por Redação MundoMais
Sexta-feira, 10 de Julho de 2026
A formação de profissionais, o respeito ao nome social e uma comunicação mais eficiente entre os serviços estão entre as medidas apontadas por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) para aprimorar o atendimento à população LGBT+ no Sistema Único de Saúde (SUS). As análises foram reunidas em reportagem publicada pela revista Ciência UFPR.
A discussão ocorre 15 anos após a instituição da Política Nacional de Saúde Integral LGBT, que prevê o enfrentamento da discriminação institucional e a qualificação permanente das equipes. Como apoio, a reportagem recupera o estudo “Barreiras e potencialidades do cuidado integral à saúde de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no estado do Paraná”, publicado em 2023 por pesquisadores da UFPR e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
O trabalho analisou quatro grupos de discussão realizados em outubro de 2018, com 48 participantes, entre representantes do movimento LGBT, profissionais de saúde e gestores do SUS no Paraná. Os relatos foram divididos entre barreiras ao cuidado e possibilidades de melhoria.
Entre os problemas identificados estavam a dificuldade de acesso aos serviços, a falta de dados, a discriminação, as falhas na articulação entre diferentes níveis de atendimento e a pouca presença das necessidades LGBT na formação acadêmica. Acolhimento, capacitação profissional e integração das redes de saúde apareceram entre as propostas apresentadas.
Formação não deve ficar restrita a uma disciplina
Professora do Departamento de Enfermagem da UFPR, Laura Christina Macedo afirma que a preparação insuficiente permanece mesmo em graduações que atualizaram seus currículos. “Ela persiste mesmo em cursos com projetos pedagógicos mais atualizados”, disse à Ciência UFPR.
Segundo a pesquisadora, temas como acolhimento, saúde mental e necessidades clínicas relacionadas à orientação sexual, à identidade de gênero e à anatomia de cada paciente devem aparecer em diferentes momentos da graduação.
O doutorando em História da UFPR Augusto Platini Menna Barreto Gomes também defende que o assunto não seja tratado apenas em uma atividade pontual. “Não se trata de adicionar uma aula isolada de inclusão no final do semestre”, afirmou.
A formação continuada precisa alcançar, ainda, quem já trabalha no SUS. Para Macedo, a educação permanente deve envolver profissionais da medicina, enfermagem, saúde bucal e recepção.
“É importante combater formas sutis de discriminação: aquela violência invisível que não necessariamente se manifesta em comentários inadequados, mas afasta a população LGBT+ dos serviços de saúde”, declarou a professora.
Atendimento começa antes da consulta
O cadastro, a recepção e a maneira como uma pessoa é chamada podem influenciar a continuidade do atendimento. “Perguntar o nome social e os pronomes não é uma questão de etiqueta; é o reconhecimento da existência de um sujeito”, disse Gomes, que também coordena o coletivo ViverAção.
A articulação da rede é outro ponto citado. Uma pessoa pode ser atendida adequadamente em uma unidade básica, mas enfrentar dificuldades após o encaminhamento caso as informações não sejam compartilhadas com o serviço especializado.
Gomes também relaciona parte do sofrimento psíquico da população LGBT+ à exposição contínua à discriminação. “As altas taxas de suicídio LGBT+, por exemplo, residem no esgotamento crônico de habitar um tecido social e institucional que recusa nossa existência diariamente. A identidade não adoece ninguém; o que adoece é o desgaste de precisar sobreviver à norma”, argumentou.
O pesquisador menciona ainda a associação automática entre homens gays e infecções sexualmente transmissíveis, a ideia de que mulheres lésbicas e bissexuais não precisam de acompanhamento ginecológico e o desconhecimento sobre cuidados indicados para pessoas trans e intersexo.
“Enquanto a dissidência de sexo e gênero for tratada como uma nota de rodapé, um exotismo ou um problema a ser domesticado, a prática em saúde continuará falhando no seu princípio mais elementar, que é o de não causar dano”, concluiu.