por Redação MundoMais
Quinta-feira, 30 de Abril de 2026
A partir desta quinta-feira, 30 de abril, entra em cartaz nos cinemas brasileiros o longa ‘O Riso e a Faca’, produção do diretor português Pedro Pinho que vem acumulando repercussão internacional desde a estreia na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes. Coprodução entre Portugal, Brasil, França e Romênia, o filme chega ao circuito nacional pela Vitrine Filmes após ser reconhecido por críticos e premiado em festivais, incluindo o troféu de Melhor Atriz para Cleo Diára em Cannes e o Prêmio de Contribuição Artística no Festival de Cartagena.
A trama acompanha Sérgio, engenheiro português enviado por uma ONG a uma metrópole da África Ocidental para avaliar os impactos ambientais da construção de uma estrada. O que se inicia como um projeto técnico rapidamente se transforma em um percurso atravessado por tensões políticas e afetivas. Em meio à presença estrangeira e às dinâmicas locais, o personagem se envolve com Diára e Gui, estabelecendo uma relação íntima marcada por desequilíbrios.
Essa relação a três, longe de operar como mero recurso dramático, estrutura o filme como um campo de fricção entre desejo e poder. O encontro entre Europa e África não se limita ao plano geopolítico: ele se manifesta nos corpos, nos afetos e nas formas de vínculo que se constroem sob condições assimétricas. A intimidade, nesse contexto, aparece como espaço instável, atravessado por dependências e negociações constantes.
Pedro Pinho parte da ideia de que o poder incide diretamente sobre os corpos dos “outros”, situando a narrativa em um ambiente de capitalismo pós-colonial. Escritórios de ONGs, festas da comunidade expatriada e deslocamentos urbanos compõem um cenário em que o gesto de “ajudar” convive com estruturas históricas de dominação. O protagonista, descrito pela crítica como um “espelho”, encarna essas contradições sem ser reduzido a um papel unívoco.
Nesse percurso, o filme também sugere uma dimensão de desejo que escapa a classificações fixas. O que o diretor define como um “devir queer” emerge em espaços de sociabilidade e encontros noturnos, sem se organizar a partir de identidades declaradas, mas como movimento — algo que se constrói e se desfaz ao longo da narrativa.