrás uma montanha muito grande.

– Aí foi em Ushuaia – falou ele.

– É nos Estados Unidos?

– Não, é no sul da Argentina. A cidade mais ao sul do planeta. Também é conhecida como o Fim do Mundo. Se for mais um pouco para o sul você chega à Antártida.

– Caramba... – falei e fiquei admirando a paisagem. – Eu nunca vi neve. Deve ser legal.

– É bonito. A parte ruim é o frio. É tudo muito bonito, mas não muito agradável.

– Um dia eu queria ver neve.

– Você vai gostar.

Eu despertei daquela viagem e falei que tinha que voltar pra casa e que morava longe.

– Obrigado, Seu Wagner. Essa grana vai me ajudar muito.

– Nada de “Seu Wagner”. Só me chama de Wagner mesmo. Não sou tão mais velho que você.

– Valeu... – falei e completei: – Se o senhor... quer dizer, se você precisar de bolo, minha mulher faz bolo pra entrega. Quando precisar é só avisar e eu venho entregar.

– OK, obrigado. Meu aniversário tá chegando, então...

Nós nos despedimos e eu fui embora feliz.

***

– Quer dizer que a patroa confiscou a metade da grana? – perguntou o Pedrão dando uma gargalhada que só ele sabia dar. Eu estava de volta no batente.

– E disse que o resto era pra dar entrada na moto – falei sem graça.

Minha mulher era durona, mas a gente só tinha as coisas por causa dela. Se fosse por mim, acho que já tinha torrado todo o dinheiro.

– Mete o pé nessa véia, Gatinho!

Eu odiava este apelido que eles me botaram. Talvez eu fosse mais “arrumadinho” que os outros, mas é claro que eles falavam isso só pra tirar onda com a minha cara. Uma vez um cliente ligou pra fazer um pedido e queria que o “gatinho” fosse entregar. “Pede pra esse gatinho que trabalha aí me entregar, aquele mesmo que me entregou ontem”, foi assim que o cara falou quando terminou o pedido. E é claro que não me mandaram.

Depois desse dia era só assim que eles me chamavam.

– Cara, eu tô precisando de uma moto. Vocês ganham o dobro do que eu ganho porque entregam muito mais pedidos no mesmo dia. Eu só consigo atender aqui no bairro. Tá foda, tenho conta pra caralho pra pagar.

– Tá certo, Gatinho. Você devia era começar a ganhar dinheiro por fora nessas entregas. Faz que nem eu, pô.

– Como assim?

– Ué, tem uns caras aí que dão uma grana.

– Ah, tô ligado...

– Então, cara... se você deixar os caras fazerem a parada aí em você, é sussa. Se quiser até te indico uns que gostam.

– Ah, vai se fuder, Pedrão.

Falei isso, mas ao mesmo tempo fiquei surpreso porque nunca que eu imaginava que o Pedrão fizesse essas paradas por dinheiro. Ele é o cara mais bucetívoro que eu já conheci.

Neste momento chega uma mensagem no meu celular e eu leio através da tela quebrada:

VC TA BEM? JAH VOLTOU PRO TRAMPO? ABRAÇO – W

Todo dia eu recebia uma mensagem desse tipo desde que tinha ido até a casa dele, mas nunca tinha respondido. Desta vez peguei e respondi:

TO OTIMO JA TO NA LUTA – VALEU

***

As semanas foram passando e eu recebia sempre uma mensagem do Wagner. Ele me mandava às vezes só um “bom dia”, às vezes me encaminhava alguma mensagem para inspirar a semana. Eu gostava, mas nunca respondia.

Quem respondeu outro dia foi minha mulher, sem eu saber. Descobri só no dia seguinte porque recebi do Wagner a seguinte mensagem:

?????

Quando olhei o histórico da conversa mais acima, vi as mensagens que eu não tinha escrito:

O Q VC QUER HEIN? TEM MAIS CONTA AQUI PRA PAGAR SE QUISER

E em seguida:

VC EH VIADO? O QUE VC QUER COM MEU MARIDO?

No intervalo entre uma entrega e outra respondi:

DESCULPA MINHA MULHER DEVE TER PEGADO MEU CELULAR, MELHOR NÃO MANDAR MAIS MENSAGEM

Depois desse dia eu não recebi mais nenhuma mensagem dele, mas a situação toda ficou na minha cabeça. Minha mulher era esperta. Bem mais esperta que eu.

***

Dois meses se passaram e graças à minha mulher eu já estava com uma moto de segunda mão que me quebrava um galhão. Eu estava fazendo mais entregas e ganhando mais dinheiro. Num sábado à noite eu estou encerrando o expediente quando recebo uma ligação.

– Fernando, aqui é o Wagner, beleza?

– Wagner... – falei tentando me lembrar.

– O Wagner que te mandou pro hospital – disse ele rindo.

– Ah... – falei e dei risada também. – O que manda?

– Você disse que não era pra mandar mais mensagem, então resolvi ligar. Você ainda tá entregando aqueles bolos?

– Cara, pra quando você precisa?

– Pra agora! Resolvi comemorar meu aniversário hoje.

– Hoje é sábado e sempre tem bolo lá. Vou ver e já te falo.

Liguei pra Vera e ela disse que tinha para pronta entrega. Sábado e domingo eram os dias que ela mais vendia, então além das encomendas, sempre tinha bolo extra. Falei que conseguiria entregar em mais ou menos meia hora.

Passei em casa, peguei a caixa com o bolo e fui com o maior cuidado.

Cheguei, bati palma e o Wagner veio atender. Estava arrumado, parecia que ia ter festa mesmo.

– Entra, Fernando.

Eu entrei segurando o bolo com cuidado.

– Pode colocar aqui na mesa mesmo – disse ele apontando a mesinha de centro.

Eu coloquei o bolo onde ele pediu e fiquei esperando. Em vez de me pagar, ele só apontou para o sofá e disse:

– Senta aí um pouco.

– Não, valeu. Eu só vim entregar mesmo – falei. – E daqui a pouco chegam seus convidados também, então...

– Você é o único convidado.

Eu dei risada e continuei olhando pra ele.

– É sério – continou ele. – Eu nem ia comemorar nada, mas tava com vontade de comer um pedaço de bolo de aniversário. Então lembrei que sua esposa era boleira...

– Não é mais fácil ir na padaria?

– Bolo de padaria não presta.

– Isso é verdade.

Continuei em pé, sem jeito. Ele pediu para eu me sentar que ele iria buscar pratos e talheres para partirmos o bolo.

Ele voltou da cozinha com duas latinhas de cerveja.

– Eu disse que não bebo.

– Mas é só pra gente brindar.

Eu concordei, abrimos as cervejas e começamos a tomar. Sentamos lado a lado no sofá, ele me falou sobre as próximas viagens que tinha para o mês e eu falei da moto nova e sobre como as coisas estavam melhorando. Ele quis saber se a perna já estava boa e ao perguntar, encostou a mão na minha coxa e ficou apertando, perguntando se ainda doía.

Eu educadamente retirei a mão dele e disse:

– Você sabe que já tô bom, né. Só tava querendo pegar na minha coxa?

– Desculpa – ele falou – acho que é a cerveja.

– Acho que você tá bonzinho... Até demais.

Fiquei sério e agora tudo se encaixava na minha cabeça. Ele tinha sido generoso demais, simpático demais. E depois todas aquelas mensagens todos os dias. Fiquei calado, os cotovelos apoiados nos joelhos, corpo inclinado para a frente e a latinha de cerveja na mão. Logo na minha frente estava a foto da montanha nevada. Aquela imagem me trouxe uma tranquilidade.

E então senti a mão que apalpava minha coxa de novo. Fiquei imóvel. Eu estava ligeiramente tonto com apenas uma latinha de cerveja, mas longe de estar bêbado. Deixei a mão dele deslizar. Deixei a latinha sobre a mesa e lembrei do que o Pedrão tinha me falado. Quanto será que ele costumava cobrar por estas coisas?

– Duzentos contos – falei e esperei. Como a mão continuou deslizando – desta vez para o meu pau – entendi o silêncio como um acordo fechado.

Recostei-me no sofá, coloquei as mãos atrás da cabeça e fechei os olhos. Caralho, não devia ser tão difícil assim. E duzentos contos dava pra eu pagar uma parcela da moto.

Senti a mão alisando o meu pau e eu fico excitado muito fácil. Ficou duro na hora. Senti a braguilha sendo aberta devagar e ele abaixou minha calça um pouco. Fiquei de cueca, pau duro estalando e ele começou a cheirar minha caceta por cima.

– Já tinha te visto de cueca no asfalto e desde aquele dia fiquei louco – disse ele enquanto me cheirava. Eu continuei com a cabeça jogada pra trás.

Ele ficou muito tempo alisando e cheirando e meu tesão estava foda de aguentar. O pau já estava babando e ele só mordia por cima da cueca desde a cabeça molhada de baba até o saco. Dava mordidinhas e eu ficava com medo de ele dar uma dentada no meu saco.

Quando ele começou a abaixar minha cueca eu já não aguentava mais. Nunca nenhum homem tinha me chupado, mas não estava ruim. Uma boca é uma boca.

Ele segurou meu pau com uma mão e começou a chupar. E chupou, chupou, chupou que eu não acreditava que alguém gostasse tanto de uma rola. No começo eu queria que fosse rápido, queria só pegar os duzentos e cair fora. Mas estava tão bom que eu fiquei segurando pra não gozar. Em algum momento senti que ele passou a cobertura do bolo no meu pau e lambeu tudo. Achei gostoso pra caralho.

Mais de meia hora depois eu não aguentei e esporrei na boca dele. Abri os olhos e fiquei olhando enquanto ele continuava me chupando e lambendo tudo.

– Se você continuar chupando, meu pau não abaixa – falei rindo.

– Melhor ainda. Você goza pra caralho, hein – ele falou.

– Claro... do jeito que você chupa como se fosse um bezerro na teta da vaca...

E ele continuou. Lambia cada gota da minha porra. Eu não gostava nem de sentir o cheiro de gala e aquele cara parecia que estava lambendo o doce mais gostoso que existia.

Depois de uns dez minutos é que meu pau começou a amolecer, mas ele não parava.

– Chega. Preciso mijar – falei.

Ele me levou até o banheiro e quis segurar meu pau enquanto eu mijava. Dei risada com essa maluquice, mas deixei. Ele segurou até eu terminar e depois ainda balançou.

***

Cheguei em casa e levei uma bronca da minha mulher. Perguntou onde estava, por que eu tinha demorado quase duas horas pra fazer uma entrega e eu disse que tinha parado para abastecer e encontrei o André do restaurante lá no posto.

Escondi os duzentos contos no fundo de uma gaveta.

***

Nas semanas seguintes ganhei uma boa grana. Wagner me ligava umas duas vezes por semana quando queria tomar meu leite. Ele não mandava mais mensagem, esperava ouvir minha voz e então perguntava se eu “estava de bobeira”. Às vezes eu nem estava, mas largava qualquer coisa para ganhar os 200 reais.

Era muito tranquilo, eu só chegava, sentava e ele já vinha abrindo minha calça. Ele às vezes tinha umas coisas engraçadas. Eu ria, mas percebia que ele não gostava, então eu entrava na fantasia dele.

Uma vez ele pediu pra eu ficar com o capacete. Outra ele pediu pra eu tirar a bota porque queria cheirar meu pé suado.

Ele gostava de me cheirar. Cheirava meu sovaco e meu saco. Às vezes eu sentia cócegas, mas era misturada com tesão. Não tinha nojo dele porque ele era cheiroso e respeitava meus limites, que era do pescoço pra baixo. Uma vez ele tentou subir até meu queixo e eu o afastei. Ele não tentou de novo.

Nunca nenhum outro homem havia me tocado, mas se o Pedrão deixava os caras chuparem... E o Pedrão era o cara mais macho que eu conhecia, só falava de buceta o tempo todo. Então eu não ia deixar de ser homem só porque um cara chupava meu pau. Como diz o ditado: “lavou tá novo”.

– Você deve ter muito dinheiro – falei outro dia enquanto fechava o zíper da calça e pegava a chave da moto em cima da mesinha. – Pra gastar essa grana toda só pra chupar meu pau.

– Se você quisesse podia vir todo dia.

– Até parece que você ia querer pagar.

– Acho que vou começar a te dar uma mesada por mês. Uma ajuda. Não gosto de terminar e dar dinheiro na tua mão. Vou te dar uma grana todo mês e você vem quando puder. Topa?

– Quanto?

Quando ele falou o valor, eu mais uma vez dei risada.

– Você não tá falando sério, né? – falei olhando pra ele. – Cara, isso é o dobro do que eu ganho entregando comida o mês inteiro.

– To falando sério.

E então começou a ficar mais difícil esconder o dinheiro da minha mulher.

***

Uma tarde estávamos só eu e o Pedrão esperando entrar pedido. A gente ficava na calçada, cada um encostado na sua moto.

– Aí, Gatinho, tenho uma parada aí pra nóis.

– Qual é? – perguntei.

– Lembra daquele lance que te falei uma vez? Da grana fácil?

– Você continua fazendo isso?

– Só quando preciso de uns trocados.

– Sei... E qual é a parada?

– Seguinte. Tem um viado aí que adora motoboy. Ele perguntou outro dia se eu tinha um parceiro pra ele chupar. Aquele gosta de pica, viu. Meu pau é grande e ele gosta de engasgar me chupando.

Eu dei risada imaginando a cena.

– E quanto ele paga pra cada? – perguntei.

– 150 conto.

Eu fiquei pensando naquilo. Já não estava tão desesperado por dinheiro, mas estava curioso pela situação.

– Bora.

Ele parou, olhou pra mim e perguntou:

– Tá falando sério? Achei que tu não ia topar, moleque!

– Você tá zoando ou é verdade esse lance?

– É verdade, pô.

– Então bora. Quando é?

Ele riu e olhou no celular.

– Depois das sete ele disse que a gente pode colar lá.

***

Pouco depois das sete da noite, eu e o Pedrão estacionávamos nossas motocas em frente a uma casa numa rua residencial não muito afastada do centro da cidade. A porta se abriu e um senhor apareceu dizendo:

– O portão tá aberto. Podem entrar, meninos.

Ele poderia ser meu avô. Só olhei para o meu colega e ele disse:

– Relaxa.

Aconteceu que eu não relaxei. O senhor de idade olhou pra mim com olhos tão cheios de desejo que eu fiquei com vergonha.

– Meu Deus! – disse o vovô. – Que menino lindo! Quantos anos você tem?

Os s’s saíam assobiados provavelmente por causa da dentadura. Eu só esperava que ela não saísse bem no meu pau porque eu ia sair correndo dali.

Ele não perdeu tempo e já foi direto em direção à minha calça, as mãos trêmulas brigando para abrir o meu cinto. Eu olhava assustado para o meu parceiro e ele só fazia sinal para eu deixar.

O velho estava tão desesperado pela minha rola que quase rasgou minha cueca ao tentar abaixá-la. Ele não sabia se chupava, se cheirava ou se lambia. Pedrão se posicionou ao meu lado.

Só então o idoso pareceu notá-lo. Abria a calça do meu parceiro com uma mão enquanto batia uma pra mim com a outra. Ele não soltava meu pau.

Confesso que levei um susto quando o velho finalmente conseguiu tirar o pau do Pedrão pra fora. Aquilo não era um pau, era uma jibóia. Eu comecei a rir e o Pedrão só parecia estar se divertindo.

Meu pau não subia, não importava o que o velho fizesse com a boca ou com as mãos. O meu parceiro, no entanto, já estava em ponto de bala em poucos minutos. O velho deixou o meu pau mole de lado por um instante e se concentrou em mamar o Pedrão.

Logo em seguida o vovô abaixa as calças e vira pro meu brother-super-macho-da-voz-grossa-que-fala-cinco-palavrões-em-cada-frase com quem eu trabalho todos os dias. Eu não estava acreditando no que estava vendo. O Pedrão disse que era só uma chupeta, não disse que tinha que comer o cara.

Ele pegou uma camisinha e começou a meter. Foi aquela cena que me excitou e meu pau ficou duro. O velho dava e chupava, parecia que eu estava em um filme pornô.

Pedrão gozou rápido e logo depois meu pau já amoleceu de novo. O senhor gozou logo em seguida e perdeu o interesse por mim.

Ganhei os 150 reais mesmo assim. E cheguei à conclusão de que aquilo não era pra mim.

***

A cena não saiu da minha cabeça a semana toda e foi motivo de muita gozação entre o Pedrão e eu. Demos muita risada e eu zoava com ele o tempo todo. Deixei claro que ele nunca mais me chamasse para ir na casa do Vovozão, nem na casa de ninguém mais.

Na casa do Wagner eu ia. Cada vez mais.

Eu comecei a aparecer lá sempre que estava com tesão. Entre uma entrega e outra, à noite, de manhã e sempre que eu passava pelo bairro dele. Nem ligava mais, só buzinava na frente do portão.

Às vezes era rápido, às vezes a gente ficava conversando e ele me contava a história de algumas daquelas fotos dos quadros. Ele contava histórias de lugares que eu nunca tinha ouvido falar e de comidas tão esquisitas que eu não conseguia nem imaginar. Ele já tinha comido até morcego e gafanhoto. O cara era louco.

***

Cheguei em casa depois de um dia puxado no trabalho, pensando só em tomar um banho, comer e cair na cama. Mas a noite estaria longe de terminar. E quando terminasse eu estaria dentro de um hospital mais uma vez. Desta vez com um corte profundo no braço.

Eu entrei, larguei capacete, chaves e tudo em cima do sofá e fui até a cozinha dar um beijo na minha mulher, como faço todo dia. Ela estava de costas e quando fui abraçá-la por trás ela se virou e me empurrou.

– Não encosta a mão em mim, seu ordinário!

Eu levei um susto, quase tropecei e caí pra trás. Ela continuou gritando:

– Faz quanto tempo que você tá transando com aquele viado?

Um arrepio subiu por dentro das minhas veias a partir do meu umbigo. Parecia que meu sangue estava coagulando por dentro, subindo pela minha espinha e alcançando meu cérebro.

Como não obtivesse resposta, ela subiu no armário e bem de lá de trás retirou uma lata. Era onde eu guardava o dinheiro extra e algumas outras coisas. Ela virou a lata despejando o conteúdo sobre a mesa da cozinha e diversas notas de 50 e 100 se espalharam em meio a postais e fotos promocionais de viagens nacionais e internacionais e outras bobagens que o Wagner me dava. Do meio daqueles papéis e dinheiro, ela pega um cartão de visita. Caralho, era o cartão de visita da agência do Wagner. Tinha o nome dele e o telefone. Teria sido o suficiente para ela entender tudo.

– Wagner, né? Aquele viado que te atropelou e que te deu aquela bolada de dinheiro.

Ela gritava e eu comecei a ficar preocupado com os vizinhos.

– Fala baixo, te acalma. Você tá muito nervosa! – falei tentando segurá-la pelo braço, mas ela me deu outro empurrão.

– Seu viado filho da puta, eu ralo feito uma condenada pra você sair por aí me traindo com macho? Você tá comendo ele, não tá? Que dinheiro todo é esse? Ou você tá vendendo droga?

Eu preferia ser chamado de traficante do que de viado. Até pensei em inventar alguma coisa, talvez que era dinheiro roubado, mas eu continuaria tendo que explicar a origem das outras coisas. Nunca imaginei ouvir da boca da minha mulher que eu era viado. Porque eu não sou. Eu sou homem, só deixo que me chupem, só isso! Que mal tem nisso, afinal?

– Escuta, amor, você tá maluca, eu te amo! – e comecei a chorar. Primeiro foram só algumas lágrimas que saíram, mas depois foram soluços cada vez mais fortes. Eu só conseguia dizer “eu te amo, meu amor, eu te amo”, e ela começou a me dar tapas no rosto e onde mais conseguia acertar.

– Você não vai me explicar porque é verdade, né? Eu já tinha percebido que você andava esquisito, você não me procurava mais na cama, seu filho da puta, porque você já tava fodendo com outro macho!

Realmente as coisas tinham esfriado em casa. O Wagner agora era um vício. Começou como a droga que você experimenta, depois quer mais e mais e mais... até perceber que já não consegue mais viver sem ela.

Eu só chorava e não conseguia dizer nada e acho que ela acabou transtornada porque virou, pegou a faca que estava usando para cortar alguma coisa e riscou o ar na minha direção. Eu coloquei o braço na frente para me defender do golpe e ela a enterrou profundamente no meu antebraço.

***

Levei cinco pontos. O sangue que começou a jorrar do meu braço deve tê-la tirado do seu transe insano porque imediatamente se assustou e correu para me socorrer. Os vizinhos apareceram, depois a polícia e finalmente a ambulância. “Briga de marido e mulher”, disseram os vizinhos. Os policiais só balançaram a cabeça e perguntaram se alguma das partes ia querer registrar ocorrência. Claro que eu disse que não, afinal eu merecia aquela facada. Eu merecia ter levado uma facada no meio do peito.

Eu não poderia ter sido tão estúpido. É claro que um dia isso ia acontecer. Eu tinha que ter terminado esse lance com o Wagner, não podia ter enganado minha mulher todo esse tempo.

A Vera foi meu alicerce desde os meus 19 anos. Antes disso eu morava sozinho com meu pai, minha mãe havia falecido quando eu ainda era criança e eu nem me lembro dela. Então a Vera foi como uma segunda mãe. Fez eu terminar os estudos que eu havia largado e foi ela quem arranjou o trampo no restaurante. Eu não poderia ter feito o que fiz.

***

O corte foi fundo, mas depois dos pontos e curativo, me mandaram logo pra casa. A Vera estava aparentemente arrependida e cuidou de mim como sempre fez. Não tocamos mais no assunto – não por enquanto – mas o dinheiro desapareceu. Ou ela jogou fora, coisa que eu duvido, ou guardou para “coisas mais importantes”, como sempre dizia.

***

Algumas semanas se passaram. Achei que um dia o assunto iria reaparecer, mas assim que a ferida no meu braço se fechou, o assunto foi enterrado para sempre. Não a cicatriz, é claro. A cicatriz estaria sempre ali para nos fazer lembrar de tudo.

O nosso sexo voltou ao normal. Eu percebi um entusiasmo maior da parte da minha esposa. Eu sabia que era aquele sentimento velado de culpa. Ela devia estar pensando que teve sua parcela de responsabilidade ao não me satisfazer como deveria.

Eu não recebi mais nenhuma ligação do Wagner.

E assim se passaram alguns meses de tranquilidade. Até que o inferno se abriu diante de mim novamente.

***

Eu tinha acabado de fazer uma entrega num condomínio residencial no centro da cidade e quando volto para pegar minha moto, ela não está no lugar onde eu a havia deixado. Andei de um lugar para o outro, aquela sensação estranha quando a gente pensa: “será que eu deixei aqui mesmo”?

Comecei a ficar desesperado, coloquei as duas mãos na cabeça e não sabia o que fazer. Sentei-me na sarjeta e comecei a chorar.

***

Saí da delegacia no final da tarde completamente perdido. Se eu chegasse em casa e contasse à minha mulher, seria o início de uma discussão. Eu teria que voltar a entregar de bicicleta e o dinheiro não seria suficiente pra pagar as contas.

Peguei o telefone, deslizei o dedo pela lista de contatos até a letra “V”. Eu tinha cadastrado o número dela com o nome “Vé Amor”. Eu ia tocar para chamá-la quando vi logo abaixo uma entrada da agenda só com um “W”. Só tinha essa letra. Cliquei no W.

– Por que você está me ligando? – ele atendeu assim, sem dizer alô.

– Aconteceu uma merda comigo – falei e respirei fundo. – Posso passar aí? Só quero conversar.

Percebi que o Wagner também respirou fundo do outro lado, mas respondeu.

– OK, tô te esperando.

***

Chamei um Uber e em dez minutos eu estava diante da casa dele. Quando ele apareceu para abrir o portão, não tinha no rosto o sorriso de sempre. Foi muito educado e pediu para eu entrar.

– Fui roubado – falei assim que entramos na sala.

– Como assim, roubado?

– Roubaram minha moto – falei e comecei a chorar. Sentei-me no sofá e coloquei as duas mãos no rosto. – Eu tô fudido, cara, eu preciso trabalhar. Não tenho dinheiro pra comprar outra moto.

– Ah, então foi por isso que você veio aqui. Já entendi.

– Não! – falei agora olhando sério pra ele, os olhos molhados de lágrimas. – Não, cara, juro que nem pensei nisso.

– Então por que você veio aqui?

Fiquei em silêncio. Boa pergunta. Por que eu tinha ido até ali? Fiquei calado e ele continuou:

– Você sabia que sua mulher me ligou esculhambando comigo? Disse que tinha encontrado dinheiro e meu cartão de visita no meio. Que ela sabia quem eu era. Disse que sabia onde era a agência. Falou tanta merda que eu cheguei a tremer de raiva. O que eu ia dizer? Depois de ser humilhado e xingado dos piores nomes que você possa imaginar, só consegui desligar e depois bloquear o número dela.

Continuei calado sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Antes de eu chegar em casa ela já tinha ligado para o Wagner para dizer tudo aquilo.

– Ela quase me matou com uma facada – falei olhando para o chão, a mão novamente cobrindo o rosto.

Ele pareceu surpreso. Nós não nos falamos mais e ele não poderia mesmo ter imaginado o que tinha acontecido.

– Como assim tentou te matar?

Eu só arregacei a manga da blusa e mostrei a cicatriz.

– Se eu não tivesse botado o braço na frente, hoje não taria vivo.

Ele ficou me olhando, depois sentou-se ao meu lado e ficamos assim os dois. Mudos.

Ele colocou os braços em volta dos meus ombros. Aquele toque foi o estopim. Comecei a chorar, mas já não era por causa da moto, era por causa de tudo. Minha cabeça tinha dado mil voltas nos últimos meses, eu já não me reconhecia.

Então eu o abracei de volta. E ficamos assim por um tempo, ele alisando meus cabelos e eu apoiado no seu peito. Senti segurança nos seus braços fortes. Não era só uma segurança física, senti-me amparado. Levantei o rosto e nós nos olhamos. E nos beijamos.

***

O que aconteceu depois foi a experiência mais incrível da minha vida. Nós arrancamos a roupa um do outro e eu vi o corpo do Wagner por inteiro pela primeira vez. Era o corpo de outro homem, a carne era firme ao contato, a barba fazia cócegas, o beijo tinha mais fome. Foi tão alucinante que quando lembro hoje, tudo volta à minha mente como num sonho.

Largamos nossas roupas no tapete da sala e corremos para o quarto. Um vulcão entrou em erupção dentro de mim. Engraçado, porque é assim que me vem à memória aquele momento, como se aquele desejo sempre estivesse guardado, um rio de lava que por anos aguarda o momento certo para explodir na superfície.

Transamos feito dois animais. Eu queria experimentar aquele novo contato, aquela nova forma de sentir prazer. Deixei que ele me chupasse, depois experimentei fazer o mesmo nele. Foi muito diferente experimentar o pau de outro cara na boca. Eu o penetrei e gozei rápido.

A gente deitou por um tempo, mas não estávamos satisfeitos. Voltamos a transar e eu o comi pela segunda vez. Só então paramos, exaustos e molhados de suor.

Deitei a cabeça no seu peito, coloquei o braço ao redor dele, uma perna jogada sobre suas pernas. Ele alisava meus cabelos.

– Estou indo embora mês que vem – disse ele.

Franzi o cenho e o encarei.

– Embora? Pra onde?

– Pra Ushuaia. Lembra aquele lugar que você disse que queria conhecer um dia? No sul da Argentina, onde tem um monte de pinguins? O Fim do Mundo – disse ele e riu, mas o sorriso logo se apagou. – Depois do telefonema sua mulher apareceu na agência. A situação ficou difícil com meus funcionários aqui, então resolvi fechar tudo e abrir uma agência por lá.

– Você vai abrir a agência e depois volta, né?

– Não. Estou indo com toda a mudança. Já vendi a casa, já vendi tudo. Lá na Argentina já está tudo certo também, eu tinha muitos contatos lá em Ushuaia.

Eu fiquei quieto e depois o abracei mais forte, como se aquilo fosse suficiente para não deixá-lo ir.

– Vem comigo – ele disse olhando no fundo dos meus olhos e percebi um leve sorriso se formando nos seus lábios.

– Você sabe que eu não posso – falei e deitei a cabeça no seu peito. – Eu não quero que você vá.

– A sua vida é bastante complicada, Fernando. Eu não quero complicá-la ainda mais – ele falou e estava com um olhar triste. – Segue sua vida, você tem uma esposa que te ama.

Neste exato momento eu ouço o telefone tocar lá na sala. Devia estar tocando há muito tempo. Estava na hora de voltar à realidade. Atender a minha esposa, chegar em casa e brigar mais uma vez. Esta era a minha realidade.

***

Aquela noite eu fui do céu ao inferno, exatamente nesta ordem. Aconteceu como eu imaginava e as coisas em casa ficaram feias.

Durante as semanas seguintes eu me encontrei com o Wagner diversas vezes e tentei convencê-lo a não ir embora, mas as coisas já estavam adiantadas demais. Ele partiria em poucos dias.

Nas poucas semanas seguintes nós fizemos amor. Foi mais que sexo, foi muito mais intenso e eu estava descobrindo novos prazeres. Vivemos aqueles dias como se fossem os últimos de nossas vidas e as lembranças que eu tenho hoje me fazem chorar às vezes.

Ele criou uma conta de email pra mim e me ensinou como usar. Disse que era mais seguro para conversarmos quando eu quisesse falar com ele. Ele disse que me mandaria algumas fotos de vez em quando.

***

Wagner foi embora na data prevista. Dei um jeito de encontrá-lo no portão da casa dele enquanto ele esperava o táxi. Chorei muito.

– Você não quer mesmo vir comigo? Ainda dá tempo – disse ele, só por falar.

– Será que eu vou conseguir te esquecer?

– Me escreve de vez em quando daquele email que eu criei pra você.

Nos abraçamos e ele partiu. Foi a última vez que o vi.

***

Hoje só consigo pensar em como a vida segue por caminhos tão inesperados. O que parece completamente errado hoje pode ser certo amanhã. Ou vice-versa.

A falta de dinheiro em casa foi motivo da última e pior discussão com minha mulher e pela primeira vez eu não me calei. Tivemos uma discussão feia e eu disse que não dava mais. Peguei minhas coisas e fui morar por um tempo com o Pedrão.

Troquei muitos e-mails com o Wagner, a saudade era insuportável.

Hoje estou aqui sentado nesta poltrona e ainda tenho tempo de sobra para me lembrar de tudo isso enquanto olho as nuvens lá embaixo. É a primeira vez que eu ando de avião. As nuvens parecem um tapete infinito de algodão. Eu não imaginava que essas poltronas eram tão desconfortáveis, mas a vista lá embaixo compensa. Às vezes vejo casinhas minúsculas e fico pensando nas vidas lá dentro de cada uma. Cada pontinho uma história e um destino.

O horário previsto de chegada em Ushuaia é às 19:10 e o Wagner disse que estaria me esperando. Ele falou que nevou muito ontem e a cidade estava toda branquinha. Estou ansioso para ver a neve pela primeira vez.

O Pedrão me fez prometer que assim que eu chegasse, era pra mandar umas fotos da neve. Ele já sabe de tudo e é um cara muito legal. É bronco, mas virou meu melhor amigo.

Não sei o que me aguarda. Um país exótico, uma vida completamente diferente, um novo amor. Vou viver este momento sem pensar no amanhã. Vou me dar esta oportunidade de ser realmente feliz.

Pela janelinha do avião eu já consigo ver o topo de montanhas nevadas. Espero que agora a minha vida siga seu curso sem barreiras. Seja no Fim do Mundo ou em qualquer outro lugar.

Comentários (25)

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  • em 16-10-2020 às 15:14 Carlos Dantas
    puta q pariu terminei o conto suspirando
  • em 16-10-2020 às 02:38 Persil
    Um belo conto continue a escrever mais por q relata amor sexo e tudo moderado. Parabéns
  • em 15-10-2020 às 23:59 Zequinha
    Le esta belíssima, fantástica estoira no dia 6/10/20020, etão esta mais que na hora de mundo mais aparecer com outra estoira desse nível, é nsó uma sugestão
  • em 10-10-2020 às 07:46 Gabriel
    O Anderson está virando meio que uma lenda aqui kkkkk, muito bom mesmo, nunca pare de escrever, por favor!!
  • em 09-10-2020 às 03:50 Sammy
    Solo puedo decir que sigo esta página por estos cuentos, y jamás había leído una historia tan bien elaborada. Su contenido te atrapa de principio al fin. Os doy la felicitaciones por tener una imaginación privilegiada y transportarnos a una realidad totalmente distinta a la que nos toca vivir. Ojalá esa historia fuese verídica, me causaría el doble de felicidad por esos personajes. Un saludos enorme y estaré a la espera de más cuentos así. Bsssss desde Uruguay 🇺🇾🇺🇾🇺🇾
  • em 08-10-2020 às 15:39 Luciano Santana
    Parabéns anderson, amei seu conto. Você tem mais contos em algum outro lugar ou plataforma?
  • em 08-10-2020 às 11:30 Anderson Oliveira
    Obrigado a todos os meus leitores! Fico feliz de saber que vocês gostam de uma história mais envolvente e não só uma descrição de sexo como disse o Avaliador aí abaixo. Vou contar como surgiu a idéia para este conto. Eu estava passando pela Praça da Sé aqui em São Paulo, no cruzamento onde inicia a Rua Tabatinguera. Bem na minha frente acontece um acidente. Um carro bate num motoboy e ele fica caído no chão. O motorista do carro envolvido no acidente sai e vai ajudá-lo. Quando passo pelo local, o motoqueiro está tirando o capacete, ainda sentado no chão, aparentemente nada grave. Detalhe: o motoqueiro era simplesmente lindo. Então pensei: e se a partir dali iniciasse algo entre os dois? Foi assim que tive a idéia. Se vocês quiserem algum tema, deixem aqui a idéia para que eu possa desenvolver e transformar numa história. Um grande beijo a todos! Estou trabalhando num conto de terror, vamos ver no que vai dar...
  • em 08-10-2020 às 03:56 Delano
    Melhor ainda será quando CARLOS DANTAS fizer sua narração com a interpretação que só ele tem, a parceria dele com esse incrível autor rendem os melhores áudio contos do mundo mais, aguardo ansioso.
  • em 07-10-2020 às 12:20 marcos40
    Anderson Oliveira, parabéns. Você vem se superando a cada conto. É um escritor. Obrigado.
  • em 07-10-2020 às 09:54 Jr
    De todos conto que ja li até hj este foi o melhor. Parabéns
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