por Redação MundoMais
Terça-feira, 04 de Fevereiro de 2020
Em fevereiro de 2017, o brutal assassinato da travesti cearense Dandara Kethlen, de 42 anos, chocou o Brasil e o mundo. Dandara levou chutes, pauladas e foi espancada até ser morta a tiros em plena luz do dia em uma rua de Fortaleza (CE). Ela virou símbolo de luta e, agora, seu nome batiza uma nova ferramenta que tem o objetivo de mapear zonas de risco para a população LGBT.
Produzido pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em parceria com a Antra (Associação Nacional de Transsexuais e Travestis) e a ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos), o app Dandarah quer proporcionar um ambiente virtual em que os usuários poderão não só apontar endereços perigosos, mas acionar rede de apoio.
“Como usar essas tecnologias para ajudar a combater a violência contra a população LGBT? Foi essa pergunta que a gente fez e tentou colocar em prática”, diz Angélica Baptista Silva, especialista em saúde digital e pesquisadora da Fiocruz, uma das profissionais responsáveis pelo app.
Ela afirma que a intenção da Fiocruz com a criação de uma ferramenta como o Dandarah é compreender as dinâmicas dos tipos de violência mais recorrentes contra esta população, como criar uma espécie de banco de dados e descobrir qual é perfil do agressor, por exemplo. De acordo com a pesquisadora, é preciso atacar um problema que se perpetua: a subnotificação dos casos.
Em 2019, o STF (Supremo Tribunal Federal) criminalizou a LGBTfobia, porém, não há medidas que obriguem a tipificação correta de crimes de homofobia, transfobia, ou ataques a gays e lésbicas. Para a pesquisadora, a ausência do Estado traz dificuldades para mapear casos com uso de boletins de ocorrência.
“A gente também pretende mostrar que existe uma organização do movimento social que está provocando o Estado para que ele crie iniciativas de proteção à essa população”, diz.
Além de Silva, outros seis pesquisadores do projeto Resistência Arco-Íris, da Fiocruz participaram da elaboração da ferramenta, financiada por uma emenda parlamentar do ex-deputado Jean Wyllys, no valor de R$ 500 mil.
Desde que foi lançado, em dezembro de 2018, no Rio de Janeiro, o aplicativo foi baixado por mais de 5 mil usuários. Dandarah está disponível, na Play Store, para aparelhos Android e, em breve, estará na App Store, para iOS.
No Dandarah, a construção é coletiva. Quem vai apontar as áreas pelo Brasil como seguras ou perigosas serão os próprios usuários do aplicativo. Para utilizá-lo, basta baixá-lo no aparelho celular e fazer um cadastro ― com opções de respeito à identidade de gênero, assim como a orientação sexual.
E não é só quem sofre a violência que deve sinalizar o perigo. Terceiros que presenciarem ― mesmo que não forem LGBT ― algum tipo de agressão contra travestis, trans, gays, lésbicas e bissexuais também podem fazer registro na plataforma apontando o local e o grau de violência sofrido pela vítima. Isso poderá ser feito ao apertar o botão “Informar violência” no aplicativo.
Há também a opção “Informar local seguro” e, por isso, pode haver equívocos dos próprios usuários. Pesquisadores informam que áreas que são violentas, mas por algum motivo forem apontadas como seguras serão checadas pelo sistema por meio de dados disponíveis e atualizadas pelos próprios usuários.
A ferramenta também dispõe de um “botão do pânico” que pode ser acionado quando o usuário estiver envolvido em alguma situação de agressão intensa e precisar de ajuda imediata. O dispositivo envia uma mensagem de socorro automática para até cinco pessoas de confiança cadastradas no sistema.
Após receber a mensagem, os contatos de emergência recebem a localização da vítima ― que é possível atualizar em tempo real ―, os telefones da Polícia Militar, dos serviços de resgate e o endereço da delegacia mais próxima de onde o fato aconteceu.