por Redação MundoMais
Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2026
Exibido na competição oficial do Festival de Cannes, “A História do Som” chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, com distribuição da Imagem Filmes. O sexto longa de Oliver Hermanus reafirma a inclinação do cineasta por narrativas que observam o desejo em tensão com estruturas sociais rígidas.
Ambientado em 1917, o filme acompanha Lionel, interpretado por Paul Mescal, e David, vivido por Josh O’Connor. Estudantes do Conservatório de Boston, os dois se aproximam pela pesquisa da música folk norte-americana. O que começa como interesse acadêmico evolui para um deslocamento geográfico e afetivo. Anos depois, já marcados pela experiência da guerra, partem pelo interior do Maine para registrar canções tradicionais de ex-soldados, repertório ameaçado pela erosão do tempo.
Hermanus organiza a narrativa como um exercício de escuta. As canções recolhidas funcionam como testemunhos orais de uma geração atravessada pela Primeira Guerra Mundial. Não se trata apenas de preservar melodias, mas de captar inflexões de memória, pausas, silêncios. Nesse sentido, o som é tratado como arquivo e como vestígio. A própria relação entre Lionel e David se constrói nesse território intermediário entre o que se diz e o que se contém.
O romance entre os protagonistas se desenvolve de forma gradual, inscrito num período em que o desejo entre homens precisava operar nas margens. Hermanus evita soluções melodramáticas e aposta na contenção como linguagem. Gestos mínimos, olhares e a partilha do trabalho de campo tornam-se sinais de uma intimidade que desafia o ambiente moral da época.
O roteiro é assinado por Ben Shattuck, autor dos contos The History of Sound e Origin Stories, que fundamentam a adaptação. A estrutura literária ecoa no ritmo do filme, que privilegia a observação e a duração dos planos. A fotografia de Alexander Dynan reforça essa proposta ao explorar paisagens invernais e interiores austeros, criando uma atmosfera de recolhimento.
A trajetória de Hermanus ajuda a contextualizar o projeto. Em “Beleza Arrebatadora”, vencedor da Queer Palm em Cannes, o diretor examinou obsessão e repressão na África do Sul do apartheid. Em “Moffie”, indicado ao BAFTA, voltou-se para a experiência de jovens recrutas em um regime militar hostil à homossexualidade. Em “A História do Som”, o olhar permanece atento às fraturas entre desejo e norma, agora articuladas pela música e pela memória histórica.
Produzido entre Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e Itália, o longa passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo antes da estreia comercial no Brasil.