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Artistas PcD LGBTQI+ enfrentam a invisibilidade e pedem mais espaço

No Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, o cantor Juan Guiã e o ator Pedro Fernandes contam como é ser uma pessoa queer com deficiência e artista.

por Redação MundoMais

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2022

Juan Guiã e Pedro Fernandes são artistas com deficência e fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+.

Ser um indivíduo LGBT+ e PcD no Brasil é algo pouco discutido e traz diversas dificuldades para quem vive essa realidade diariamente. Embora haja uma crescente atuação desses grupos nas redes sociais, sobretudo criadores de conteúdo, os artistas e a grande parte desse grupo ainda são poucos amparados ou reconhecidos.

Alguns exemplos de criadores de conteúdo PcD como Ivan Baron, Mariana Torquato, Pequena Lo, Hawk, Leandrinha Du Art e Eduardo Victor enfrentam não somente a falta de espaço dentro deste mercado disputado, mas também precisam encarar de frente o capacitismo, que é o preconceito contra pessoas com deficiência.

Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, apontou que 8,4% da população brasileira acima de dois anos (representando 17,3 milhões de pessoas), tem algum tipo de deficiência. O censo de 2010 também mostrou que há mais de 45 milhões de pessoas com algum grau de deficiência no país. Entretanto, menos de 1% de PcD estão empregados no Brasil, segundo os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais).

Além disso, o Brasil, pelo quarto ano consecutivo, é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+, como evidencia o relatório produzido pelo Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI+, de 2022. Diante desse panorama desfavorável, encontrar artistas da comunidade e PCDs é uma tarefa difícil porque a cultura no país vem sofrendo com o descaso do governo federal e as verbas públicas de incentivo não chegam ao destino certo.

A importância da data

O Brasil comemora nesta quarta-feira (21) o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, oficializada em 2005 pela Lei nº 11.133, e os dois artistas defendem a importância dessa data porque ela gera debate e movimento, mas ainda é preciso de mais avanços.

“O país ainda tem uma enorme desigualdade em relação às oportunidades para nós pessoas com deficiência. Esse dia nacional vem para reforçar a existência dos nossos corpos. Entretanto, a data não deve ser lembrada somente no dia 21 de setembro, ela tem que ser lembrada diariamente, pois os nossos corpos precisam ser naturalizados”, argumenta Pedro Fernandes, ator carioca e produtor cultural, um homem cis e gay.

“O Brasil precisa avançar cada vez mais na pauta, ainda mais com o desmonte que vivemos nos últimos quatro anos. É só refletir um pouco sobre como é a vida dos artistas e PcD brasileiros hoje em dia, para enxergar a urgência de se alavancar o tema”, completa Juan.

Além disso, Pedro também pontua que é preciso que essa discussão seja mais abrangente dentro da sociedade, para que haja uma visão mais plural para lidar com as diferenças de cada pessoa PcD, pensando também nos recortes de raça, gênero e classe. “São recortes diferentes, por isso, é muito importante naturalizarmos essa discussão”.

Falta de representatividade e preparo da sociedade

Há uma enorme falta de representatividade, pouco debate e preparo para que as pessoas com deficiência sejam respeitadas, implicando em um desgaste gigantesco e uma invisibilidade sobre o tema, e ambos concordam.

“Nas contratações, as pessoas não levam a sério a importância da necessidade de equipamentos e estrutura para executar meu trabalho precisamente. No cotidiano, afeta meus relacionamentos pessoais e sociais, já que não escuto direito, e isso atrapalha na comunicação”, conta Juan Guiã.

“Eu ainda vejo, por exemplo, principalmente no audiovisual e na televisão, de uma forma geral, que ainda é muito pequeno esse espaço para nós. Tem muitos atores sem deficiências interpretando papéis de PcD, e isso é muito errado, porque você entra em um local de fala que não é o seu”, defende Pedro.

Embora formado, o ator não consegue sobreviver da sua arte, precisando buscar outras profissões para conseguir se manter. Pedro também tem formação em Marketing, é estudante de Serviço Social e pós-graduado em Gestão Pública.

Apesar de ser difícil e precisar de mais avanços, há projetos que buscam trazer visibilidade para os indivíduos PcD, como no caso do Vale PCD, criado por Priscila Siqueira, mulher cis, bissexual, psicóloga e pessoa com deficiência física.

O Vale PCD nasceu em 2020, com o objetivo de trazer visibilidade e representatividade para a pauta das pessoas com deficiência LGBTQIA+. Ele é o primeiro coletivo nacional com esse objetivo. “Começamos como um espaço de mapeamento de lugares acessíveis e hoje temos serviços de psicoterapia, empregabilidade e acessibilidade em eventos, tudo voltado tanto para as pessoas com deficiência, quanto pessoas LGBTQIA+ sem deficiência”, explica Priscila.

A psicóloga também enfatiza que é preciso mostrar que pessoas com deficiência são diversas e estão presentes em todos os recortes sociais e em todas as minorias. “Com o Vale, queremos reivindicar o nosso espaço e mostrar cada vez mais as nossas potencialidades e interseccionalidades”, exalta.

Desde 2015, há a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, que visa assegurar e promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência, visando a inclusão social e cidadania plena.

Todavia, Pedro pontua que ela não é eficaz. “Temos a LBI que não é cumprida, tanto em empresas privadas, quanto públicas e também no meio artístico. É o que deveria ser cumprido, mas essa igualdade e proporção de oportunidades não existem. Por mais que tenhamos leis e políticas públicas, ainda são muito desiguais e ineficazes. Há falta de oportunidades e a sociedade ainda não está preparada para nossos corpos”, fecha o ator.

22-09-2022 às 09:35 Lipe
Essa coisa de que os atores têm de ter as características dos personagens é tão complexa. Perde-se o ponto número um do ator que é se transformar. Se tivermos um jogador de futebol, precisamos de um? Se for um assassino, temos de ir à cadeia selecionar elenco?
22-09-2022 às 09:32 Lipe
As letras aumentam mais e mais…. O que significam PN?