por Redação MundoMais
Segunda-feira, 11 de Novembro de 2019
O cinema adora uma saga sobre colegas de quarto que se desentendem. Às vezes esses filmes terminam em clima de harmonia, reconhecendo que os opostos se atraem (Um Estranho Casal, A Garota do Adeus) e o destino junta bufões compatíveis (Quase Irmãos). Em outros momentos a discórdia entre os personagens leva ao homicídio (Mulher Solteira Procura), despejo (Missão Madrinha de Casamento) e outras consequências infelizes.
O Farol ocupa um espaço intermediário entre esses dois extremos. Robert Pattinson e Willem Dafoe são faroleiros numa ilha isolada ao largo da costa do Maine na década de 1890, onde passam quatro semanas fazendo trabalho físico cansativo e cuidando do farol. O tempo começa a piorar, e o clima de tensão aumenta. Todos os problemas que surgem quando dois homens dividem um espaço confinado viram uma luta pelo poder – emoções reprimidas, tarefas, tédio, refeições, hormônios, flatulência.
Por baixo do psicodrama todo há uma ternura nunca verbalizada que é, para resumir, homoerótica.
Ephraim Winslow (Pattinson) chega para ser aprendiz de Thomas Wake, (Dafoe), responsável pelo farol há anos. Quando os dois se vêem sozinhos, enfrentando-se num cabo-de-guerra mental, Ephraim vira submisso, e Thomas, dominante. Por mais que eles externem paradigmas hipermasculinos, sua condição isolada e solitária trai a carência afetiva que estava presente neles desde o início.
Em um primeiro momento, Ephraim parece revelar uma fixação edipiana pelo mal-humorado Thomas, invejando o acesso de seu chefe ao farol, que exerce uma atração mística sobre ele, enquanto ele próprio é relegado a cuidar das tarefas mais pesadas e sujas. Mas, alimentado por eufemismos fálicos e bebida barata, essa inveja dá lugar a algo mais erótico. Quanto mais os dois homens reprimem seu desejo por companheirismo, mais a intimidade se mescla com hostilidade. Ephraim e Thomas acabam dançando à noite e chegando delirantemente perto de se beijarem.
Apesar disso, o filme não chega a explicitar os desejos reais dos dois homens. Rodado em preto e branco nítido que acentua o ambiente de época, O Farol é um redemoinho de ambiguidades. Mesclando humor e suspense, o diretor Robert Eggers deslancha a mesma paranóia trêmula que infundiu a seu trabalho de estreia, o ótimo A Bruxa. Sob o efeito hipnótico da história, torna-se impossível distinguir o real do imaginado.
Robert Eggers, Willem Dafoe e Robert Pattinson no Festival de Cinema de Cannes, 19 de maio de 2019.