por Redação MundoMais
Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026
A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgou uma nota onde criticou a escalação do ator Pedro Fasanaro para interpretar a personagem Severina, uma mulher trans, em Dona Beja, a nova novela da HBO Max.
Em nota, a entidade indicou que a Floresta, produtora responsável pela trama, e a Warner Bros Discovery, detentora do serviço de streaming, pecaram em não escalar uma artista trans para o papel, sendo uma classificada como uma prática de trans fake.
"A ANTRA manifesta seu posicionamento crítico diante da prática de transfake na série Dona Beja, a partir da escolha de uma pessoa que, independentemente de sua autodeclaração identitária, foi escalada para interpretar a personagem Severina, apresentada na narrativa como uma mulher trans", escreveu a associação, em nota divulgada no Instagram.
"Essa decisão desconsidera as trajetórias, experiências sociais e as violências específicas vivenciadas por travestis e mulheres trans, além de reforçar uma lógica histórica de exclusão dessa população de papéis que poderiam e deveriam ser ocupados por elas", pontuou o Antra.
Minha existência também é legítima
Na noite deste domingo, 8, o ator Pedro Fasanaro se manifestou em uma postagem no Instagram sobre a polêmica envolvendo sua escalação no folhetim. "Tenho lido com muito respeito e coração aberto as críticas e reflexões que surgiram sobre a nossa Severina, em Dona Beja. Sei que elas nascem de uma dor real", escreveu o ator.
"Severina é uma pessoa dissidente de gênero", pontuou Pedro. "Tenho visto comentários tentando defini-la como mulher trans, mas essa leitura parte de um olhar contemporâneo. No século XIX, tempo em que essa história se passa, não existia o letramento nem a consciência de gênero que temos hoje. Havia apenas dois caminhos socialmente aceitos. Qualquer pessoa fora disso era vista como subversiva, desviada, invertida. Palavras que atravessam a própria narrativa da novela. Severina habita esse lugar do desvio. Ela não se entende, nem se afirma, enquanto mulher. Ela não cabe", justificou.
"Eu sou uma pessoa não binária. Uso esse termo porque ele me é exigido, porque é a linguagem possível hoje. A verdade é que eu não sei exatamente o que eu sou. Eu sou um bicho em travessia. Eu sou uma pessoa dissidente de gênero. Eu sou o que eu sou. Assim como Severina", escreveu Pedro. "E aí eu me pergunto, o tempo todo, em que lugar da transgeneridade eu preciso estar para poder trabalhar e viver plenamente", questionou o artista.
"Reconheço meu lugar de privilégio. Reconheço que personagens cis são mais comuns, mais aceitos e mais ofertados. Quando vocês me veem performando masculinidade na internet, esse espaço de aparências e fantasia, isso é, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência", afirmou o ator. Ainda na postagem, Pedro afirmou ser particularmente cruel ter sua identidade de gênero questionada na internet. "Usar imagens minhas performando masculinidade para desmerecer minha identidade é um apagamento da minha subjetividade", argumentou.
"A discussão sobre transfake é urgente. Pessoas trans são profundamente subrepresentadas. Essa crítica precisa existir. O que dói é quando, nesse processo, alguém como eu, que também vive à margem, é tratado como se estivesse ocupando um lugar que não lhe pertence", pontuou.
Além do texto escrito por Pedro, a publicação nas redes sociais também contam com uma série de fotos do ator em diferentes momentos da vida e da carreira. "As imagens dessa postagem atravessam diferentes momentos da minha vida. Elas estão aqui para lembrar que eu sou muito mais do que qualquer rótulo. E que minha existência, assim como a de Severina, também é legítima", finalizou.