por Redação MundoMais
Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2026
Não é apenas impressão de quem está no meio da multidão: o Carnaval de rua mudou. Nos últimos anos, temos observado um fenômeno crescente: os blocos LGBT+, tradicionalmente criados como espaços de resistência e celebração da diversidade, tornaram-se o destino preferido de um público heterossexual cansado da toxicidade e da insegurança dos chamados “blocos de massa”.
A conta é simples. Blocos como o Das Montadas (DF), Siga Bem Caminhoneira (SP) e Sai, Hetero (RJ) oferecem o que o Carnaval convencional muitas vezes falha em entregar: organização, trilhas sonoras impecáveis e, acima de tudo, respeito.
O refúgio da “Paz e Amor”
Para o público feminino e casais heterossexuais, a migração é uma questão de sobrevivência emocional. Juliana Bastone, de 24 anos, é direta: desistiu dos grandes blocos por causa do assédio. “Aqui não tem esse problema. Mesmo sendo heterossexual, consigo me divertir e beijar com tranquilidade”, afirma ela no Siga Bem Caminhoneira.
Essa sensação de acolhimento é corroborada por dados. Uma pesquisa Datafolha (2024) revelou que 99% dos que trabalham ou desfilam no Grupo Especial de São Paulo sentem que podem ser quem são nesses ambientes. O Carnaval cria uma “bolha” de liberdade que, agora, o público hétero também quer habitar.
Até mesmo o público masculino hétero encontrou vantagens. Júnior Bispo, de 20 anos, nota a diferença no tratamento: “Esbarrei num cara, pedi desculpas e ele falou ‘arrasou gatinho’. Se fosse em outro lugar, era motivo de briga”.
O reverso da medalha: A “Heteronormatização” e o medo da perda
No entanto, essa “invasão” não é vista com bons olhos por todos. Para a comunidade que construiu esses espaços para fugir da violência do cotidiano, a presença massiva de héteros traz preocupações legítimas:
• Perda do Território: O sentimento de “não ser julgado”, citado por foliões como Guilherme Oliveira em Salvador, corre risco quando o público majoritário deixa de ser a comunidade.
• Conflitos e Intolerância: Jefferson Magalhães, frequentador do bloco da Pabllo Vittar, aponta o aumento da agressividade e até de crimes como roubo de celulares, algo que ele associa à mudança no perfil do público. “Tu vai chegar em um menino e ele é hétero e ainda fica com raiva”, desabafa.
• Segurança Seletiva: O paradoxo é cruel: o público hétero busca o bloco LGBT+ por ser mais seguro, mas a sua presença em massa pode acabar trazendo as mesmas práticas de violência (assédio e brigas) das quais eles estavam fugindo.
A Sociologia da Folia: Subversão ou Espelho?
Segundo o sociólogo Vinicius Ribeiro A. Teixeira, autor de estudos sobre o ativismo LGBT+ no Carnaval, a festa não é um vácuo social. Ela é atravessada pelas desigualdades do “mundo real”.
Embora o Carnaval seja um momento subversivo que questiona as estruturas heterocisnormativas, ele ainda reproduz machismos e estigmas. Para Teixeira, participar de um bloco LGBT+ é uma forma de resistência à homofobia e transfobia. Quando esse espaço é ocupado por quem não vive essas lutas no dia a dia, a essência política do bloco pode ser diluída.
O Equilíbrio Necessário
O Carnaval é, por natureza, a festa da mistura. É positivo que o público heterossexual reconheça e valorize a qualidade e a segurança produzidas pela comunidade LGBT+. No entanto, é fundamental que essa “visita” venha acompanhada de consciência.
Um bloco LGBT+ não é apenas uma “festa boa e segura”; é um quilombo urbano, um local de afeto para quem passa o resto do ano em estado de vigilância. Se o público hétero deseja usufruir dessa liberdade, precisa aprender a bater na porta com respeito, sem tentar mudar a decoração da casa ou levar para dentro as brigas das quais diz estar fugindo.
*Por Ernane Queiroz