por Redação MundoMais
Quarta-feira, 30 de Setembro de 2026
Rui Takahashi, de 26 anos, tornou pública sua orientação sexual nesta terça-feira (29), pouco antes do início de mais uma temporada na elite do vôlei japonês. Jogador do Suntory Sunbirds Osaka, Takahashi se torna o primeiro atleta de que há registro na principal divisão masculina do país a falar publicamente que é gay.
Em uma mensagem publicada nas redes sociais, Takahashi contou que durante anos teve dificuldade para lidar com a própria orientação sexual. “Lutei contra isso e acabei por negar quem era”, escreveu. Na mesma publicação, o jogador afirmou: “Essa é a realidade: sou gay e faço parte de uma das minorias sexuais”.
A declaração foi acompanhada de uma foto em preto e branco e publicada quando Takahashi se prepara para continuar no Suntory na temporada 2026-27. O clube confirmou a renovação de seu contrato em maio e manteve o camisa 21 no elenco anunciado para a nova temporada.
Takahashi atua como ponteiro e está no Suntory desde 2022. Na temporada 2025-26 da SV.League, entrou em 47 partidas pelo clube. A competição reúne a primeira divisão profissional masculina do Japão.
Apoio da família
Na declaração, Rui atribuiu parte de seu processo de autoaceitação ao irmão mais novo, Ran Takahashi, também jogador de vôlei e integrante da seleção masculina do Japão. Os dois dividiram o elenco do Suntory por cerca de dois anos, até a saída de Ran ao fim da temporada 2025-26.
“Falar com Ran foi o fator decisivo que finalmente me permitiu aceitar-me pela primeira vez”, afirmou Rui. O jogador relatou que colocar seus sentimentos em palavras o ajudou a organizar o que vinha enfrentando. Aos poucos, segundo ele, passou a entender que poderia viver sem negar essa parte de si. Na mensagem original em japonês, Takahashi escreveu que começou a pensar que estava tudo bem ser quem era.
Além do irmão, ele agradeceu à família, aos companheiros, à comissão técnica e às pessoas que o apoiaram ao longo desse processo. A proximidade da temporada 2026-27, explicou, pesou na escolha do momento para falar também aos torcedores.
Takahashi disse que pretende continuar dedicado ao vôlei e acrescentou que espera que a decisão tenha alguma utilidade para pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes.
“Ficaria feliz se a minha decisão de me enfrentar a mim próprio e falar com as minhas próprias palavras pudesse, ainda que modestamente, servir de catalisador para essas pessoas”, escreveu.
LGBT+ no esporte do Japão
A Pride Japan, publicação japonesa especializada em questões LGBT+, aponta que Takahashi pode ser o primeiro homem em atividade no esporte profissional do país a falar publicamente que é gay. O dado mais seguro, porém, está no vôlei masculino profissional japonês: não há registro anterior conhecido de um jogador da primeira divisão que tenha tornado pública sua orientação sexual.
O esporte japonês já teve outros casos de atletas LGBT+ que falaram abertamente sobre suas vidas enquanto ainda competiam. Em fevereiro de 2019, a futebolista Shiho Shimoyamada tornou pública sua orientação sexual aos 24 anos, quando atuava pelo SV Meppen, então na segunda divisão feminina da Alemanha. Nas redes sociais, escreveu que era jogadora de futebol e tinha uma namorada. O Japan Times a apontou posteriormente como a primeira atleta profissional japonesa a falar publicamente que era gay ainda durante a carreira. Shimoyamada relatou que a experiência na Alemanha, onde convivia com companheiras LGBT+ que levavam suas parceiras a compromissos do clube, ajudou a criar um ambiente no qual se sentiu mais à vontade para falar sobre si.
Dois anos depois, em 2021, Kumi Yokoyama tornou pública sua identidade como homem trans. Aos 27 anos, Yokoyama atuava pelo Washington Spirit, da liga profissional feminina dos Estados Unidos, e já havia somado 43 partidas e 17 gols pela seleção japonesa, além de disputar a Copa do Mundo de 2019. Em entrevista publicada no canal da ex-companheira de seleção Yuki Nagasato, contou que viver na Alemanha e nos Estados Unidos havia facilitado o contato com ambientes mais abertos à diversidade e afirmou que não teria feito a mesma revelação enquanto morava no Japão. Também relatou que evitou iniciar tratamento hormonal durante a carreira por receio de possíveis implicações nas regras antidoping.
Japão ainda não reconhece casamento gay
A declaração ocorre enquanto os direitos de pessoas LGBT+ continuam sendo discutidos nos tribunais japoneses. O Japão ainda não reconhece legalmente o casamento entre pessoas do mesmo gênero. Nos últimos anos, cortes superiores de diferentes regiões do país consideraram inconstitucional a exclusão desses casais do casamento, enquanto a Corte Superior de Tóquio chegou a conclusão diferente em novembro de 2025. Os processos levaram a questão à Suprema Corte, que ainda não apresentou uma decisão capaz de uniformizar o entendimento no país.
Em 2023, o Parlamento japonês aprovou uma lei voltada à ampliação da compreensão sobre diversidade de orientação sexual e identidade de gênero. O texto afirma que não deve haver discriminação injusta por esses motivos e prevê ações do governo, das administrações locais, das escolas e dos empregadores. A própria administração japonesa esclarece, porém, que a legislação não contém dispositivos que proíbam a discriminação. Em junho de 2026, o governo aprovou o primeiro plano nacional para orientar a implementação da lei.