Budismo, espiritismo e umbanda: religiões que acolhem pessoas LGBTQ+

Saiba como vertentes diferentes do cristianismo abordam e enxergam as vivências da comunidade.

por Redação MundoMais

Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2022

As discussões acerca da religião e a relação com a comunidade LGBTQIA+ é ampla e polêmica. Enquanto alguns grupos discutem a importância da diversidade dentro de templos e igrejas, como a Rede Nacional de Católicos LGBT, outros líderes religiosos constantemente condenam relações homoafetivas ou promovem a “cura gay”, afirmando que, segundo a Bíblia, este comportamento não é moralmente correto.

De acordo com uma pesquisa Datafolha, mais da metade dos brasileiros são adeptos de religiões cristãs, sendo que 50% da população é católica, 31% é evangélica, 10% não tem religião, 3% é espírita e 2% segue religiões de matrizes africanas, como o candomblé e a umbanda. Entre os dogmas citados, os seguidores que mais realizam ataques aos LGBTQIA+ são justamente os que integram o cristianismo.

Sérgio Ribeiro Santos, mestre e doutor em Teologia e História, explica que o cristianismo como religião não é algo uniforme, visto que existem várias manifestações e interpretações sobre ele.

“Em primeiro lugar, podemos definir uma religião cristã como uma religião monoteísta independente da vertente dela, ou seja, a crença de que há somente um Deus e que Jesus Cristo é o filho de Deus. Alguns vão discutir o nível dessa filiação ou dessa divindade de Jesus, mas os seus ensinamentos centrais buscam de alguma forma interpretar e aplicar os ensinamentos de Jesus Cristo”, diz.

O especialista ainda discorre sobre os motivos que levam alguns líderes cristãos a reprovarem a comunidade LGBTQIA+. Ele salienta, no entanto, que o cristianismo não é homogêneo, portanto não é possível generalizar as crenças de todas as religiões e vertentes que fazem parte dele. O mesmo pode ser dito de religiões indígenas, de matriz africana ou budistas, por exemplo.

“Dentro do cristianismo e das expressões que se tem dele temos comportamentos diferentes. De um modo geral, ou historicamente e tradicionalmente, o posicionamento com as relações LGBT surge exatamente da própria interpretação bíblica. Então, um ponto fundamental é exatamente o relato da criação, quando Deus cria a humanidade a partir de um homem e de uma mulher. Ou o próprio povo de Israel na antiguidade porque existe uma condenação explícita. Quando se é colocado um padrão familiar, você tem uma referência ao que foi colocado logo no início da criação. Aquilo que seria uma base para a moral ou para a sociedade”, pontua.

Espiritismo

Moacyr Vezzani Neto, educador e palestrante espírita, explica que o espiritismo em si não possui nada registrado oficialmente que se refira à comunidade LGBTQIAP+, justamente porque a sexualidade e identidade de gênero é algo que, na perspectiva dessa religião, não são considerados fatores determinantes da índole ou do merecimentos de coisas boas ou ruins.

“Ele [o espiritismo] fala de pessoas. E quando qualquer pessoa acha que as pessoas LGBTQIA+ tem menos valor ou são diferentes, ou que precisam de um tratamento diferente, essas pessoas podem ter entendido tudo, mas não entenderam o espiritismo e muito menos o cristianismo. Porque nem o espiritismo, tampouco Jesus Cristo, faz qualquer menção a ter algum tipo de preconceito ou intolerância, muito pelo contrário: Jesus acolhia a todos”, explica.

Moacyr explica também que normalmente, quando se leem textos espíritas que se referem à sexualidade ou identidade de gênero, não são os textos originais, e sim produções influenciadas por opiniões pessoais. Ele ainda destaca os principais pontos pregados pelo espiritismo.

“O espiritismo fala de amor, caridade, benevolência, indulgência e de uma série de questões que faz com que todos nós possamos progredir moralmente, espiritualmente, para ter uma vida melhor. Agora, qual a relação da orientação sexual ou o gênero que a pessoa se identifica, como fato dela ser amorosa, caridosa, bondosa, tolerante, paciente, indulgente, benevolente? Não tem. E se você encontrar algum texto em relação à doutrina espírita, se posicionando em relação a isso, são opiniões pessoais”, esclarece.

Ciça Cintra, médium e criadora de conteúdo espírita, por sua vez, pontua ainda que o espiritismo não é contra quaisquer tipos de união e que o amor vem acima de tudo. “A importância é que o amor é a chave para tudo. Quando aceitamos as pessoas e as amamos, o que seria extremamente difícil, se torna um pouco mais fácil. Quando as pessoas entenderem que Deus é amor sem julgamentos, sem distinção de raça, cor, religião, gênero, sexo e sexualidade, aí sim vamos conseguir passar realmente para a regeneração”.

Budismo

Ícaro Matias, da Rainbow Sangha Brasil – um grupo LGBT+ de budismo –, ao ser questionado sobre a visão desta religião acerca da comunidade, esclarece que Buda jamais recriminou a homossexualidade. “De fato, as regras condenavam muito mais o sexo heteronormativo que o contrário. Para os leigos, entretanto, o Buda deixou regras de conduta sexual as quais precisavam ter em mente o sofrimento do outro. Qualquer ato sexual que tivesse como consequência o sofrimento de si ou do outro, deveria ser evitado e era julgado como imoral ou errado. Desta forma, podemos colocar questões como adultério, estupro ou até mesmo você colocar a si próprio em situações de risco envolvendo sexo”, explica ele.

Já com relação à identidade de gênero, Ícaro conta que o Budismo em si defende muito que não existe um “Eu” fixo, uma vez que o ser se modifica constantemente. Ele também explica que a ideia de um "eu fixo", ou seja, algo parecido com identidade, não existe e pode ser também considerada algo que pode levar ao sofrimento a depender do apego que temos a ideia deste nosso Eu que acreditamos ser fixo/imutável.

"Sendo assim, para o budismo, existem vários ‘eus’, que mudam a todo o instante. O eu de ontem não é o eu de hoje, que não será o eu de amanhã. E essa ideia de impermanência e insubstancialidade do Eu, ou seja, um Eu vazio de significados, se aproxima muito do conceito moderno de performatividade de gênero postulado pela teórica Judith Butler. Sendo assim, hoje muitos LGBTs+ têm se aproximado do budismo como um meio de aceitar sua condição queer e muitos budistas hoje têm feito uma leitura queer do budismo, o que hoje podemos chamar de Dharma Queer”, diz.

Ao ser questionado sobre relatos que já ouviu de pessoas LGBTQIAP+ que não foram bem recebidas em outras religiões, Ícaro explica que esse tipo de transtorno é bem comum, especialmente em vertentes ligadas ao cristianismo, catolicismo e religiões protestantes. Por outro lado, ele destaca a importância de não generalizar estas abordagens, uma vez que dentro delas também existem movimentos de acolhida a pessoas LGBT.

“Já ouvimos diversos relatos de opressão religiosa contra LGBTs, principalmente das várias vertentes cristãs, católicos ou protestantes. Uma vez que o cristianismo é majoritariamente a religião brasileira, é mais comum ouvir este tipo de relato vindo destas religiosidades. Mas ao mesmo tempo sabemos que existem alguns movimentos pró-LGBT+ dentro do cristianismo, principalmente entre os protestantes”, expõe.

Sobre a importância do budismo para a comunidade LGBT, Ícaro ressalta principalmente a liberdade dentro da religião, uma vez que Buda não condena as pautas abordadas pela comunidade. “A principal importância do budismo é dar sentido e propósito à vida dos LGBTs+, uma vez que para o budismo, toda e qualquer orientação sexual e expressão de gênero é possível e bem-vinda. Aos olhos do Buda, o caminho do Dharma é para todos, acolhe a todos. Não existe impedimento para a iluminação por causa de uma certa orientação sexual ou identidade de gênero. Não existe, nos discursos do Buda, nada que recrimine os LGBTs”, conclui.

Umbanda

Andreia de Oxum, youtuber e influencer umbandista, quando questionada sobre como a umbanda enxerga a comunidade LGBTQIAP+, ressalta que o que mais se preza neste meio é a igualdade de acolhimento e cuidado. “A umbanda fala que todos nós somos iguais perante ao sagrado, independente de cor, raça, etnia, orientação sexual ou gênero; todos somos filhos do mesmo Deus e que todos devem ser amados, respeitados e acolhidos”, começa ela. Andreia continua a discorrer sobre o assunto pontuando o quanto as problemáticas sociais (machismo, racismo, homofobia, etc.) estão enraizados na sociedade, e, em vista disso, ressalta a importância de mudar aos poucos essas concepções.

“A gente sempre viveu num regime machista, homofóbico e racista. Tudo isso está enraizado na sociedade até hoje. As famílias vieram educando seus filhos e formando seres humanos assim. Enquanto a sociedade não mudar esse pensamento preconceituoso e passar a educar seus filhos para serem pessoas livres de preconceitos, essa cadeia de ódio nunca vai acabar. A mudança só depende de nós mesmos para termos um futuro melhor”, diz.

Para além do acolhimento, Andreia ressalta que um dos princípios da umbanda é lutar contra a intolerância religiosa em si, além dos direitos iguais. “A umbanda é mais que uma religião, é uma família que luta contra a intolerância religiosa que luta pela paz pelos direitos iguais e trabalhamos para ajudar a quem precisa em nome da caridade por um mundo melhor”. Para concluir a explicação, ela dá o veredito: “A umbanda é uma religião de acolhimento. Se não tem respeito, amor e acolhimento, não é umbanda”.

*Por Beatriz Neves

Comentários (5)
  • em 16-01-2022 às 08:33 J. Leandro
    O Cristianismo não persegue quem quer que seja. O Cristianismo prega a paz, a liberdade e o amor.
  • em 15-01-2022 às 09:55 Crente Conservador Bolsonarista
    Seguir a Cristo que é nosso modelo. Eu sempre fui uma pessoa boa mesmo estando na religião errada até meus 30 anos. Mas depois que encontrei Jesus eu melhorei 100% me pensei mais amorosos e respeitador. Até dos que peçam eu tenho compaixão. Não julgo ninguém.
  • em 15-01-2022 às 09:39 Lenny
    Adorei o texto. Foi neutro, sem preconceito. Sou católico praticante e sigo feliz.
  • em 14-01-2022 às 21:34 Felipe Silvares
    Só existe um caminho que leva ao Céu/Paraiso/Ao Pai ETerno Deus Pai, esse caminho é JESUS CRISTO, o filho santo de Deus! Os demais são apenas atalhos, ke infelizmente levam as almas para o inferno de tormentos eternos depois da morte fisica/Terrena! Não adianta só ser bonsinho, deve ser santo como Deus é santo, em toda maneira de viver! O caminho é estreito para o céu, porem é o unico verdadeiro a se trilhar, e quem nos guia nesse caminho espinhoso porem correto é Jesus Cristo! Infelizmente, muitos não aceitam essa realidade! Só darão conta da realidade, quando estiverem no hades sofrendo torturars surreais, mais ai meu amigo, será tarde Demais, infelizmente! Reflita nessas palavras, não custa nada, pois a salvação em Cristo Jesus, é de Graça! Boa noite.
  • em 14-01-2022 às 16:02 Jorge Jorge
    Mas que só existem no Brasil graças à liberdade conferida ao Ocidente pelo Cristianismo. É isso que a maioria tem dificuldade de entender. É comum confundir atitudes de pastores e padres histéricos com o legado de liberdade e dignidade humanas do Cristianismo.