por Redação MundoMais
Terça-feira, 15 de Abril de 2025
Às vésperas da estreia da cinebiografia “Homem com H”, dirigida por Esmir Filho e com estreia prevista para 1º de maio, Ney Matogrosso concedeu uma longa entrevista ao jornalista Eduardo Vanini, publicada em O Globo, na qual revisita momentos marcantes de sua trajetória pessoal e artística. Aos 83 anos, o cantor se debruça sobre temas como sexualidade, espiritualidade, repressão, morte e reconciliações familiares.
O longa-metragem, protagonizado por Jesuíta Barbosa, provocou em Ney uma reaproximação intensa com passagens que marcaram sua formação e sua carreira. “Acompanhei três dias de filmagens, doze horas por dia. Na primeira vez que vi, fiquei um pouco emocionado. Porém, é preciso olhar tudo com naturalidade, não enlouquecer”, afirmou, dizendo que sua única exigência ao diretor foi que “não houvesse mentira”.
Entre os episódios relembrados, está o conflito com o pai militar, que o perseguiu com um revólver quando ele tinha 17 anos. “Ele me botava de castigo e eu disse que não ia ficar. Meu irmão foi por um atalho me avisar. Não ia encarar um revólver de um homem que tinha ido à guerra”, conta. O medo, segundo ele, virou aprendizado. “Falei: ‘Não respeito você, tenho medo. Mas o medo vai passar um dia’. E passou”.
A reconciliação com o pai veio anos depois, quando Ney vivia em São Paulo e passava por dificuldades financeiras. “Ele foi me visitar e disse: ‘Volta para casa, eu lhe arranjo um emprego’. Respondi: ‘Você não entendeu nada. Estou feliz, sou dono da minha vida’”. O reencontro marcou uma mudança na relação dos dois: “Num rompante, dei um beijo no rosto dele. Nunca mais paramos de nos beijar. Fui o único filho que ele beijou. Acho isso uma vitória”.
A sexualidade, tema constante em sua obra e presença de palco, é abordada com franqueza. “Sexo é a liberdade maior. Adoro até hoje, mas não daquela forma exacerbada. É com pessoas que seleciono. Antigamente, não escolhia”, declarou.
Ney afirma que o desejo continua presente e que o Instagram virou, mesmo sem querer, uma ferramenta de paquera. “Nunca tive aplicativo de relacionamento. Agora, as pessoas usam muito o Instagram, que nem sabia que servia pra isso. Aparecem umas pessoas que ficam conversando comigo, mas moram longe. Então, digo: ‘Quando eu passar por aí, quem sabe a gente não realiza?’”, contou, com naturalidade.
Em relação a experiências não monogâmicas, comentou: “Tive uma relação com um homem e uma mulher ao mesmo tempo, durante a época do Secos & Molhados. Mas ela começou a ter ciúmes dele”.
O cantor afirmou ainda que está solteiro por escolha. “Graças a Deus. Não quero me casar com ninguém”. Já sobre paternidade, foi direto: “Pensei nisso, mas logo deixei de pensar, felizmente”. Disse que quase se casou com uma mulher grávida de outro homem para “limpar a barra dela”, mas desistiu ao perceber que ela ainda era apaixonada pelo pai da criança.
Ney também refletiu sobre espiritualidade e morte. Ele contou que foi praticante do Daime por um ano e meio, num momento em que Marco de Maria e Cazuza — ambos diagnosticados com HIV — estavam gravemente doentes. “Era uma loucura na minha cabeça. Entendi que precisava estar disponível para essas pessoas até a última hora”, disse. “Isso me fez crescer. Ampliou o meu panorama humano”.
Sobre a morte de Marco, Ney relatou: “Ele começava a morrer e não morria. Uma noite, a enfermeira disse: ‘Ele já teve uma parada respiratória e voltou. Alguma coisa o prende’. Então, fui lá e falei: ‘Marco, vai tranquilo, você já sofreu demais, descansa’. Ele suspirou, virou a cabeça para o lado e morreu”. Ney disse que o sentiu presente em outros momentos: “Uma vez, fazendo a barba, senti como se ele estivesse entrando em mim. Da outra, eu estava trepando e o senti chegando, mas sem ciúme”.
Ele também defende o direito à eutanásia no Brasil. “Já pedi a um médico amigo: ‘Se eu chegar a um ponto desses, me libera, pelo amor de Deus. Se quiser, deixo escrito’. É um direito de morrer dignamente”, declarou.
A respeito de espiritualidade, além do Daime, Ney passou pelo método Fischer-Hoffman, conhecido por exigir contato com conflitos familiares. “Era uma terapia completamente amaldiçoada, mas adorei. Sacudiu a lama do meu fundo”.
Com relação à carreira, afirmou que não pretende lançar novos álbuns e vive dos shows. “Não quero mais contrato com gravadora. Não sinto necessidade. Passei por várias e não ficava satisfeito”. Reforçou que seus direitos autorais são baixos: “É ridículo, tenho vergonha de falar. Vivo de show”.
Por fim, sobre o filme que contará sua história, acredita que o público será impactado: “Muito ali já foi dito. Mas, quando visto, é outra coisa”. Disse que não dará spoilers, mas reconhece que a cinebiografia pode oferecer outra camada de leitura de sua trajetória.